Não se esconda



“Ontem você disse amanhã. Apenas faça”

Eu tenho falado muito sobre o aprendizado do desenho, estou detalhando exercícios, entrevistando artistas, fazendo HQs e estudando muito isso ano.

Quem quiser acompanhar esse processo, tudo nessa linha está nessa tag aprendizado.

Meu objetivo com isso é simples: desenhar melhor.

Mas tem um lado do processo de aprendizado que é externo a nós mesmo, que é se expor. Pode parecer que não, pode parecer uma trivialidade, mas quando você posta um desenho você expõe algo muito pessoal seu. E se expor é muito difícil. Veja que isso não vale só para desenho, isso vale para quem escreve, quem compõe, quem toca, vale para qualquer pessoa que faz alguma coisa cujo o objetivo final é mostrar algo para outra pessoa.

Se expor é realmente difícil, mas é essencial.

De tudo que eu tenho conversado, lido e visto, você pode ignorar tudo, técnica, materiais, suporte, qualidade, mas você não pode ignorar o olhar do outro.

Mostrar um desenho para pessoas conhecidas ou não, na rua ou na internet é a única forma de você dar sentido aquilo que está fazendo. Se abrir às críticas é a única forma de realmente crescer. Tentar é a única forma de conseguir.

Ontem um rapaz me procurou. Ele disse que começou uma HQ, disse que não conseguia fazer histórias curtas, que só sabe pensar em sagas enormes impublicáveis que ele nunca mostrou para ninguém. Com toda educação do mundo ele pediu que eu visse esse trabalho dele.

Sempre que alguém me pede algo assim eu fico um pouco preocupado porque no geral é um iniciante com quem você precisa saber falar. Você tem que mostrar os erros sem fazer o cara desistir e eu não sou muito bom nessa “delicadeza”, eu sou o verdadeiro supersincero. Se eu não gosto de alguma coisa eu tendo a não comentar, mas se a pessoa pergunta minha opinião, eu não consigo mentir e muitas vezes, essa falta de tato pode destruir uma pessoa.

Então recebi o e-mail desse rapaz com um certo pé atrás e quando li as 22 páginas que ele me mandou fiquei muito surpreso. Perguntei para o cara na hora se ele trabalhava com ilustração (o trabalho intenso sempre melhora qualquer um), mas não era o caso.

Eu fiquei tão chocado com a qualidade da HQ que esse rapaz produziu, que eu tive que fazer esse texto, porque se ele tinha guardado em uma gaveta um material tão bom e tinha vergonha de mostrar, talvez outras pessoas também estejam passando por isso e talvez nós leitores estejamos sendo privados de coisas maravilhosas que não vêm a luz do dia porque a pessoa tem receio, tem vergonha, tem medo, enfim.

Óbvio que se for passar um pente fino na HQ desse rapaz você vai achar problemas, mas tem gente publicando e vivendo de quadrinhos até hoje que certamente tem muitos mais problemas que a HQ dele. O que difere ele dessas pessoas? Simples, elas foram lá e mostraram o seu trabalho, receberam críticas, algumas talvez duras demais para qualquer pessoa suportar, mas continuaram. Seguiram produzindo e quanto mais você faz, certamente você melhora.

Eu acho que por pior que seja a história, por pior que seja o desenho, ele tem que ser mostrado para as pessoas. Se depois de 10 anos você desenhar muito melhor, não tem porque se envergonhar daquele trabalho antigo, pelo contrário, você tem que se orgulhar de poder ver tão claramente sua evolução.

Assim, eu quero deixar aqui o mesmo conselho de que dei para esse rapaz: divulgue o seu trabalho.

Hoje em dia é tão fácil fazer isso. Você pode postar de graça na internet, pode publicar em aplicativos como a Social Comics e até ganhar um dinheiro, pode você mesmo imprimir e vender em eventos, enfim, tem muitas maneiras de mostrar o que você faz para os outros.

Não estou dizendo com isso que você entrará em um caminho direto para o sucesso e vai virar uma estrela dos quadrinhos e viver disso. Muitas vezes isso não é possível, não só por um problema seu, mas por uma questão da configuração no nosso mercado editorial e do público leitor.

Mas se expor, pôr para fora essas histórias que você quer contar, atingir um leitor que seja, encontrar mesmo que só uma pessoa que goste muito daquilo que você fez ou receber uma crítica que vai ajudar a mudar algo que não funciona, vale mais que qualquer coisa.

Vou deixar aqui também umas dicas práticas:

  • abrace esse trabalho: não adianta só postar em um blog escondido, tenha seus desenhos no seu perfil do facebook, instagram, etc. Não se envergonhe, mostre para o seu círculo de amigos; assuma para si e para os outros que você desenha e quer fazer quadrinhos.
  • se autorretrate no seu estilo: pode parecer uma bobagem, mas eu adoro navegar pela seção de autores do Social Comics e a única pista que eu encontro lá do que a pessoa produz é a foto do perfil dela. Muitas vezes por ali eu escolho o que vou ler.
  • peça críticas para outras pessoas: a grande maioria das pessoas no mercado de quadrinhos é muito aberta e muito fácil de se contatar. Converse com as pessoas, mostre o seu trabalho. Seja claro que você não está pedindo uma resenha formal nem publicação, apenas uma opinião sincera.
  • traduza seus quadrinhos para o inglês: tenho traduzido alguns dos quadrinhos curtos que eu faço com o Lielson e postado no Medium e em um site chamado Tapastic. A resposta dos gringos é interessante e o público disponível em inglês é infinitamente maior, o que aumenta as chances de retorno.
  • não desanime: cada caso é um caso, tem gente que tem respostas instantâneas e passa a ser conhecido rapidamente, mas a maioria dos casos não é assim. Pode ser que você poste sua HQ e ninguém leia ou uma pessoa leia. Não pare, continue produzindo, de tempo ao tempo. Esse esforço nunca será perdido, encare como um exercício.

Só para dar um exemplo de um espectro completamente contrário. Ontem também fui abordado por um rapaz que disse que estava fazendo uma pesquisa. Enquanto ele me perguntava uma ou outra coisa, ele fez uma caricatura minha. Conversei um pouco com ele, é um artista de rua, sem estudo formal, mas que desenvolveu uma técnica de caricatura bem rápida, com uma estilização interessante e até com um toque de aquarela. Esse rapaz, com um pincel todo destruído, com uma aquarela escolar, em pé, na rua, aborda as pessoas que ele não conhece e mostra o trabalho dele.

Abaixo as 4 primeiras páginas da HQ que o Daniel Assis me mandou (estamos todos na torcida para que ele lance logo na Social Comics ou em um blog a HQ toda) e na sequência a caricatura que o Doug Kuro fez de mim na rua.

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