O Escultor

Vou dizer que peguei com boa vontade essa HQ do Scott McCloud. Para quem não o conhece, o autor é um teórico dos quadrinhos bem conhecido e os livros didáticos dele, que ensinam em quadrinhos a fazer quadrinhos, são bem populares.

Aproveitando a presença dele na CCXP de 2015 a editora Jupati lançou essa ficção escrita e desenhada por McCloud que conta a história de David Smith, um escultor iniciante passando por uma crise que faz um acordo com a morte para poder melhorar seu trabalho em troca de morrer em duzentos dias.

Como disse, fui com boa vontade ler a HQ, mas infelizmente O Escultor não chega lá.

McCloud pode ser especialista em HQ, mas definitivamente prova que entender a técnica não garante a prática.

Não tem nada de errado na HQ, ela é toda certinha no que se trata da técnica narrativa visual, toda certinha no desenho, toda certinha na condução do roteiro, mas, às vezes, não ter nada de errado não é o suficiente. Não ter nada errado, não quer dizer que a história empolga, emociona ou mesmo a torna memorável.

Falta alma e profundidade no Escultor de McCloud.

Acho que pra mim, o que mais me pegou foi o quanto o personagem principal é chato, quase ao ponto de ser irritante. Os objetivos dele são tão rasos quanto a discussão sobre arte no livro. Não fica claro se o que é mais importante para o personagem é fazer boa arte ou ser famoso, o que acaba sendo uma contradição quando ele critica outro artista por usar uma grande soma de dinheiro da família para criar uma escultura supostamente sem qualidade artística.

O que parece é que o roteirista não criou exatamente um personagem humano para um história em quadrinhos e sim que cumpriu um checklist de características necessárias para formar um personagem para um jogo de RPG. O personagem perdeu toda a família, tem uma dúzia de regras chatas para a vida que só garantem que a história se arraste para longe de qualquer solução e, para compensar, tem uma habilidade especial, a escultura, que é ampliada posteriormente, evoluindo de um personagem real para um super.

Nem vale entrar no mérito do romance da história com a clássica garota linda, livre, apaixonante e com um problema secreto sério que a transforma em uma bomba relógio que só um amor real pode desarmar (seguindo uma estrutura de filmes como Doce Novembro).

O desenho de McCloud segue na mesma linha, não tem nada de errado, mas também não tem nada de especial. Um traço bem estruturado, com um estilo simplificado e uma marcação de sombras monocromática.

E afinal, vale a pena ler a HQ? Apesar de tudo que eu falei, tem uma história ali, tem uma técnica ali, se você estuda quadrinhos, se leu os livros do McCloud essa HQ é de certa forma obrigatória, na real, seria interessante, inclusive, uma edição comentada pelo autor explicando as escolhas de montagem de páginas, das opções de quebra de página, quebra de partes etc. Tudo ali é bem pensando. Independente de ser empolgante ou não é uma HQ importante (dado o currículo do autor) que felizmente foi editada no Brasil, só isso já justifica a compra.

Fora isso, se você quer ler uma história certinha, um draminha romântico água com açúcar, algo para relaxar sem pensar em uma tarde de domingo, a HQ também vale.

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