O Filho Eterno – Cristovão Tezza

Eu fiz essa resenha muito tempo atrás para o extinto Homem Nerd e resolvi resgatar o texto, porque eu estou lendo um livro do Tezza agora e foi justamente no Filho Eterno que eu descobri esse autor que entrou para o hall dos meus autores favoritos.

Depois eu entendi muito mais sobre a obra do Tezza, mas a resenha ainda é válida, foi nesse livro que, além de eu descobrir o autor, eu passei a compreender e a valorizar muito autores hábeis na criação de uma voz literária, algo que virou quase uma obsessão nos meus gostos de leitura.

Se você não conhece esse livro, é uma grande porta de entrada para a obra do Tezza.

Sinopse: Em O FILHO ETERNO, Tezza expõe as dificuldades, inúmeras, e as saborosas pequenas vitórias de criar um filho com síndrome de Down. Aproveita as questões que aparecem pelo caminho nestes 26 anos do filho Felipe para reordenar a própria vida: a experimentação da vida em comunidade quando adolescente, a vida como ilegal na Alemanha para ganhar dinheiro, as dificuldades de escritor com trinta e poucos anos e alguns livros na gaveta, a pretensa estabilidade com o cargo de professor em universidade pública.

A primeira coisa a se dizer é que O Filho Eterno está muito longe de ser um desses lindos e emotivos relatos sobre filhos ou cães que podem virar aqueles filmes para arrancar dinheiro e lágrimas do público. Aliás, se você está procurando esse tipo de emoção reconfortante, leia qualquer outro livro, menos esse.

Dito isso ainda é preciso estabelecer algumas bases para falar sobre o livro. Um dos grandes destaques de O Filho Eterno – algo que certamente foi decisivo para colocá-lo à frente de quase uma dezena de prêmios literários – é o seu texto muito bem projetado. Umas das sacadas é o distanciamento narrativo que Tezza criou.

Apesar de ser baseado em suas experiências pessoais, mesclando a juventude um tanto conturbada com a vida com seu filho portador de Síndrome de Down nascido no ínício dos anos 80, Tezza não é o personagem central da história. De forma muito interessante vemos que o personagem central é um “ele” – uma terceira pessoa – observada por um narrador ao mesmo tempo distante por ser externo ao personagem e próximo por esquadrinhar até mesmo os pensamentos mais cruéis desse pai.

Assim é importante, até para sentir o peso que os sentimentos do livro têm, perceber que ele não é um típico relato em primeira pessoa, com um narrador-personagem. Mas sim que Tezza é o narrador da história um personagem criado por ele para representá-lo nessa narrativa.

Falado um pouco sobre a forma, fica mais fácil entender o conteúdo de O Filho Eterno e o que o faz tão intenso. Algo inevitavelmente marcante no texto é a crueldade dos sentimentos do pai em relação ao filho deficiente. Ele nunca tratará mal a criança, nunca deixará de cuidar dele, contudo carrega uma vergonha tão grande por ter um filho “mongolóide” – termo corrente para a síndrome na época que o filho nasceu – que ele sempre racionaliza frieza tudo ligado à criança.

O sentimento de inadequação do personagem é potencializado por uma vida de tentativas frustradas de seguir uma carreira artística – mais especificamente como escritor. É interessante como essa sensação do personagem vai tomando o leitor de forma a ele começar a sentir a mesma vergonha que é narrada.

Esse é outro dos grandes trunfos do livro, aliás. Analisando friamente, o personagem não se sentia exatamente mal pelo fato de ser sustentado pela mulher até ter que aceitar uma profissão que sempre repudiou – a carreira como professor em uma universidade pública – tão pouco a deficiência do filho lhe prejudicava de verdade. O que realmente faz esse personagem se contorcer é o que ele pensa que os outros pensarão dele. Assim, ele é quase esmagado pela pressão de preencher o campo “profissão” em um simples formulário. É comprimido até nulidade pela ideia de alguém achar que seu filho não é normal como as outras crianças.

E toda essa vergonha do pensamento alheio vai envolvendo o leitor e permeando seus pensamentos e logo você começa a achar que aquela visão que ele tem do filho não é cruel. Começa a entender as frustrações diante das limitações, principalmente sociais, do garoto.

No geral o passar do tempo, a história do pai e o crescimento do filho não são tão importantes em si para o livro. Os fatos que sucedem servem mais para marcar o tempo narrativo do que qualquer outra coisa, porque o que mais importa na leitura é a carga de sentimentos de todos os tipos que você vai absorvendo de uma forma muito interessante.

Enfim, é preciso um pouco de coragem e uma mente aberta para descobrir a maravilhosa leitura que é o O Filho Eterno, mas é certo que será infinitamente menos coragem do que Tezza precisou para escrevê-lo.

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