Laerte-se

[Esse post tem uma versão em vídeo aqui https://youtu.be/Nn11eTq2BbY ]



Chegou no Netflix o documentário sobre a cartunista Laerte, focando na transição de gêneros que a artista passou nos últimos anos.

Antes de falar do documentário em si, considero importante contextualizar Laerte enquanto artista (algo que faltou para o documentário).

Com 65, em breve 66 anos, Laerte é uma das cartunistas mais prolíferas do Brasil. Começou a publicar na década de 70 e nunca mais parou. Passou pelas principais revistas do quadrinho underground do Brasil, por vários jornais e demais publicações até se fixar na Folha de São Paulo em 1991 com a tira Piratas do Tietê. Junto com Angeli e Glauco, Laerte foi uma constante no visual da Folha nas últimas décadas. O destaque da artista, obviamente, não foi apenas pelo volume, mas pela qualidade surpreendente do seu desenho. Um traço limpo, cartunesco, com muita personalidade e claramente calcado em uma formação artística completa.

Além dos quadrinhos, fez roteiros para TV Pirata, TV Colosso e Sai de Baixo. No início dos anos 2000 era apelidado de fábrica de piadas, dada a quantidade de tiras que publicava nos diversos cadernos da Folha, além da sua tira diária (a cronologia completa do autor está nesse site http://www.laerte.com.br).

Em 2005, após a morte de um dos filhos em um acidente de carro, a fábrica fechou. Laerte passou algum tempo republicando suas tiras e depois voltou com um material mais experimental.

Com essa volta, Laerte que ajudará a consolidar a tira de humor como algo maior no Brasil, passa mostrar novos caminhos para trabalhar esse espaço, explorando o desenho e o conceito da narrativa dentro da tira, ajudando, novamente, a consolidar a modernização da tira.

No meio desse processo, um dos seus personagens, o Hugo começa a se transvestir de mulher, até assumir a identidade de Muriel.

Ao mesmo tempo, na vida real, o autor começa a se assumir como crossdresser, bissexual até chegar ao momento que se declara uma mulher transexual.

Essa mudança deu um novo destaque para o Laerte, que passou a ser chamada de a Laerte e se envolveu em diversas polêmicas e começou a seguir uma vertente mais ativista na questão.

É nesse ponto que começa o documentário que é quase um sessão de terapia com o artista.

O foco é apresentar o ponto de vista do artista sobre a fluidez de gêneros sexuais, sobre o uso de roupas femininas e outras decorrências dessa transição de gêneros, o impacto disso na família e no trabalho.

Além de acompanhar a rotina da artista, mostrá-la visitando o filho, brincando com o neto e no casamento da filha, o documentário é entrecortado por versões animadas das tiras publicadas na Folha relacionadas ao tema.

Queria destacar dois pontos que a Laerte fala que me chamaram atenção.

O primeiro é sobre a produção atual como artista. Segundo Laerte, a profissionalização na criação é a formação de jaulinhas, é a criação de limites. E ela começou a questionar e testar esses limites autoimpostos.

Sobre a complexidade de se produzir, de se vestir de mulher, ela diz que, talvez, a despretensão em se vestir seja algo uma categoria de humano que se acha dono do mundo. A mulher tem que se vestir para estar em um mundo que não é dela.

Enfim, o documentário é excelente, tem a direção da Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum, vale muito a pena ver.

Minha única crítica é que faltou uma contextualização (mesmo que curta, como essa que eu fiz) sobre quem é a artista, sobre o Laerte e sua importância anterior a Laerte.

Da forma que está o documentário é excelente para quem conhece e é fã da artista, mas os produtores deveriam ter pensando que, estando na plataforma da Netflix, o filme poderá ser assistido por pessoas do mundo todo e, nesse caso, uma contextualização seria primordial.

Compre as HQs da Laerte aqui.

Pra quem assistiu e ficou curioso, a HQ que o Rafael Coutinho indica para a Laerte chama-se Sunny, veja aqui.

Trailer do filme