O bunker do Geddel e a cela da vitacon

O Brasil está passando por um momento mais do que desesperador. Mais do que esquizofrênico.

É um choque atrás de outro choque.

Não são mais suposições, deduções, domínio de fato, são provas concretas. É o presidente desmascarado oficialmente como ladrão, o congresso todo oficializado como uma quadrilha que decidiu que era melhor nem investigar um presidente que rouba em público, um senador (não podemos esquecer do Aécio) que diz que manda matar o parente que carrega as malas de dinheiro e que continua aí, de boa.

E, como se faltasse algo concreto, surge o bunker do Geddel, um apartamento recheado de dinheiro, de uma quantidade obscena de dinheiro, que obviamente não tem nada de honesto nele ou estaria em um banco rendendo e se multiplicando infinitamente.

O bunker do Geddel é uma ofensa tão grande, uma afronta tão absurda a sociedade que nem dá para expressar em palavras.

Geddel obviamente não é o único bandido do governo. Ele não juntou aquelas malas todas no último ano do desgoverno Temer. Geddel transitou pelos governos Lula e Dilma, ministro escolhido a dedo pelo seu currículo expressivo como envolvido no escândalo dos anões do orçamento (esse só quem está na faixa dos quarenta anos vai lembrar porque é uma herança do governo Collor).

Ou seja ele está saqueando o Brasil desde antes do Real e, provavelmente, aquele não é o único apartamento recheado de dinheiro e, certamente, aquela é só a parte do dinheiro que ainda não foi lavada e redistribuída para a casta de ladrões que nos representa, porque ninguém guarda CINQUENTA E UM MILHÕES em dinheiro vivo em um apartamento no melhor estilo Pablo Escobar.

Mas esse não é o tópico aqui.

O tópico é: como a gente segue nossa vida com tudo isso?

Você sai de casa, conta as moedas para pagar um ônibus caro e lotado. E ele é caro e lotado porque parte do dinheiro vai para o bunker de alguém.

Você vai no supermercado, escolhe só as promoções e cupom fiscal mostra que mais de um terço do seu dinheiro foi em impostos que vão para o bunker.

Você quer estudar arte e o seu material é caro, obscenamente caro, o que elitiza completamente a área, torna-a inacessível para qualquer pessoa que não tenha o mínimo de privilégios na vida. Por que isso? Porque o material tem 100% de imposto de importação nele, mais uns 50% de imposto que tudo mais tem.

E estaria tudo bem, eu acho que esse tipo de coisa deveria ser mais acessível para todos, mas isso é outra questão. Se eu sou privilegiado ao ponto que depois de trabalhar consigo comprar uma folha de papel que custa $60 ou um estojo de tintas que custa $900 é justo que eu pague impostos, é justo que o meu dinheiro contribua para a sociedade em que eu vivo.

Não acho que o problema do Brasil seja os impostos, a gente tá aí, vivendo mais ou menos miseravelmente, mas tá vivendo com os impostos.

O problema é quando esse dinheiro em vez de ir para escolas, hospitais, segurança e cultura vai para um apartamento onde é estocado por um grupo de bandidos.

Como podemos viver sabendo que é certeza que o nosso dinheiro está indo para um apartamento em algum lugar?

Daí você continua nessa realidade miserável, com as pessoas morrendo e se matando e os bandidos estão lá, não só roubando, mas definindo sua vida e criando mais mecanismos para o país ser mais cruel e embrutecedor. Os bandidos estão lá, estocando dinheiro e dizendo que o presidente ladrão não precisa ser julgado.

E, quando alguém vai preso (algo que a gente sabe que é passageiro), como o bandido do Joesley que usou a própria delação para faturar mais ainda especulando no mercado financeiro, ele vai para uma cela de 9 m2.

E você fala: nossa ele vai pagar pelos crimes. Segue a vida e pensa, juntei um dinheiro nos últimos anos (menos que o Geddel, porque eu não sou criminoso), mas juntei um dinheiro e vou comprar um apartamento.

Procura o que você pode pagar com o seu dinheiro e acha um apartamento que tem 10m2.

Porra!

Depois de contribuir para encher o bunker do Geddel o que sobrou para você é morar em uma cela do mesmo tamanho da do Joesley. Numa cela onde você vai ter que pagar um condomínio, onde você pode sair a qualquer hora, mais as chances de ser assaltado e morto são tão grandes que é melhor ficar trancado mesmo. Uma cela na qual você vai ter que trabalhar até morrer sem ficar doente ou se aposentar, porque o condomínio não para de subir, o mercado não para de subir, o plano de saúde não para de subir e sem o plano você morre mais rápido porque o dinheiro que você paga para o governo para cuidar da sua saúde está no maldito bunker do Geddel que, obviamente é maior que a cela em que você está vivendo porque na sua casa não cabem todas aquelas malas e caixas.

Eu deveria terminar esse texto com uma resposta, uma sugestão… mas não tenho.

Ano que vem tem eleição, se você olhar muito para os candidatos vai ver que ou já passaram pelo governo e roubaram, ou votaram para o ladrão não ser julgado, ou estão apoiando o Temer ou alguma outra coisa escabrosa que impede qualquer pessoa decente de votar neles (aliás, sempre é bom lembrar que o novo campeão da mídia, o Dória, o prefeito turista, apoia publicamente o ladrão do Temer).

Então, no fim é isso… o jeito é viver até morrer, torcendo para morrer de causas naturais na sua cela, só que daí você lembra das palavras do Mutarelli

“… o desgosto é uma causa natural”