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Escritório de Futuros Prováveis S/A

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Tudo na vida de Rafael era exato. Ele pautou sua vida pela regra, pela precisão e pela técnica. Tudo na vida de Rafael podia ser quantificado. Tudo cabia exatamente em um gráfico. Esse era seu orgulho. Essa era a causa de sua frustração com seu emprego.

Rafael se formou em matemática e se destacou por sua tese, na qual desenvolveu uma fórmula, considerada impossível, para determinar com exatidão a posição e o volume de um polígono perfeito formado por quaisquer pontos em n dimensões. Seu trabalho foi tão aclamado que ele foi imediatamente recrutado por um grupo de investidores para fundar o Escritório de Futuros Prováveis S/A.

Todos os dias, Rafael recebia exatamente vinte fichas. Delas, ele extraia todos os dados necessários para determinar, com a maior precisão possível, o futuro de cada uma das vinte pessoas que pagaram somas impensáveis para descobrir o que as esperava, dali até o resto de suas vidas. Suas análises pautavam um complexo programa, que poderia ser operado por qualquer técnico da empresa, para oferecer um relatório completo do destino mais provável do cliente.

Esse seria o trabalho perfeito para qualquer gênio do porte de Rafael, mas ele não estava satisfeito. Por mais que se esforçasse, por mais que adicionasse dados, refinasse as fórmulas, expandisse as variáveis, ao final, o melhor resultado seria uma probabilidade. O que era mais do que satisfatório para os clientes, que recebiam relatórios com a precisão sempre acima de 99%. Sempre acima de 99%, mas, ainda assim, abaixo de cem. Esse era o tormento de Rafael.

Para qualquer pessoa, para qualquer regulamento, para qualquer questão, uma resposta com uma margem de erro quase infinitesimal era mais do que o esperado. Mas não para Rafael.

Regido pela precisão, ele considerava ignorantes todos que se satisfaziam com algo que pudesse ser expresso em uma probabilidade. O que ele entendia e, aparentemente, só ele entendia era que mesmo a menor das probabilidades ainda era um resultado possível e isso invalidava todo o cálculo, tornava tudo incerto.

Rafael continuou a se dedicar à descoberta da fórmula perfeita. Um cálculo tão poderoso e exato que os sócios anônimos não teriam outra opção senão mudar o nome da empresa para Escritório de Futuros S/A.

Mesmo sendo um cético por natureza, estudou e buscou padrões até nas formas mais místicas de previsão do futuro. Desenvolveu fórmulas que transformavam as linhas das mãos em um gráfico perfeito, calculou o peso das folhas de chá que chegavam ao fundo da xícara, redefiniu e reinventou o cálculo do horóscopo e determinou todas as variáveis extraíveis da análise grafológica. Quantificou e reformulou todos os meios de previsão do futuro que o ser humano já inventou. E quando Rafael dizia todos, isso não se tratava de uma hipérbole.

Os anos passavam e o Escritório de Futuros Prováveis S/A se tornava mais famoso e mais poderoso. Cada líder mundial e celebridade, ao ver uma das previsões relatadas pela empresa se realizar, divulgava e arrebanhava uma legião ainda maior de clientes, sedentos pelo mapa do destino.

Isso só aumentava o desgosto de Rafael. É óbvio que alguns, ou mesmo a maioria, dos futuros estarão certos. Tudo pode acontecer, tanto o provável quanto o improvável. Para ele, os resultados surpreendentes não eram melhores do que os oferecidos por um relógio quebrado, que está correto duas vezes ao dia.
Atormentado, mas incansável, Rafael continuava seu trabalho, com uma certeza: ele descobriria o cálculo exato. Isso não era uma esperança, nem automotivação. Para Rafael, uma certeza era, exatamente, uma certeza.

Com parte do resultado alcançado, ele já havia determinado o número de horas necessárias para concluir o trabalho. É claro que aquela quantidade de horas talvez fosse mais do que a vida normal de um ser humano. Rafael resolveu esse problema, determinando exatamente quais alimentos ele teria que ingerir, e em quais quantidades, para viver o suficiente e atingir o resultado. Adicionou na conta o tempo e a variedade de exercícios necessários para que seu corpo continuasse funcionando. Equalizou inclusive a temperatura ideal de seu escritório e de sua casa, para a preservação rigorosa de sua saúde.

Tudo na vida de Rafael era exato.

Mesmo antes de terminar suas formulações, uma constatação surgiu em meio ao futuro quase certo que havia calculado: o Escritório de Futuros Prováveis S/A não poderia mais existir.

Enquanto estivesse vivo, iria se manter vigilante e garantiria que os relatórios emitidos pelo Escritório viessem, única e exclusivamente, das suas fórmulas. Sem ele no comando, qualquer um poderia optar por escrever o futuro que lhe interessasse para um cliente e isso, como seus cálculos já tinham demonstrado, poderia alterar o futuro real de pessoas, empresas e mesmo da História. Também era certo que a decisão de encerrar uma empresa daquele porte era algo que fugia ao próprio controle. Mas não havia problema para o qual Rafael não pudesse calcular uma solução.

Constantemente reaplicando e reavaliando suas fórmulas, inclusive em sua própria vida, ele determinou como tudo terminaria. Tudo em sua vida era exato. Esse era seu desejo e essa seria a opção que ele deixaria para todos.
Aos cento e sete anos, três meses, vinte e um dias, doze horas, quatorze minutos e sete segundos, Rafael morreu, exatamente como tinha previsto, um segundo depois de disponibilizar, gratuitamente, um programa onde qualquer um poderia preencher suas variáveis e receber, em instantes, um relatório preciso – que levava em conta inclusive a tendência da pessoa de se rebelar contra o futuro correto – de como seria cada passo de sua vida.

Uma vida que, boa ou má, feliz ou triste, ao menos seria exata, como a de Rafael.

 






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