Logan – um filme essencialmente honesto (spoilers a parte)

O Wolverine é um personagem bem estranho. Ele foi concebido nos anos 70, mas talvez estivesse a frente do seu tempo. O mutante teve seu boom de popularidade nos anos 90 e se tornou uma das fórmulas básicas para personagens dessa época, sendo replicado à exaustão pela editoras emergentes como a Image e chegando a um ponto dentro da Marvel (mais nos anos 2000, já com a ajuda do primeiro filme da franquia X-Men) em que não existia grupo de super-heróis em que ele não estivesse.

E de fato deve haver algo na essência do personagem que o torne maior do que os outros mutantes, já que, no cinema, ele foi o único dos personagens a ganhar uma série de filmes próprios (óbvio, um ator que agrada e que cai bem no personagem ajudou muito nesse campo).

Há uma paixão por esse tipo de herói que imperfeito, com o passado sombrio, com uma alma torturada, que mata quando é preciso. Acho que depois do fim da inocência, do fim do ideal do herói perfeito, as pessoas passaram a se interessar mais pelo estava próximo do anti-herói, alguém que talvez seja mais próximo de nós. O personagem deixa de ser um “deus” inalcançável para se tornar uma criatura demasiadamente humana.

E isso vai de encontro com outra teoria que eu tenho sobre o sucesso desse filme. Em algum encadernado dos Novos Titãs, certa vez eu li uma entrevista com um autor que não me lembro (talvez o próprio Marv Wolfman) que dizia que ele não gostou quando criaram o Robin, porque ele, criança desajustada, podia almejar um dia crescer e se tornar o Batman, enquanto o Robin, que deveria representá-lo, era, na verdade, uma mostra de tudo que ele já não era naquela idade.

Em paralelo a isso, projetando que o fã médio de super-heróis envelheceu (talvez projetando por experiência própria) temos uma situação em que o fã tem a idade do seu herói, mas não é nada daquilo, talvez seja imperfeito como ele, mas não é super.

Nesse caso, o que resta?

A resposta é Logan. Você sabe que não será um herói em uma grande aventura, mas você pode almejar ser um velho foda, que encara a vida, é fiel aos amigos, protege as crias, enfrenta os valentões. Você apanha mais do que bate, tem experiência mas não tem força, mas está lá, lutando até o final.

Ser o velho Logan se torna, assim, o novo sonho do espectador e esse vínculo afetivo ao filme fortalece a impressão de que esse é um bom filme.

Divagações a parte, de fato, ao contrário dos filmes anteriores do Wolverine e dos X-Men, Logan tem uma qualidade superior. Fica claro um empenho conjunto da produção para que acontecesse um filme como ele deveria ser. A classificação etária permite o sangue a violência gráfica que a história pede, o roteiro deixa o diretor James Mangold fazer o que ele sabe, um filme com uma cara menos de espetáculo e mais independente, menos de explosão e mais de emoção, um faroeste pós-moderno com os pés no chão.

Fora que a atuação da Dafne Keen como X-23/Laura é assombrosa, a menina é espetacular nesse papel complexo e a participação do Patrick Stewart como Xavier senil também é algo digno de nota.

O filme é perfeito? Certamente não, tem mil brechas para atacá-lo por vários flancos. Mas, na boa, tudo tem e eu vejo mais coisas que eu gostei do que eu não gostei.

Uma delas, aliás é a visão de futuro da história. Não é algo tão viajado, tão focado em supor coisas que talvez existam, talvez não. O futuro é o nosso presente com uma ou outra coisa que está bem encaminhada para vir (como caminhões autônomos).

O ritmo do filme é bom, o roteiro é ok, a trilha é bem legal. No geral, não é tudo isso que o pessoal fala, não é o ganhador do Oscar de melhor filme, mas é um filme essencialmente honesto, algo que parece ser cada vez mais raro.

Eu tenho uma crítica a dois pontos do filme, mas vou reservá-la para depois das fotos pois envolvem spoilers.

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Atenção SPOILERS

Uma coisa que eu acho desnecessário é quando o roteiro quer ser didático a um ponto tão excessivo que telegrafa o final. Que o Logan ia morrer, era algo previsível, até esperado para um filme desse tipo, agora, como vai ser final, não precisaria ser dito tão claramente logo no meio do filme. Quando Logan mostra a tal bala de adamantium que ele guarda para se matar você já fica com aquilo na cabeça, depois, quando aparece o clone dele (já volto nisso) o filme mostra de novo a bala, isso acaba telegrafando que no fim, a única saída para a luta final será uma bala de adamantium na cabeça do clone.

Agora, voltando ao clone, tem coisa mais anos 90 do que um clone para uma luta Wolverine contra Wolverine???

Tudo bem, eu aceito que quiseram fazer uma simetria visual na cena entre o clone e o Xavier…. mas puxa vida, acho que um clone e Wolverine contra Wolverine é algo que meio que desmerece o filme, isso no fim foi o que mais pegou para mim.


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