Miracleman

Miracleman é uma das HQs com a história editorial mais complexa que essa mídia já viu.

O personagem é enrolado desde a criação dele por Mick Anglo em 1954. Na época, chamado de Marvelman o herói foi criado para suprir a saída de linha do Capitão Marvel (Shazam) que teve os direitos bloqueados por uma ação judicial de plágio que acabou levando o personagem para compor o que é hoje a DC Comics.

Marvelman era uma cópia do Capitão Marvel e fez muito sucesso na Inglaterra, angariando, inclusive, um fã que depois veio se tornar muito importante: Alan Moore.

Anos depois da revista ter sido cancelada, Moore disse em uma palestra que tinha uma ideia que ele gostaria de usar para uma história relançando o personagem e que, se alguém adquirisse os direitos, ele gostaria de escrever.

Tempos depois ele foi abordado pela editora Quality que alegou ter os direitos do herói e queria publicar a história do Moore na revista Warrior. Em 1982 ele publicou suas histórias reinventando o personagem que acabou ganhando o nome de Miracleman na reedição nos EUA pela Eclipse para evitar problemas legais.

Quando ele terminou o segundo arco de histórias, passou o personagem para Neil Gaiman (1988), mas o alertou que a questão dos direitos do personagem estava enrolada e, já na época, ele suspeitava que tinha sido enganado pelo editor que afirmara ter comprado a propriedade do herói (fato que foi confirmado muitos anos depois e, inclusive, foi decisivo no processo judicial que surgiu posteriormente).

Gaiman tinha proposto publicar três arcos do personagem, o primeiro – Era de Ouro – foi publicado integralmente e o segundo teve apenas as duas primeiras histórias lançadas.

Depois da fase do Gaiman, a editora faliu e o que restou dela foi comprada por Todd McFarlane, assim, de 1989 até poucos anos, atrás a briga pelos direitos do personagem bloqueou completamente a publicação das histórias, criando um mito em torno dessas HQs que se tornaram uma raridade que apenas poucos colecionadores tinham acesso.

Gaiman, com apoio da Marvel, conseguiu não só desbloquear a publicação do herói como garantir que algum dinheiro fosse para seu verdadeiro criado, Mick Anglo.

Assim, desde o ano passado a Marvel tem republicado tanto as histórias do Alan Moore (sem o nome do roteirista, por exigência dele) quanto as do Gaiman e, em breve, prometem lançar as histórias inéditas.

Obviamente, anos antes da Marvel, quando os arquivos piratas de quadrinhos passaram a inundar a internet, ler Miracleman não era mais um batalha, hoje em dia é fácil achar uma ou mais versões da publicação com as cores originais (que na minha opinião são mais interessantes que a versão pasteurizada da Marvel) e, para quem gosta, a versão impressa já chegou até no Brasil pela Panini.

Anteriormente, em 1989, quatro edições da fase do Moore chegaram a ser publicadas no Brasil pela extinta editora Thanos, ajudando a criar a lenda de uma HQ excelente, mas inacessível, também entre os leitores brasileiros.

Mas e a história em si? É realmente tudo isso.

Eu comecei a comprar as edições publicadas pela Panini, gostei muito dos conceitos do primeiro e do segundo arco, mas a edição nacional (que segue o padrão da republicação da Marvel) me irritou de tal maneira que eu acabei vendendo todas. Mês a mês (descontando os atrasos) saia uma edição que tinha uma história do Moore e alguns extras que, no começo, até eram interessante, mas, depois, se tornaram irritantes. Eu que gosto muito de desenho e até tenho curiosidade por ver o traço sem arte-final, acho legal ver uma ou outra página assim, mas ler uma história e depois ter ela inteira no lápis, mês a mês, me cansou.

Então abandonei as edições da Panini e busquei as piratas para ler até onde a fase do Gaiman chegou.

Sei que muita gente ama o Alan Moore, mas eu particularmente não sou fã. Ele tem ideias excelentes, todo o conceito da recriação do Miracleman, da luta com o Kid Miracleman, da forma como o Evelyn Cream prende ele e toda a história do Gargunza são, conceitualmente, excelentes. Mas, quando ele coloca no papel, enche de firulas e despeja textos por todos os lados das páginas ele torna a leitura tão chata que eu quase desisti várias vezes, principalmente no terceiro arco que beira a um livro ilustrado de tanto que falta dinâmica.

Quando o Gaiman assumiu a HQ já não era mais uma história de super-herói e sim uma viagem sobre um mundo utópico desenvolvido no final da passagem do Moore. Então Gaiman fica tangenciando por esse mundo com histórias que praticamente não tem o Miracleman como personagem central, mas as histórias tem uma arte bem superior e o Gaiman pelo menos é um narrador mais equilibrado e não arrasta as histórias.

É curioso que o primeiro arco do Gaiman tem bem cara de histórias soltas para transição e, quando ele entra no segundo arco, quando ele começa a história do Jovem Miracleman, justamente em um gancho bem peculiar que envolve, inclusive, uma questão de homossexualidade entre os personagens, justamente nesse ponto a história foi interrompida por mais de 25 anos. O que, novamente, só ajudou a criar a mística em torno da série.

Não vou negar que a HQ é muito importante para a época, na real, até nos dias de hoje a história parece a frente do pensamento predominante, MAS, não é uma história exatamente divertida de ler e, por mais influente que tenha sido, por mais mística que tenha se tornado editorialmente, seus conceitos já foram saqueados e reutilizados por anos a fio em infinitas histórias.

Eu não recomendo comprar essa edição que a Panini soltou nas bancas e aparentemente abortou justamente na fase do Gaiman. Mas, se sair uma edição encadernada ou mesmo se você souber ler em inglês, vale ler os arquivos piratas principalmente pelas cores originais que tem um grande charme.

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