“Melhor Chamar o Saulo”

Eu gosto do esquema netflix de ter uma série toda lá disponível, mas com Better Call Saul eu percebi esse esquema não é tão eficiente para mim como o episódio semana a semana.

Veja, eu gosto tanto de Better Call Saul quanto de House of Cards e eu poderia já ter terminado a terceira temporada de House of Cards, mas não passei do segundo episódio, ao mesmo tempo que eu poderia esperar sair todo o Better Call Saul mas tenho visto episódio a episódio assim que sai.

Lançar um por semana cria uma tensão, gera ansiedade, o episódio vai estar lá por anos, mas você tem que ver o dessa semana.

Você poderia dizer: ah, mas você também “tem que ver” toda a temporada de House of Cards.

Sim, mas eu preciso de 13 horas para ver toda HoC e só 45 minutos para ver um episódio de BCS.

Essa brevidade conveniente que te permite encaixar o episódio da semana em qualquer espaço da sua rotina me incentiva mais a ver BCS do que qualquer outra série que a Netflix despejou.

Engraçado, né?

Enfim, deixando isso de lado, sobre a série em si, ela está bem bacana.

No primeiro episódio eu pensei: putz é uma série só para fãs de Breaking Bad, com todas aquelas aparições especiais que só fazem o fã vibrar.

Mas agora que está na metade da primeira temporada eu vejo que é uma série que se sustenta sozinha, que conta bem a trajetória de um personagem bacana.

Saul Goodman não está na série, ele não existe ainda.

O protagonista é um advogado chamado Jimmy McGill, um cara esforçado que ralou pra se formar em direito e ter a chance de ser um advogado na firma do seu irmão, mas a vida sistematicamente foi fodendo ele.

Jimmy McGill é um cara honesto, preocupado e que cuida de um irmão que já foi grande e agora está preso em casa com um medo irracional de electromagnetismo. Ele tenta sobreviver como advogado em um escritório minúsculo no fundo de um salão de manicure (sim, o mesmo que aparece em Breaking Bad), ganha dinheiro como pode como defensor público e perde todas as chances de se dar bem porque é bonzinho demais.

O mais curioso é que tudo isso é absurdamente coerente com o Saul Goodman de Breaking Bad. Saul sempre foi um cara preocupado. Sim, aceitava cuidar de negócios sujos, resolver problemas de bandidos de todos os tipos e abraçava qualquer caus que permitisse que ele ficasse com algum dinheiro. Mas no fundo ele não era um bandido, ele era o cara que conhecia um cara. Ele sempre tentava oferecer a melhor opção para todos. Ele se esforçou muito para que Walter White não se desse mal e tentou proteger Jesse ao máximo quando Heisemberg se tornou uma força destrutiva.

Eu sou suspeito porque gostei de Breaking Bad, mas acho que vale a pena ver essa série, inclusive vale a pena vê-la não como um derivativo e sim como uma série autossuficiente.

(ah, a brincadeira do título é uma referência a uma notícia do sensacionalista fazendo uma analogia com a adaptação do título de Breaking Bad que virou A Química do Mal na Record.)