O fim do sonho americano

Vi um vídeo esses dias que compila na forma de uma longa palestra algumas gravações do Noam Chomsky um dos pensadores americanos mais críticos à sociedade americana.



Nesse vídeo ele fala basicamente sobre concentração de riqueza. Como a sociedade está organizada de forma a concentrar cada vez mais riqueza nas mãos de poucas pessoas e como isso está corroendo a possibilidade de vida nos EUA.

Eu recomendo ver o vídeo, é bem interessante e ele me fez pensar em várias coisas.

Vivemos em um momento em que o Brasil se transformou em uma máquina de alinhar as pessoas para uma visão de liberalismo econômico, de direita, de estado mínimo.

Isso é muito curioso, porque esse tipo pensamento favorece muito os mais ricos e os ajuda a ficar cada vez mais ricos, aumentando o fosso de desigualdade em troca de um suposto caminho livre para que qualquer um supostamente possa ascender com o esforço suficiente (escrevendo isso me lembrei muito de 3%, porque a série é basicamente isso)

E daí você vê o fenômeno que é o pobre de direita, o trabalhador semi-escravizado que defende menos intervenção do Estado nas relações trabalhistas pode achar que essas pessoas estão erradas, iludidas ou loucas.

Mas, quando olhamos de perto é muito fácil entender a razão dessas pessoas.

O governo brasileiro é muito corrupto, em todos os seus níveis, e extremamente ineficiente.

Você tem uma máquina estatal imensa, que consome muito mais de 1/3 da renda de um trabalhador e não oferece praticamente nada em troca. Os postos de saúde são uma batalha, a educação é temerária, a segurança é assustadora, o judiciário é tendencioso.

O dinheiro entra na máquina do estado e é redistribuído para empresários com pedágio para políticos que literalmente enchem apartamentos inteiros de dinheiro, que entopem contas em paraísos fiscais.

Políticos que entram sem nada no jogo e saem com uma fortuna desproporcional.

O alto funcionalismo público, muitos deles escolhidos a dedo pelo jogo político, não só recebe salários muito maiores que a média de qualquer trabalhador, mas têm tantos privilégios são praticamente carregados no colo para o trabalho. E não basta um salário alto, o celular pago, o carro abastecido, a comida servida na boca durante o expediente e mais um monte de extras, o caras precisam além disso roubar e roubar muito.

E, quando o dinheiro falta, a solução dos liberais é reduzir os serviços que o estado finge que oferece e aumentar os impostos.

E de repente o político resolve trabalhar e passa a regulamentar coisas que são bom senso, criar leis sufocantes que são o convite para o jeitinho, para pagar a propina para o fiscal.

Daí você vê seu dinheiro indo e nunca voltando, você se vê pagando proporcionalmente o mesmo tanto de imposto que um multimilionário, às vezes você se vê pagando proporcionalmente mais do que o multimilionário e é óbvio que você vai engrossar o discurso do estado mínimo, dos menos impostos.

Não vou falar aqui de questões meio bestas de “ah um iphone é muito mais barato em nova iorque”, porque, na real, se você está se preocupando em comprar um iphone, provavelmente já ganha o suficiente para pagar um plano de saúde, uma escola particular e um condomínio com segurança, então obviamente a única coisa que falta na sua vida é poder comprar um iphone mais barato. Ou seja, você já está acima da grande maioria das pessoas mais sofridas do país, que trabalha todos os dias e não pode pagar por saúde, educação e segurança e não recebe isso do estado também.

Eu sei que a lógica do: a pessoa tem que se esforçar, tem que trabalhar mais, é atraente. De fato, quando você se esforça pode conseguir um pouco mais de dinheiro, mas é triste o quanto de esforço e necessário para muitas vezes ficar no limiar da sobrevivência.

O problema que vivemos é muito sério e perigoso.

O mundo passou a ser governado por um leviatã invisível, uma bola de dinheiro que faz tudo para crescer sem parar.

As empresas, os prédios, tudo em larga escala é negociado em forma de ações, que são trocadas como figurinhas por fundos de investimento. Então uma rede varejistas não tem mais um “dono”, tem um bloco de dinheiro e tem uma mesa diretora cuja única função é deixar o bloco de dinheiro contente para ele não ir embora. E como o dinheiro fica contente? Com redução de gastos com mão de obra, com redução de qualidade da matéria-prima e com aumento das vendas.

Daí você é esse funcionário massacrado, recebendo pouco e sem auxílio do governo para nada, nem para oferecer uma educação básica para o seu filho. Seu sonho, como é o da maioria dos brasileiros segundo pesquisas, é ter seu próprio negócio. Ou seja, o sonho do oprimido sempre é virar opressor.

Mas eu resolvi entrar nesse assunto porque logo mais teremos eleições e esse é um momento importante só que talvez não tenhamos um poder relevante para influenciar as coisas, porque o jogo tem suas cartas marcadas.

Então, quando acabar a Copa e começar aquele clima de eleição, antes de defender um candidato, antes de atacar uma pessoa que pensa diferente, antes de postar aqueles textos irritantes “dei unfollow em 20 pessoas que falam x ou y”, se coloca no lugar do outro.

Eu não sei se o Brasil tem solução, não sei se tem alguém com gana o suficiente para fechar a torneira da corrupção, nem sei se isso é possível. Não sei se os serviços públicos, dilapidados por décadas têm condição de se reerguer.

Esse seria o ideal. O ideal é que quanto mais você ganha, mais você paga de imposto e que esse dinheiro vá  de fato, sem paradas para corrupção, para que as pessoas que ganham pouco possam ter o mínimo de conforto. Mesmo que os 1% mais ricos, que as pessoas que estão no controle, não queriam ter esse pensamento por uma questão humanidade, que tenham por uma questão de “se não ajudar esses caras eles vão se revoltar com essa miséria toda e vão assaltar e matar sem parar e eles são a maioria, uma maioria maior do que qualquer segurança que se possa comprar.”

Esse é o ideal, mas não sei se é possível, acho que estamos de fato destinados a distopia.

Assim sendo, acredite no que você quiser, mas não se atraque com os outros, não ofenda ninguém pelo seu ponto de vista ou pelo ponto de vista do outro.

Cada um tem uma situação diferente, se o seu problema é o preço do iphone, ótimo pra você, se o seu problema é que está pagando muito imposto, ótimo também, porque você teve que faturar para poder ganhar o suficiente para se achacado pelo governo. Tudo bem defender o seu ponto de vista. E seu ponto de vista, do lugar onde você está, a partir do seu histórico pessoal, pode ser muito válido.

Só pensa antes de atacar quem defende um ponto de vista contrário, porque a necessidade dessa pessoa pode ser muito mais vital que o iphone.

Debater, trocar ideias, pensar em soluções, votar em que você acha que pode fazer o que você precisa (mesmo que seja um político que, por sua natureza, provavelmente vai trair cada um dos princípios que colocou no comercial da TV) é legal.

Se você não quer nem ouvir outro tipo de ideia, quer ficar com as suas, ou com ideias parecidas, ótimo também. Para de seguir, para conversar quem pensa diferente, só faz isso sem alarde.

Porque ofender, brigar, não tentar nem compreender porque outra pessoa pensa diferente… é só mais uma tristeza nesse mundo que não precisa de mais nenhuma ajuda para desandar.

 

 

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