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Meu sonho é receber o título de cidadão paulistano

Esse ano completa 18 anos que estou em São Paulo.

Minha estadia aqui se torna maior de idade.



Passei metade da minha vida em SP e daqui para frente terei vivido mais tempo em São Paulo do que na cidade do interior de onde cresci.

Tem muita gente que vem para São Paulo pensando em voltar logo para o interior, tem gente que fica um tempo não aguenta e volta, mas sei que tem gente que nem eu, pessoas que encontram algo em São Paulo e não querem mais sair da cidade.

Não sei o que é preciso fazer para ganhar um título da Câmara de cidadão paulistano, mas eu gostaria de um.

Eu de cara gostei muito de São Paulo e com o passar dos anos passei a gostar mais ainda.

É uma cidade difícil, com seus perigos, cheia de violência e desigualdade, mas que tem tanta coisa legal.

Eu sei que eu estou falando de um ponto de vista de alguém que tem um certo privilégio, que veio para cá tendo onde morar, que tem um emprego decente e tal. Sei que São Paulo é um moedor de carne para quem tem que viver na periferia, para quem tem que pagar um preço obsceno por uma condução que demora para vir e quando chega vem mais do que lotada.

São Paulo é daqueles lugares que ir para o trabalho cansa mais do que trabalhar em si. Quem enfrenta os ônibus, trens e metrôs já chega no trabalho cansado.

São Paulo é daqueles lugares meio solitários e meio sinistros, onde as pessoas não querem saber de você, que as pessoas não fazem questão de você. Ninguém sabe quem você é em São Paulo e ninguém quer saber.

Trabalha-se muito em São Paulo, muito mesmo, tanto que a maioria das pessoas se relacionam com as pessoas do trabalho e falam mais de trabalho do que qualquer outra coisa.

São Paulo é exaustiva, é enlouquecedora, é barulhenta, é frenética, é cara.

É um dos lugares com maior incidência de transtornos psicológicos pelos mais diversos fatores.

Mas São Paulo é o lugar onde tem tudo, tudo mesmo.

Às vezes, quem nunca morou no interior tem uma visão idílica de um lugar tranquilo, em que você sai na rua sem preocupações, tudo é limpo, todos se conhecem e você vive na segurança de um passado que não existe mais.

Primeiro que essa visão já está meio furada na questão da segurança, porque, pelo menos no estado de São Paulo, em muitas cidade do interior a criminalidade é proporcionalmente mais que a capital.

Mas o mais desolador do interior é a falta de tudo.

É bem difícil viver em qualquer cidade do interior sem um carro ou uma moto, coisa bem comum em SP. Tem cidades que tem índices de 2 ou 3 carros por habitante. Isso tudo porque as coisas são perto, mas não perto o suficiente para fazer tudo a pé.

Ah, mas tem ônibus. Já tentou pegar um ônibus no interior? É praticamente o mesmo preço de SP e aquela linha que para mais ou menos perto de onde você quer ir passa de hora em hora. Perdeu, volte daqui uma hora.

Táxi, nem pensar. O táxi é uma coisa tão cara na maior parte do interior que você cruza São Paulo com dinheiro que vai de um bairro para outro no paradisíaco interior.

Mas pra mim o que sempre apertou foi a falta de coisas.

As cidades não tem teatros, quando tem raramente têm peças. Tem 1 cinema, quando tem. As opções de restaurantes são risíveis, porque no interior a regra é comer em casa.

Dá para contar nos dedos as cidades que tem uma livraria.

Tudo bem, hoje em dia você pode pedir tudo pela internet, viver na internet, mas, pra mim, isso não resolve.

Eu quero as opções que São Paulo me apresentou, a vida que é possível só aqui porque só aqui tem como você ser fã de… sei lá cosplay e isso ser normal porque em 12 milhões de habitantes tem ali mil pessoas igual você e até uma loja especializada para qualquer coisa.

Meu tio, o verdadeiro paulistano da Moóca, sempre disse que: se não tem em São Paulo, não tem no Brasil. Pode ter lá sua exceção, mas, no geral, isso é verdade, mesmo as coisas mais bizarras são possíveis de serem encontradas em um canto escondido onde vai ter alguém que trabalha com aquilo.

São Paulo sempre tem um lugar a descobrir. Nos dois últimos anos passei minhas férias em São Paulo mesmo e consegui visitar vários restaurantes que eu nunca tinha ido, vários lugares que eu nem conhecia, mesmo morando aqui a tanto tempo.

Mesmo o fato das pessoas de São Paulo não se importarem com quem você é, no fim, é uma maravilha, no interior, a primeira coisa que alguém quer saber é seu sobrenome, pra saber quem é seu pai, seu avô e tudo mais. Você não é um indivíduo, é um braço de uma árvore genealógica.

Eu posso falar mil coisas, quem não gosta de São Paulo pode falar de outras mil coisas, mas no fim, São Paulo é a cidade que eu escolhi para mim e mesmo com tudo de errado nela é uma cidade fantástica.

 

 

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