Jogador nº 1 – o filme

Eu sou um grande fã do livro que deu origem ao filme. (leia minha resenha do livro aqui).



Para situar quem não conhece a história, ela se passa no ano 2045, em um mundo distópico em que a situação social foi se esfacelando e a realidade é tão difícil que as pessoas passam a maior parte do seu tempo dentro do OASIS, um jogo de realidade virtual. Esse jogo foi criado por James Halliday e é inspirado em todas as coisas que ele gostava na sua infância nos anos 80.

Quando Halliday morre, ele deixa um testamento que diz que há um easter egg (um prêmio secreto) dentro do OASIS. Quem conseguir encontrar 3 chaves escondidas no jogo, receberá toda a herança dele, que inclui o controle sobre o OASIS.

Várias pessoas como o protagonista Parzival vivem tentando decifrar esse mistério. O vilão do filme é uma corporação maligna chamada IOI que usa todos seus recursos para encontrar as chaves e assumir o controle do OASIS para ter um controle total sobre a vida das pessoas. (Tem uma ironia aí IOI, lembra muito o nome da empresa AOL, uma das primeiras gigantes da internet que foi absorvida pela Warner que é a produtora do filme).

Quando eu li Jogador nº 1, achei um dos livros mais divertidos que eu tinha já tinha lido.

Mas tenho que ser bem honesto. O livro não é excelente, ele é um livro técnico, com um roteiro todo fechadinho, seguindo as regras de narrativa e que, se fosse pelo texto em si, não teria relevância alguma. É aquela coisa, é um livro que tecnicamente não tem erros, mas isso não o torna bom.

O que faz o livro uma leitura tão deliciosa é que ele vai pegando o leitor pelas referências oitentistas, pelos filmes, as músicas, o esquema de um universo que é um jogo e, principalmente pela dinâmica dos desafios das chaves e o escalonamento das situações que culminam em uma batalha final grandiosa onde vários dos seres mais poderosos da cultura pop se enfrentam.

Obviamente eu queria muito ver isso no cinema e nenhum diretor seria mais adequado do Steven Spielberg.

Mas vamos falar sobre o filme em si.

Eu fiz todo esse prelúdio para dizer que eu gostei do filme porque eu gostei do livro, simples assim.

O filme adaptou bem a história, mudou alguns pontos para torná-lo mais próximo de uma aventura cinematográfica cheia de cenas de ação que funcionam muito bem. Como esperado há referências por todos os lados e é possível passar uma vida congelando frame a frame para caçar todas as brincadeiras escondidas ali.

Nesse sentido é meio um sonho de uma vida para um fã. Sabe, ver uma corrida maluca com todos os carros clássicos, ver uma batalha com todas as criaturas gigantes que a ficção criou, imergir em um filme e fazer parte das cenas dele.

Pelo que eu no rotten tomatoes (site que compila críticas de filmes) a crítica tem sido bem favorável a produção.

Agora, minha impressão é que o filme será um fracasso de público.

Apesar da coletânea de referências o filme tem uma vibe meio gamer, em uma tentativa de abraçar uma nova geração que é fissurada e video games, mas é um gamer meio “tiozão”, sabe, a visão de alguém que não é gamer tentando agradar alguém que é.

E, o público oitentista, apesar de ser grande, é um público mais acomodado, que migrou para as séries, que tem muita coisa para ver no netflix e talvez não vá no cinema.

No geral eu não tenho sentido que o filme foi abraçado pelo público, vejo mais gente que gostou tentando convencer outras pessoas à assistir (eu mesmo estou aqui meio que fazendo isso) do que gente ansiosa ver.

Junta isso com um filme que é meio morno e não dá para esperar um estouro de bilheteria.

A grande sacada do livro, que é impossível trazer para o filme, é que a leitura é uma coisa mais imersiva, que toma mais tempo, exige mais concentração, dá mais margem para a imaginação do leitor deixar tudo mais grandioso.

Essa imersão que faz deixa o livro mais impressionante do que realmente é não tem como existir em um filme de duas horas cheio de ação e efeitos 3D.

Aliás, o reducionismo que tem que ser feito para o filme funcionar mata um pouco o sentido desse mundo. No livro o OASIS de fato substitui a realidade, as pessoas trabalham no OASIS, estudam no OASIS, Parzival, inclusive, é um estudante nessas escolas virtuais no começo do livro.

No filme o mundo parece que foi tomado por zumbis esquizofrênicos que ficam dentro do jogo, mas o OASIS do filme parece não passar disso, de um mero jogo e deixa muitas questões sobre como as pessoas se sustentam nesse mundo, como funciona essa economia.

No livro os acontecimentos, as descobertas das pistas e tudo mais demoram vários meses. A vida do Parzival muda muito entre o começo e o fim do livro. Já no filme tudo parece acontecer magicamente em questão de dias.

Essas coisinhas vão diminuindo a estrutura do filme. Ele passa a não se sustentar tão bem como narrativa, não engaja tanto só pelas referências… fica meio morno, meio vazio, menor do que o livro.

Uma coisa que eu gostei é que deram uma melhorada no papel da Art3mis, ela ficou uma personagem mais forte, com uma sequência própria no mundo real muito boa (a sequência análoga a essa no livro é feita também pelo Parzival). Talvez isso tenha sido projetado para combater algumas acusações de que o livro é machista e olha, até que funciona, mas sei lá, a cena final meio que desconstrói tudo de bom que foi feito nesse sentido.

Enfim, eu gostei do filme, gostei muito, era o que eu queria ver, uma versão filmada do livro que me trouxe muita diversão. Mas acho que é um filme que não se sustenta sem o livro. Na real, acho que o melhor caminho é ler o livro, criar a sua visão daquele mundo e daquelas batalhas, se divertir demais com o livro e, depois, partir para o filme. Daí você preenche todos os buracos narrativos do filme com o que você já sabe do livro e se diverte tanto quanto eu.

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