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Luke Cage

A melhor forma de sintetizar Luke Cage como produto editorial é que ele é representativo e não estou falando só da questão racial em si, apesar dela ser extremamente relevante, mas do contexto como um todo.

Nos anos 70 quando Cage foi criado por Archie Goodwin, John Romita Sr. e George Tuska, o cinema passava pelo movimento blaxploitation, um subgênero dos filmes exploitation (filme mais apelativos e gráficos) que focava na figura do negro, no funk e no soul. Essa estética aliada com a narrativa policial pulp no estilo de Raymond Chandler (gênero narrativo em que Goodwin trabalhou antes de chegar aos quadrinhos) deu origem ao herói negro, casca grossa, de pele impenetrável que defendia as ruas do Harlem.

Como vários personagens da Marvel, Cage foi perdendo espaço e seguiu para a segunda linha da editora sem título próprio até que um novo movimento o trouxesse a tona no começo dos anos 2000. Na época a Marvel estava sendo revitalizada por Brian Michael Bendis com um trabalho reverenciado no Demolidor e depois em Alias (notou algum coincidência? Já volto nesse assunto) e, justamente aí, Cage voltou a ser um coadjuvante de peso e transitou para protagonista, liderando, inclusive, os Vingadores Secretos por um tempo. Na mesma época a linha Marvel Max surgiu em uma tentativa de atrair o público “mais adulto” da Vertigo/DC. Nesse contexto, Brian Azzarello roteirista da cultura série policial 100 Balas, lança a HQ Cage, retomando o personagem em um contexto de sexo e violência.

15 anos mais tarde, a Netflix e a Marvel firmam sua parceria para dar vida justamente a esse universo urbano, mais “realista” (o termo está entre aspas, porque, apesar se serem personagem lidando com situações mais do dia-a-dia, mais próximos do mundo real, há de se convir que eles ainda são super-heróis fazendo coisas impossíveis), e se volta justamente para esses personagens reestruturados (no caso do Demolidor e do Cage) e criados (no caso da Jessica Jones) por Bendis.

Fora que, dentro dos conteúdos de destaque na Netflix, Cage vem puxado por dois lados, o óbvio do universo em que ele está inserido e que já foi, inclusive, coadjuvante em Jessica Jones e, de forma tangente, pelo sucesso de The Get Down com enfoque na cultura negra de NY dos anos 80.

Isso talvez fale pouco sobre o personagem em si, mas muito sobre a indústria cultural americana que desde sempre dependeu dessas ondas para justificar seus investimentos.

Porque, convenhamos, quando você assiste a série fica muito claro que Cage é um personagem sensacional e não precisaria de nada mais para justificar sua existência.

A exemplo das séries anteriores desse universo eu assisti Luke Cage praticamente em um tacada só (muita gente fez isso, aliás, tanto que houveram reclamações de instabilidade no sistema da Netflix), em termos puramente de ritmo narrativo ainda prefiro o Demolidor que parece prender mais e transcorrer muito mais suave do começo ao fim.

Cage tem um ritmo um pouco mais contido, vários momentos anticlimáticos com desvios inesperados para a série e, talvez por uma característica mais própria do personagem, não tem tantas lutas quando se poderia esperar. Há algumas demonstrações de força dele, tem uma “cena do corredor” (no Demolidor muita gente pirou na cena de luta dele em um corredor de um prédio e o Cage tem seu momento também), mas, no geral, as lutas ficaram extremamente sem graça se fossem excessivas, uma vez que ele praticamente não se machuca.

De forma acertada, o roteiro guarda para ápice da série a grande luta contra um adversário a altura.

Para os fãs radicais a série está entupida de referências que vão desde um cena do Cage com uniforme clássico de camisa amarela, tiara e braceletes, até personagens e nomes menores espalhados aqui e a ali.

Obviamente Mike Colter foi a escolha ideal para viver o personagem. Um ator que não só tem o tipo físico, mas a introspecção necessária para dar vida ao herói (quem assistiu a série Good Wife certamente lembrará dele como o traficante Lemond Bishop).

O elenco de apoio também é excelente, Misty Knight não é exatamente igual a contraparte dela nos quadrinhos, mas ficou bem interessante como uma detetive capaz de visualizar as cenas de uma forma que os outros nem chegam a entender.

Claire Temple (Rosario Dawson) tem servido como uma forma de ponte entre as séries (além de ser uma referência a enfermeira noturna) e tem seu personagem mais aprofundado nessa temporada, com direito a aparição da mãe dela interpretada pela Sônia Braga.

Apesar dessa temporada ser bem independente das séries anteriores é interessante, mas não essencial, ter assistido Jessica Jones onde Cage é apresentado. O final dá uma certa indicação de como as séries vão se coligar para formar os Defensores, então, vale assistir tudo, não só para compreender as referências, mas porque Demolidor é bem legal.

Fora tudo isso, a humanização do personagem é quase melhor que dos quadrinhos, a apresentação dele como um homem normal tentando viver a vida da melhor forma possível, o empoderamento do negro e da sua cultura, o misto de humildade e confiança no equilíbrio certo tornam Luke Cage de Mike Colter um personagem gigante independente de qualquer contexto.

 










 

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