Homem-Aranha: de volta ao lar

Finalmente chegou o novo Homem-Aranha, reiniciado, com tudo novo e devidamente inserido no universo cinematográfico da série.

O personagem teve a sua estreia no filme Capitão América 3: Guerra Civil e é justamente desse ponto que segue.

É importante dizer que, mesmo sendo o “primeiro” filme do herói nesse novo contexto, ele não é um filme modorrento de origem, com aquelas intermináveis repetições da história que todo mundo conhece e ninguém aguenta mais ver.

O filme parte de uma série de pressupostos. Pressupõe que o público sabe que os poderes do personagem são similares a de uma aranha e que veio de uma picada de uma aranha radioativa (mas se alguém tiver dúvida disso que já é praticamente uma mitologia moderna, essa questão é citada brevemente em uma fala); pressupõe que o público viu os principais filmes da Marvel, sabe quem é o elenco do Homem de Ferro, sabe quem são os Vingadores e que conhece parte da história que rolou até aqui; e, mais importante, pressupõe que o público não é idiota e consegue acompanhar um roteiro simples sem que ele tenha aquele didatismo arrastado.

As pessoas falam muito do projeto e do plano da Marvel, de como os filmes são legais, mas acho que ninguém levanta uma questão muito importante que é: os demais filmes de super-herói tratavam o público como completos idiotas. Não só se davam ao trabalho de recontar toda a origem, mas o faziam de forma excessivamente didática, cansativa, chata; não é de surpreender que normalmente os filmes elogiados das franquias eram os segundos filmes, aqueles sem todo o arrasto.

E veja, não estou dizendo que o roteiro de Homem-Aranha é primoroso. Ele segue uma fórmula clássica da escolinha de roteiros de filmes de ação e se você assiste o trailer pode ter certeza que já vai saber toda a história, como tudo vai acontecer e quando.

Vou confessar que, mesmo com tudo acontecendo conforme a partitura prevista, eu me diverti tanto com o filme que tive várias pequenas surpresas e uma em particular, que eu não vou contar mas se você viu o filme você sabe, é justamente uma daquelas que as pessoas poderiam considerar um excesso de conveniência do roteiro, mas eu estava tão imerso que não a vi chegando e adorei.

E a questão da adaptação em si, como está?

Bom eles limaram uma característica que muitos diriam que é intrínseca do personagem que é o pesar pela morte do Tio Ben que foi causada por uma irresponsabilidade do Peter Parker. Isso é uma parte importante da história do personagem porque ela traz um componente dramático forte que o constrói como herói. Ao mesmo tempo é algo que deixa o personagem com muito peso, algo que deixa muito triste a sua história e o trava um pouco tudo.

O Homem-Aranha do Stan Lee aprende a virar herói na marra pela tragédia máxima. Esse novo Aranha se constrói aos pouco como herói por uma combinação do sonho de ser herói (algo natural para alguém que cresceu nesse universo com super-heróis pipocando por todo o lado e salvando o dia) e pela tentativa e erro, porque não tem um manual, um livro ou uma fórmula, é algo que se aprende na prática. E isso, com os dilemas da adolescência já compõe um peso considerável sobre o personagem.

E assim, mesmo tirando essa camada, mantiveram o espírito da HQ. Peter é um eterno perdedor, tudo sempre dá errado, ele acaba em um monte de situações ridículas, tem que deixar de lado a chance de sair com a menina que gosta para salvar o dia, não tem dinheiro, todo mundo sacaneia ele e, além de tudo, nesse filme, tem o Tony Stark controlando todos os movimentos dele, pesando em todos os erros que ele comete.

Ou seja, foi bom tirar dele esse drama do tio, porque permitiu montar um personagem completo, que faz jus ao original e, ao mesmo tempo, tem espaço para ser mais engraçado e divertido do que deprê.

O lance dele estar inserido no universo Marvel ajudou muito também na questão do “realismo”. O traje profissional foi feito por Tony Stark e é bem diferente do uniforme improvisado que ele é capaz de fazer.

Além disso, o cenário permitiu dar uma origem muito curiosa para o Abutre, interpretado por Michael Keaton. No filme ele começa com uma empresa para reciclar os equipamentos alienígenas da batalha dos Vingadores lá no primeiro filme, até que o governo junto com o Stark proíbe essa atividade. Ele segue com a equipe na ilegalidade juntando os destroços e criando armas para contrabando. A história é simples, coerente, funcional e o resultado, inclusive o resultado visual é excelente.

Minha única crítica é que, na questão visual, não é um filme tão bem filmado e tão grandioso visualmente como alguns outros da Marvel. Nem precisa se preocupar em ir ver 3D que não vale a pena. Diria até que se você não estiver muito ansioso, pode esperar e ver em casa mesmo que vai ser mais barato e tão divertido quanto.

O resultado é um filme muito divertido, mais uma parte excelente desse conjunto precioso que é o Universo Marvel, mas que é um pouco menos grandioso na ação, o que é, até certo ponto proposital, porque a ideia é fazer ele mais pé no chão e se propõe a redefinir até melhor que nos quadrinho o título de “amigão da vizinhança” que sempre acompanhou o personagem.

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P.S.: tem uma baita homenagem a essa cena clássica do Ditko que ficou excelente no filme