A gente se acostuma com o fim do mundo

Martin Page está na minha lista de autores preferidos, apesar de eu estar seguindo pela sua obra mais ou menos de trás para frente. O primeiro livro que eu li dele foi Talvez uma história de amor e logo ali me apaixonei pelo trabalho dele, uma espécie de cotidiano expressionista com personagens a deriva.

A gente se acostuma com o fim do mundo é outra joia com muitas coisas para se apreciar.

Antes de mais nada um dos motivos que eu admiro o autor é sua capacidade de se ater ao essencial, construir romances enxutos textualmente repleto de frases perfeitas. Destaquei algumas citações que eu recortei do livro para dar uma ideia do que eu estou dizendo antes de prosseguir com a resenha:

“Às nove horas em ponto o edifício começa a digerir seu alimento humano”

“Você tem um defeito nos olhos que faz com que veja as pessoas de quem você gosta como se fossem mais bonitas do que realmente são.”

“A solidão é uma amante que precisa que lhe sejamos infiéis.”

“Não nos libertamos daquilo que é suave”

“o melhor serviço que nossos conhecidos podem nos prestar é mostrar aquilo que já sabemos”

“O príncipe se apaixona pela bela adormecida porque acha que ela não vai acordar”

“Vivemos a maior parte do tempo em alguma saliência do passado. (…) o amanhã desaparece antes mesmo de nascer”

“O maior dos luxos não é o dinheiro ou o poder, são os meios que permitem conferir inocência a si próprio”

“Economizamos energia e nos livramos de muita confusão quando nos damos conta de que não somos obrigados a ter uma opinião sobre determinada coisa”

“Pode-se confiar nos mortos e nos livros.”

“…mas às vezes, para continuar a viver, não temos outra opção a não ser cometer um erro.”

“É perigoso dizer a uma criança que ela tem talento, sobretudo quando isso corresponde à verdade. Ela acreditará nisso e, trinta anos mais tarde, estará sozinho num apartamento de dois cômodos, ruminando, desperdiçando sua capacidade de amar, ao lado de um gato velho e com uma dor preocupante nos pulmões.”

“É deprimente constatar que, quando podemos realizar nossos sonhos, eles já não nos interessam mais.”

“A culpa é um prazer ao qual se deve saber renunciar.”

E a eficiência textual desse autor fica ainda mais patente pelo fato de que suas histórias não têm figurantes, personagens pequenos, que muitas vezes seriam meros nomes e funções jogados por um livro ganham vida e cor com a apresentação do essencial sobre a vida deles.

Sobre a história, o livro acompanha um momento da vida de Elias, um produtor de cinema de um grande estúdio francês com a carreira em franca ascensão.

Um dos temas centrais do livro é a busca pela identidade, a maior parte dos personagens, inclusive o próprio Elias, têm uma dificuldade para entender quem são, porque agem como agem. Cada um parece ter uma clareza maior sobre a vida do outro do que a de si próprio e, como nos outros livros do autor, apesar da vida desses personagens estar seguindo um rumo bom ou ruim, eles parecem a deriva nessa correnteza de eventos.

Page constrói habilmente a narrativa dessas vidas, amarrando-as e escondendo do leitor as motivações dos personagens, principalmente para as ações mais extremas, o que prende a atenção e cria aquela sensação de urgência em quem lê. O livro não tem uma trama complexa, mas essas motivações ocultas que se desdobram aos poucos são o grande ponto de tensão na relação leitor/autor.

Além de Elias e seu círculo de amigos peculiares, uma personagem muito bem construída, com uma peculiaridade ímpar diante da própria vida é a escritora Margot Lazarus, uma autora com tendências suicidas cuja a história o dono do estúdio onde Elias trabalha decide comprar.

Posso falar horas sobre tudo que eu gosto no trabalho de Page, mas acho que vale mais a pena parar aqui na expectativa de que tenha te convencido a ler esse livro excelente.

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