Hora de apertar o reset do Brasil

[Esse texto tem uma versão em vídeo aqui https://youtu.be/KK0tP_S_0Ps ]

Eu detesto falar de política porque parece um tema em que as pessoas perderam totalmente a razoabilidade.

Quando você olha a opinião das pessoas pelas redes sociais parece que elas escolheram seu político de estimação e que defendem com unhas e dentes esse ser humano, ao ponto de se cegar e propagar até as maiores mentiras para ajudar essa paixão cega.

As pessoas deixaram de lado a formação de uma ideologia de fato em troca de uma paixão ou ódio cego por uma pessoa.

Você pode gostar ou pode odiar, mas o Lula é o nome mais central da história contemporânea desse país. Quando eu era criança ele era visto como vilão pelos mais velhos que diziam que se você tinha dois carros ele iria tomar um de você e dar para outra pessoa. Se você tinha um quarto sobrando, ele colocaria uma família morando ali com você.

E esse pensamento ajudou a eleger o Collor como herói nacional.

Ao mesmo tempo as pessoas mais “cultas” propagavam que o Lula era a salvação do país. O Lula e os heróis do PT eram a luz na escuridão da corrupção instaurada, alimentada e propagada desde a chegada da monarquia portuguesa no Brasil.

Lula, era vilão para muitos, ao mesmo tempo que era nossa trava de segurança, era quem lideraria o povo contra os crimes dos políticos.

Essa era a imagem do Lula que eu vi ser eleito presidente, ele era a última pessoa honesta em um mar de bandidos.

Não vou questionar se a administração dele trouxe mais bem do que mal, se equalizou a questão social no Brasil ou não, porque isso é debatível por infinitos ângulos.

Pra mim, o principal ponto do Lula antes da presidência e o Lula pós-presidência é que nos 12 anos que o partido dele seguiu a frente do país ele conseguiu destruir completamente qualquer referencial de honestidade que o país tinha.

Lula virou o Maluf, alguém que rouba mas faz.

Pra mim, a perda de um referencial, a perda de poder ter a ilusão de que alguém poderia agir pelo interesse dos outros e não distribuir no esquema “dois para mim, um para o Brasil” foi o maior problema.

Na eleição passada eu votei nulo, porque me parecia inaceitável escolher entre o ruim e o pior, além de ser impossível de saber quem era o ruim e quem era o pior. Eu achava aceitável as pessoas optarem por este ou por aquele, mas me incomodava profundamente a defesa apaixonada deste ou daquele, pois, como já disse, a maior herança da era pós-lula foi a perda da ilusão da santidade de alguém.

Depois disso veio o impeachment.

O Brasil paralisou e ficou assistindo um espetáculo de interesses onde os resultados poderiam ser: ou ficar com uma presidente insustentável politicamente ou ficar com um vice que obviamente era bandido de alto calibre.

Inclusive demorou bastante para despencar a cortina. Temer e a maioria dos políticos estão envolvidos em tantas coisas horríveis que demorou muito para aparecer algo como esses gravações que coloca o presidente no centro um escândalo vergonhoso e coloca o Aécio, que muitos defenderam com muita paixão, em um buraco até mais fundo, reservado para quem fala de boa que precisa de 2 milhões em dinheiro vivo e que manda matar alguém se for preciso.

Eu fiquei paralisado com esse noticiário, não pela revelação em si, pois os últimos anos já nos ensinaram que todos ali no topo são da pior espécie, mas pela expectativa do que iria acontecer.

O natural para um bandido do nível do Temer é exatamente o que ele fez, não renunciar, dizer que é inocente, dar um foda-se para o país e continuar a rotina do saque.

Mas por um momento eu achei que talvez ele renunciasse, não pelo bem do país, mas para fazer um acordo melhor, um onde ele sumisse da vida pública depois de encaminhar a eleição indireta de outro bandido do calibre dele, um jeito do Temer se garantir ao mesmo tempo tiraria o Brasil do choque. Porque acreditar que ele renunciaria pelo bem do país é o mesmo que acreditar em conto de fada.

Agora, depois de dois dias inerte, ouvindo um noticiário que não oferece nenhuma perspectiva a não ser a volta para o cotidiano bizarro, onde o presidente é um monstro declarado, o congresso é um antro pior ainda que optou por se calar completamente diante da situação (vamos combinar que esperar que o congresso que colocou Temer lá se mova para tirá-lo é uma ilusão de que já perdemos faz tempo) resta a questão de o que faremos.

Deveríamos todos protestar, fazer uma greve geral, parar o país de vez?

Sim, talvez. Mas sejamos sinceros, esse congresso de pessoas notoriamente corruptas, que se elegeram com as pessoas sabendo que eles eram notoriamente corruptos, vai ligar para esses protestos?

Se você fosse um bandido do nível de um Temer, o que você faria?

A lei está do lado dele. O processo criminal no STF se arrastará tanto que ele quisesse teria tempo de se reeleger e terminar mais uns 3 mandatos até chegar perto de uma sentença.

Resta como última esperança o processo bizarro no TSE que julga se a chama Dilma/Temer agiu honestamente na eleição!

Sejamos sinceros, que sentido faz um processo que diz que a eleição é inválida quase três anos depois dela. Que justiça tem nesse processo? Ele não desfaz nenhum estrago, ele só demonstra claramente que no Brasil o crime compensa, porque você pode fraudar uma eleição, cumprir todo um mantando e só então, quando está em casa contando o dinheiro que roubou, receber a notícia que aqueles quatro anos não deveriam ter sido assim.

Queria poder dizer que tem uma solução, que tem algo a fazer, que tem algo para mudar, queria dizer que a gente pode apertar o botão de reset, um botão que implodiria todos os políticos em atuação e nos permitiria começar de novo, com uma eleição que fosse justa, que elegesse pessoas melhores ou piores, mas que não entrassem por essa via viciada que só leva para esse caminho… mas nesse jogo não dá para tirar a tomada de três pinos da parede e colocar de novo para reiniciar.

O poder que a democracia deixou para o povo é sentar e esperar, a economia vai esfarelar, os pobres ficarão mais pobres, alguns ricos ficarão menos ricos, outros ficarão mais, como o sr. JBS que aproveitou a delação dos seus crimes para especular com dólares e fazer mais fortuna ainda. Mas, no geral, a maioria das pessoas seguirá trabalhando como conseguir, seguirá vendo seu dinheiro ser sistematicamente roubado por um governo mais interessado em si próprio e em enriquecer essa casta que se acha acima da realidade.

Não sei se isso é vida se não é, se tem lugar melhor do que aqui, se não tem. Mas cada vez mais me parece que estamos na era da desesperança e descrença, na era onde vemos constantemente os heróis viverem tempo o suficiente para virarem vilões.

Em tempos como esse, em que a realidade é por demais sombria, sinto que a paixão pela arte e pela ficção é um refúgio. Eu não posso mudar nada na realidade, não posso reiniciar o Brasil, então sigo aqui, indicando trivialidades, reforçando as estruturas das artes que estão ao meu alcance, para viver até morrer da verdade.

(obs. Na imagem em destaque não é o Temer, é o Vincent Price se sufocando, o Temer Jamais foi escrito pela Renata Emiko)

 

Temos a arte para não morrer da verdade.
Friedrich Nietzsche. A Vontade de Poder.