Meu agradecimento a Darwyn Cooke

Sábado, 14/05/16, foi um dia triste para os fãs de quadrinhos com a notícia da morte de Darwyn Cooke após uma sofrida luta contra o câncer. Apesar de não ter uma produção gigantesca, Cooke é um autor extremamente marcante em muitos sentidos para muitas pessoas. Uma delas é o meu amigo Diego Figueira. Então o convidei para escrever o texto abaixo sobre o que esse artista significa para ele.

Meu agradecimento a Darwyn Cooke

Por Diego Figueira

 

A internet mudou nossa sensação de intimidade com nossos ídolos. O fato de alguém que admiramos por conta do seu trabalho estar a um clique de distância, de poder figurar na sua lista de “amigos” em alguma (ou várias) redes sociais, somado a urgência que sentimos de nos manifestarmos sobre qualquer acontecimento, faz com que a notícia da morte de um famoso de qualquer área cause uma avalanche de depoimentos emocionados na timeline de todo mundo.

O choque duplo da revelação da doença do quadrinhista Darwyn Cooke, seguida de rumores que logo se confirmaram sobre sua morte na manhã de sábado, seria mais um caso de perda de um ídolo, como já se tornou comum nesse ano de 2016. Porém, desta vez, tenho motivos para lamentar de uma maneira mais profunda.

Não sei se sem a notícia da doença e morte de Cooke eu o apontaria como um dos meus quadrinhistas favoritos, apesar de certamente ele figurar, hoje em dia, em uma lista de “10 mais”. Acontece que seus trabalhos foram tão pouco publicados aqui no Brasil que eu teria um pouco de receio de atribuir a ele um título tão marcante sem ser um profundo conhecer de sua obra. Ainda mais se comparados a tantos outros roteiristas e desenhistas tão mais prolíficos e publicados por editoras brasileiras.

Talvez alguém diga que Cooke era um autor cult, de produção menor e mais bem cuidada e com um estilo de texto e desenho bem distintos do mainstream norte-americano.

Seja como for, minha relação com o trabalho de Darwyn Cooke começou de forma nada emocional. Eu estava elaborando meu projeto de mestrado em linguística na UFSCar no qual eu tratava da importância da cultura de fã, do colecionismo e da memória auto-reflexiva dos quadrinhos para a produção atual. Trocando em miúdos, como a forma de se consumir quadrinhos como um fanboy e a maioria dos enredos de séries atuais se alimentam mutuamente. Foi nessa época que li DC: A Nova Fronteira e encontrei o exemplo perfeito do que eu pretendia analisar e explicar para um público que não conhecia quadrinhos.

Desde o começo, então, tentei ler o trabalho de Cooke da maneira mais imparcial e objetiva possível, como uma pesquisa acadêmica exige. Não era uma tarefa fácil, sendo eu mesmo um fanboy assumido, tratar criticamente os efeitos dessa figura na indústria de quadrinhos.

Mas, inevitavelmente, com o tempo a razão deu lugar à paixão.

Talvez porque o próprio mestrado tivesse trazido um certo cansaço das abordagens correntes de super-heróis ou porque isso é algo que vem com a idade ou certo tempo de leitura. O fato é que tanto o roteiro quanto a arte de Darwyn Cooke me despertaram um interesse maior por outro tipo de histórias. A partir de então, parecia que não era mais necessário uma desculpa gostar de uma arte mais estilizada ou retrô – tipo, “Não é realista mas é legal”; sem “mas”, era legal justamente porque não era “realista”.

Só então li alguns outros trabalhos de Cooke, dessa vez como fã de carteirinha. Superman Confidencial, Batman/Spirit, Mulher-Gato, a edição da antologia Solo etc.

Mais do que paixão de fã, devo a Darwyn Cooke a “luz” que seu trabalho me deu e que me ajudou a conquistar meu título de mestre em linguística estudando aquilo que eu mais gosto. Sua obra foi o que me permitiu me comunicar com um mundo todo sobre algo que eu pensava desde o final da adolescência. É, até hoje, minha maior realização, graças em grande parte a Darwyn Cooke.

Fora isso, como em toda morte de alguém próximo, fica um pequeno ressentimento por não ter existido uma despedida à altura, aquele último momento juntos em que dedicamos a devida atenção àquela pessoa. Pois foi assim que me senti neste fim de semana quando lembrei das vezes em que não levei para casa a edição brasileira de Parker – O caçador por causa de coisas sem importância, como a grande quantidade de livros esperando para ler ou a vontade esperar alguma promoção na internet para comprar mais barato.

Resta para mim agora ir à livraria em busca de Parker como quem comparece ao velório, para se despedir e agradecer por tudo que não tivemos tempo de agradecer antes.

Muito obrigado, Darwyn Cooke.

 

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