Esperando Godot

Acho que não tem texto mais clássico no teatro contemporâneo que Esperando Godot de Samuel Beckett, escrita em 1952 e estudada, debatida e encenada a exaustão desde então.

A peça é de uma delicadeza absurda. O texto é completamente aberto deixando uma discussão enorme para o espectador. É extremamente profundo, filosófico, reflexivo E, o mais importante, divertido.

Na proposta de Beckett, Esperando Godot é um jogo de palhaços, o que dá a peça uma leveza poética que só o teatro físico oferece. O texto está lá, pode ser lido de mil formas diferente, o que dá o tom, no fim das contas, são as opções do diretor, sua escolha de elenco, de como o ator deve compor o personagem fisicamente, os detalhes de figurino, cenário, sonoplastia, luz e tudo mais são o que fazem o texto brilhar ou sumir.

E a montagem recente dirigida por Léo Stefanini tem tudo na medida certa para brilhar.

Um dos grandes acertos de cara está no elenco que conta com a experiência de Ary França e tem como destaque o trabalho físico surpreendente de Fábio Espósito. Apesar do formato de dupla cômica gordo e magro já ser algo consagrado, é sempre fantástico ver ao vivo um ator como Espósito que tem o trabalho físico afinado e o simples contraste de uma leveza de movimento com a corpulência do ator já em si é algo que justifica ir assistir à peça.

Além do elenco excelente e um cenário bem conceitual outro acerto do diretor foi optar por um ritmo mais ágil na peça. Sem atropelar nada, sem cortar nada, o texto fica com um pouco mais de uma hora e meia (há montagens desse mesmo texto que passam de duas horas), o resultado é algo que respeita completamente o texto sem correr o risco de dar aquela cara de “clássico chato/cansativo”.

Enfim, quem tiver oportunidade, recomendo muito essa peça que conta, inclusive, com um bate-papo no final sobre as impressões da plateia e algumas curiosidades da produção.

Dito isso, queria deixar uma visão minha sobre quem é Godot. Pra quem não conhece a peça, Vladmir e Estragon vivem em um ciclo interminável de dias em que esperam uma resposta para uma solicitação não explicitada feita para Godot que nunca aparece para respondê-los.

Muito se debate sobre quem é Godot e cada pessoa meio que encaixa sua própria vida na peça e personifica Godot em algo que entrava seu cotidiano. Essa é uma interpretação que funciona, mas, pessoalmente, fazendo uma leitura meio literal das “pistas” do texto, pra mim Godot simboliza a culto a deus das diversas religiões.

Meu raciocínio é o seguinte:

Vladmir e Estragon fazem uma solicitação (= prece/suplica) para Godot, uma pessoa que não fica claro que eles realmente chegaram a conhecer pessoalmente.

Eles esperam eternamente pela resposta e, ao mesmo tempo que nunca recebem uma resposta, todos os dias são visitados por um pastor (apesar de ser literalmente um pastor, esse personagem pode representar, no meu raciocínio, qualquer “emissário” de deus, padre, rabino, etc) que lhes diz que Godot não vem, mas no dia seguinte virá sem falta.

Então você tem um humano que todos os dias ilude as pessoas em nome dessa entidade,  que pode nem existir, que detem todas as respostas.

Óbvio que isso é uma visão particular minha e que, como todas as leituras individuais, é reducionista, mas a beleza do texto é justamente essa, permitir uma discussão infinita.

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Serviço:
TEXTO: Samuel Beckett
TRADUÇÃO: Fábio de Souza Andrade
ELENCO: Ary França, Fábio Espósito, Fernando Paz e Eugênio La Salvia.
APRESENTANDO: Gregório Musatti
DIREÇÃO: Léo Stefanini

Dias e horários: Terças às 20h
Ingressos: R$ 50,00 (inteira) e R$ 25,00 (meia entrada)
Teatro FAAP

EsperandoGodot