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Eu e os gatos

Um dos meus projetos para essa versão do Diletante Profissional era ter uma seção de Crônicas, ia estreá-la com a minha visão sobre a crítica e os quadrinhos, mas comecei a fazer esse desenho abaixo e naquele momento que você se desliga e desenha eu lembrei dessa história e lembrei que queria fazer crônicas sinceras e então isso aconteceu.

Quando era criança sempre tive cachorros, cachorros grandes, pastores alemães. Morava no interior, em casa com quintal, então fazia algum sentido. Mas eles sempre foram mais dos meus pais do que meus.

Depois que mudei para São Paulo e vi que viveria para sempre nessas caixinhas que chamamos de apartamentos, não cogitei mais ter animais.

Lá em 2001 estava trabalhando em uma peça chamada A menina que descobriu a noite, na FUNARTE quando perguntaram se alguém do grupo queria um gato que tinha sido abandonado lá. Eu olhei o gato e simpatizei com ela.
Na época morava com um amigo e perguntei se podia trazer um gato para casa e ele disse que “se eu cuidasse da higiene felina” tudo bem.

Trouxe para casa esse gato que por muito tempo se chamou Gato. Na época eu não sabia que os gatos de pelagem tricolor eram obrigatoriamente fêmeas e quando a esposa do zelador do prédio disse que o gato era gata e estava prenha eu não acreditei muito.

Mas fui no veterinário que tinha na rua de trás, o Vitor, e ele confirmou. Uns meses depois, em uma segunda-feira, a gata teve cria, mas só um filhote ficou vivo e ficou com a gente mesmo.

Idiota que eu era, achava que o filhote seria esperto como a mãe, que sabia dormir no beiral da janela sem maiores problemas, mas óbvio que o coitado caiu do terceiro andar e só assim eu aprendi porque é obrigatório ter tela nas janelas quando você tem um gato.

O Vitor tratou do gato que acabou ficando manco, mas bem.

Me mudei do apartamento, morei por um bom tempo só eu e os gatos e continuei sempre indo visitar o Vitor que virou um amigo meu. Ele foi o primeiro amigo que tive que morreu. Um dia ele me contou que estava com câncer e ele pirou muito até o dia que a mulher dele me ligou para avisar que ele tinha ido.

Tempos depois quando conheci minha esposa, os gatos ainda não tinham nome e ela ainda não gostava de gatos. Isso mudou muito rápido e ela se apegou muito a Flora e o Olie.

Mas a vida do Olie não foi fácil, ele começou a ficar doente e o levei à uma veterinária próxima que quis operar a perna dele. Nessa época eu descobri que os veterinários são como os médicos e quando se formam na faculdade se especializam em uma coisa, mas, ao contrário dos médicos, a maioria trabalha como uma espécie de “clinico geral”.

Quem assistiu House MD deve se lembrar que uma vez ele disse que se o paciente vai ao oncologista, vai ouvir que tem câncer, se vai infectologista que tem uma doença infecciosa e por aí vai. Eles sempre vão para o lado que sabem mais e às vezes não era essa a questão.

O caso do Olie foi muito parecido, a veterinária se especializou em ortopedia, então a dor do gato certamente era nos ossos.

Com ele debilitado da cirurgia, cada vez pior, eu não queria saber mais de veterinário, mas a gente procurou outra veterinária e quando fui contar toda a história comecei lá no Vitor e a morte dele e pensei na morte do gato e chorei tanto que nem conseguia falar.

É claro que à essa altura o problema do Olie já era muito mais evidente e irrecuperável e depois de uns dias minha esposa fez a coisa mais difícil para quem tem um animal de estimação, foi buscar a caixinha vazia no hospital veterinário onde ele se foi.

Todo mundo fala da “independência” dos gatos, de como eles não se apegam, mas, depois que o Olie se foi, a mãe dele ficou muito mal e fizemos o inevitável, adotamos a Kami, uma filhotinha que era praticamente só orelhas para fazer companhia para a Flora.

Hoje vivo com essas duas criaturinhas, a Flora já velhinha, mas surpreendentemente ativa, e Kami medrosa e grudada na minha esposa, que em um passado remoto nem gostava de gatos.

Eu ainda tenho um trauma imenso de veterinários e sempre que olho para minha velhinha e lembro quantos anos ela tem penso que não quero ter mais gatos depois delas – todo mundo pensa isso no momento que o animal querido vai e, no geral, logo depois a gente ignora isso e vê que não adianta deixar de viver por medo de sofrer.

 






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