Justiceiro – 1ª temporada na Netflix + final explicado

Eu gosto bastante de algumas fases do Justiceiro nos quadrinhos e tinha gostado muito da participação dele na segunda temporada do Demolidor da Netflix, então estava bem curioso para ver a série solo dele na Netflix.

Antes de tudo vou dar um contexto sobre o personagem nos quadrinhos.



O Justiceiro é um personagem que apareceu pela primeira vez em uma HQ do Homem-Aranha de 1974,  ele foi criado pelo roteirista Gerry Conway e  pelo desenhista Ross Andru com uma capa icônica do  Gil Kane e John Romita, Sr. (a quem é creditado o design da caveira no peito).

Na época o Aranha estava enfrentando o Chacal, que é um personagem que criou o clone do Homem-Aranha, que foi resgatado muitos anos depois.

O Justiceiro, Frank Castle ou Francis Castiglione era um personagem bem diferente para os quadrinhos na época em que foi criado. Ele era um ex-militar que lutou no Vietnã e, depois que a sua família foi assassinada em uma troca de tiros de gangues, começou a perseguir e matar todos os bandidos que encontrava pelo caminho.

Ele é considerado um anti-herói, porque obviamente cruza a linha que a maioria dos super-heróis não cruzam que é matar o inimigo.

Nos quadrinhos o personagem teve fases excelentes e péssimas, e nas adaptações, até agora, tinha sido no máximo mediano.

O Justiceiro é um personagem difícil de adaptar e, principalmente, difícil de dar continuidade para ele.

Basicamente porque o conceito dele é muto simples ao mesmo tempo que é muito controverso: ele persegue os bandidos e mata.

Tem toda uma profundidade a se explorar aí, mas, no geral, os filmes ficavam nessa coisa da origem e da vingança e o problema maior com ele é que o personagem é meio imbatível, então, é natural que complete sua vingança e mate todos os culpados do assassinato da sua família. E daí, o que vem a seguir?

Os roteiristas de cinema e TV têm uma certa dificuldade de conduzir personagens que ficam sem um objetivo muito claro, diferente dos quadrinhos americanos que são profissionais em arrastar eternamente uma história.

Mas olha, sinceramente, achei bem honesto o caminho que a série da Netflix tomou.

Primeiro inseriu o personagem dentro do Demolidor e já contou sua história e já estabeleceu o tom do personagem (o mesmo que aconteceu nos quadrinhos, só trocando o Aranha pelo Demolidor).

Daí a série solo começa com ele terminando de matar todos os envolvidos na morte da sua família e vivendo escondido trabalhando como pedreiro, mas ainda atormentado com seu passado.

Óbvio que a guerra do Vietnã foi trocada pelo Afeganistão, que funciona perfeitamente, porque são duas guerras muito controversas em que os militares não são vistos como heróis como foram nas Guerras Mundiais.

O que algumas pessoas criticaram é que o centro dessa série é, de novo, a temática da corrupção militar, da CIA e das empresas privadas de segurança, que é um tema que parece quase sem fim para as ficções americanas.

Mas, funcionou bem.

Essa temática conduziu bem a série, com o Frank voltando a sua vingança graças ao Micro,  David Lieberman, que mostra para ele que havia mais envolvidos no assassinato da família dele com ligações no governo. (No final da segunda temporada do Demolidor, o nome do Micro já tinha aparecido em um DVD que o Castle acha)

O Micro, que nos quadrinhos é chamado de Microchip, foi um personagem muito recorrente nos quadrinhos do Justiceiro. Ele era hacker nos anos 80, quando nem se tinha tanta ideia do que era ser hacker e quando nem tudo era tão informatizado. Ele funcionava como uma espécie de suporte técnico para o Castle.

Bom, mas ao que importa, independente de qualquer questão de adaptação a série é excelente, melhor do que eu esperava inclusive.

Não que seja muito difícil, mas a das produções Marvel/Netflix, essa é fácil a com a melhores atuações e direção.

É engraçado dizer isso e talvez muita gente não goste tanto por considerar que a série tenha menos ação do que o esperado. Mas, a série do Justiceiro se saiu mais um drama psicológico intenso do que uma série de ação.

Tem ação sim, tem o Castle matando sozinho vários pequenos exércitos. Mas o melhor da série é o drama dos personagens.

Jon Bernthal, que interpretou o Justiceiro, apesar da voz permanentemente rouca e dos urros, tem uma habilidade para contar histórias, para fazer monólogos longos intensos que prendem demais a atenção. E não são aqueles discursos de meia dúzia de chavões, são raciocínios longos, simples mas bem estruturados, que têm aquela cara interessante de fluxo de consciência.

Outro destaque vai para o ator Daniel Webber, ele faz o personagem Lewis Walcott, que, por alguns episódios parece estar sobrando na série, é possível até dizer que a história dele é desnecessária no todo, mas, a atuação do Webber é tão surpreendente e convincente que vale a pena.

Ebon Moss-Bachrach, que faz o Micro também tem bons momentos no papel como hacker que teve que abandonar a família para protegê-la. Em vários aspectos, o Micro dele é mais interessante do que o personagem original foi nos quadrinhos. Fora isso tem a participação da Deborah Ann Woll, que faz a ponte com o universo do Demolidor no seu papel de Karen Page.

Eu vi algumas pessoas dizendo que a série é violenta. Olha, a temporada tem 13 episódios, os 11 primeiros não tem nada de tão pesado em termos de violência, já os dois últimos são bem carregados nesse sentido.

No geral é eu gostei muito da série, achei bem diferente o tom dela da maioria dos quadrinhos que eu já li do Justiceiro, mas a essência do personagem tá ali, um cara atormentado pela guerra, pela morte da família, que não sabe fazer nada além viver a guerra que tem dentro dele.

 

Abaixo eu comentei o final, portanto terá spoilers.

Mas antes a capa que eu citei e link para comprar as HQs do Justiceiro

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Spoilers:

Tem um spoiler que quero dizer que é meio um “final explicado”.

Obviamente o Justiceiro não é daqueles personagens que tem uma galeria de vilões, por que, né… todos morrem.

Mas tem um vilão recorrente chamado Retalho (em inglês é Jigsaw) que é justamente o Billy Russo, o personagem do Ben Barnes na série.

Nos quadrinhos o Retalho não era militar e sim um assassino de aluguel famoso pela beleza do seu rosto. Ele estava envolvido no assassinato da família do Frank e quando Justiceiro pega ele, destrói o rosto em um painel de vidro, deixando ele cheio de cicatrizes, exatamente o que acontece no final da temporada.

Depois disso ele vira o gângster Retalho nos quadrinhos.

Então essa temporada do Justiceiro foi basicamente a origem desse vilão que, se não voltar na próxima temporada, volta com certeza em uma terceira.

Agora minha teoria é que, apesar de ter recebido uma carta branca e ser um homem livre, Frank não vai viver tranquilamente, nem voltar a quebrar paredes, tanto que ele não quis ficar para comemorar com a família do Micro, acho que agora ele vai partir para algo mais próximo do Justiceiro dos quadrinhos e seguir em uma guerra contra todo tipo de crime.

Outra opção é algo parecido com a HQ Bem-vindo de volta Frank, com ele morando em um prédio e voltar a se envolver na luta contra o crime para ajudar os vizinhos, mas acho que a primeira hipótese é a principal.

Daí terminaria uma segunda temporada com a notícia de que o Retalho fugiu da cadeia ou algo assim.