Guardiões da Galáxia vol. 2

[Essa resenha tem uma versão em vídeo aqui > https://youtu.be/uGgZhSZjmcs]

Eu tinha gostado bastante do primeiro Guardiões da Galáxia, um filme que surpreendeu muita gente por ser feito com personagens desconhecidos e, ainda assim, ter sido um sucesso imenso.

Antes de ver o vol. 2 tentei assistir de novo o primeiro e percebi que, em casa, sem o impacto do cinema, o filme perdia um pouco o brilho.

Então vi o segundo ontem, no cinema em IMAX 3D e tive a sensação de que o filme só é excelente se você assistir nesse esquema de imersão total do cinema, principalmente se você é ou foi leitor de quadrinhos de super-heróis.

O visual do filme é muito grandioso, já na primeira cena o diretor mostra que ele pretende fazer algo diferente em termos de fotografia e, aos poucos, você começa a ter a sensação de que está imerso em uma HQ. Isso é algo difícil de explicar para quem nunca leu, mas existem “ângulos de câmera” (pontos do vista) que são bem típicos dos quadrinhos, mas que não são tão comuns nos filmes.

Uma das coisas é uma valorização dos cenários. É muito comum para abrir um novo capítulo de uma história começar com um panorama do cenário e colocar os personagens esboçados pequenos no meio daquilo. James Gunn fez muito isso no filme quando saltava de um ponto para outro da história. E isso, junto com um uso bem adequado do 3D, criando cenários com uma profundidade tridimensional impressionante, junto com a nitidez do IMAX, cria, no filme, várias cena de tirar o fôlego.

Aliás, isso, a estética bem colorida e as cenas com milhares de naves e ou pessoas, remete muito para o que o Jack Kirby fazia nos seus quadrinhos espaciais, o que contribui para toda a aura retrô do filme.

Fora as cenas abertas, nos quadrinhos, um recurso muito usado, é um ponto de vista que distorce a perspectiva na anatomia dos personagens (por exemplo o ponto de vista de baixo para cima muito próximo do pé do personagem, que deixa o corpo dele com uma distorção que lembra quando você olha um prédio grande da calçada. Isso é algo muito legal de desenhar e de ver que foi bem transposto para o filme.

Outra questão estética importante no filme é que visualmente ele conversa muito com Thor e Doutor Estranho, ou seja, a Marvel está muito atenta na questão dos seus filmes não só se integrarem na história e nas participações, mas também ter uma unidade para que, apesar dos estilos de direção diferente, de fato pareçam estar na mesma realidade imaginária.

Para completar esse conceito de experiência de imersão temos a trilha sonora.

Tem muitos filmes com trilhas legais que acabam virando uma colagem de grandes clipes. A cena em que trilha rola e a edição condensa várias ações diferentes sem diálogos para agilizar a história (tecnicamente isso é chamado de movie montage) é algo que parece falso em dezenas de filmes, algo que parece uma forçação da geração de diretores que se formou fazendo clipes para a MTV nos anos 90.

Em Guardiões não. Aquela trilha meio gasta de hits dos anos 80 que é impossível de resistir e que sabemos as letras de cor são uma parte extremamente importante da história e da composição dos personagem. Tanto que logo na primeira cena de ação, o Rocket prepara uma caixa de som para que eles possam ouvir música enquanto enfrentam um monstro espacial.

O primeiro filme já tinha um bom uso da trilha e, como muitas coisas que funcionaram no primeiro filme, o uso da trilha com uma função narrativa foi intensificado na continuação.

Outra coisa bem intensificada é o clima anos 80. O primeiro tinha várias referências, mas esse (talvez influenciado pelo sucesso de Stranger Things que talvez tenha se influenciado pelo sucesso do primeiro filme) coloca as referências a essa década em grande destaque.

Quem viu o primeiro filme sabe que todas as referências do Starlord vinham dos poucos anos que ele viveu na Terra nos anos 80, mas nesse isso se aprofunda e parte para referências mais obscuras como, uma participação David Hasselhoff (ator da série Super Máquina) como ele mesmo (de certa forma). Fora que tem uma participação do Sylvester Stalone, nada mais anos 80 do que isso.

Pessoalmente eu tenho a impressão de que você tem que ter no mínimo 30 e poucos anos para compreender e rir de muitas das piadas do filme e precisa ser fã de quadrinhos para se empolgar com outras tantas (a própria participação do Stan Lee nesse filme, que amarra todas as outras nos outros filmes é algo para fãs, pois depende de um explicação se você não conhece razoavelmente o universo Marvel).

Mas, mesmo sem compreender isso, acho que o filme funciona muito como uma experiência de imersão audiovisual, divertida e empolgante.

Você pode ter reparado que eu não falei sobre o roteiro e nem dei spoilers, o motivo disso é bem simples, o roteiro é quase irrelevante para a história e tentar analisá-lo só diminui o filme. Quem viu o trailer sabe não só qual é o tom da história, mas como ela vai terminar, porque o roteiro segure rigorosamente uma formulinha narrativa quase tão repetida quanto os hits da trilha. Sabe aquela história de um grupo de amigos que briga muito, que se separa e se reúne porque eles são a família que escolheram uns para os outros? É isso, é uma história sobre amizade, sobre o conceito difuso de família que não está ligado a sangue. O Starlord poderia até dizer a frase final de Sons Of Anarchy se quisesse “me desculpe se a família que me foi dada prejudicou tanto a família que eu escolhi”.

Sabe, não é que o roteiro seja ruim, ele funciona, principalmente na construção dos personagens (Drax, por exemplo, está um personagem tão bom que parece que o lutador Dave Bautista é um grande ator), mas só isso. O que torna o filme um sucesso é, de fato a direção, o ritmo e as escolhas estéticas.

Por isso eu reforço (lembrando que eu não gosto muito de ir no cinema porque acho caríssimo, no IMAX o ingresso é quase $60, e porque sempre tem muita gente chata*) vá no cinema ou vai ser difícil de entender porque as pessoas gostaram tanto do filme. Eu mesmo não lembro de outro filme que eu tenha gostado tanto por causa do bom uso do Imax.

Ah, como já foi amplamente noticiado, o filme tem cinco cenas extras, nada que vai mudar sua vida, mas todas bem legais, então espere até o final e vá vendo todas. Isso não é um spoiler exatamente, mas uma delas cita um personagem que, quando eu vi o primeiro filme, era minha aposta para ser o pai do Starlord. Essa cena faz referência a Adam Warlock, um personagem que vale a pena dar uma pesquisada porque ele certamente terá um papel em Vingadores 3.

* Eu sempre tento ir em horários alternativos, fugir das estreias, mas percebi uma coisa essa vez que fui em um horário bem de pico e na estreia: a pessoa que vai nesse horário, assim como eu, comprou o ingresso uma semana antes e quer muito ver o filme e tende a ser uma pessoa que não vai fazer ficar falando durante o filme ou mexendo no celular, porque ela realmente está empolgada com tudo aquilo, é a pessoa que vibra quando abre a cena aparece um Ego, o planeta vivo com seu rosto gigante. Quando você vai nos horários alternativos tem mais chance de pegar aquela pessoa que estava de passagem e entrou em qualquer filme e que vai fazer tudo que puder para estragar a sessão de todos.

Se você gosta desse clima anos 80 veja também Stranger Things e leia o livro Jogador nº 1 e, não deixe de assistir, Kung Fury, que é a síntese do cinema dos anos 80.

 

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