O Grifo de Abdera

 

Mutarelli é um sujeito que maltrata os fãs. Você espera um tempão por um livro novo, corre na livraria logo que sai e em algumas horas você terminou de ler e tem que recomeçar a espera.

Mutarelli é um sujeito que ama os fãs, que se abre e compartilha seus sentimentos de forma tão bonita que não há como reclamar da espera que, até hoje, tem valido a pena.

Na semana passada estive presente na leitura que Mutarelli fez do último capítulo dO Grifo de Abdera. Não dá para esperar menos de um autor como ele. Alguém que no lançamento do seu livro (tudo bem, o livro já estava a venda umas semanas antes, mas era O lançamento) faz uma performance intitulada Spoiler em conta o final do novo livro.

Foi algo muito intenso, antes de começar ele avisou que aquele capítulo era muito especial para ele, que “tocava uma corda interna” muito forte que o fazia chorar. Nem preciso dizer que ele chorou lendo, que todos choraram lendo, que foi lindo, que agregou uma camada especial a um livro que já é muito especial.

O Grifo é um brinde aos fãs, um presente para aqueles que acompanharam a jornada do autor até aqui. Provocativo, ardiloso, Mutarelli é um “não-personagem” do livro.

É difícil explicar essa loucura, então vale colocar aqui a sinopse oficial para facilitar:

Mauro é roteirista dos quadrinhos de Paulo. Os dois publicam sob a alcunha de Lourenço Mutarelli, e são representados publicamente pelo bêbado Raimundo. Mas a morte de Paulo forçará Mauro a tentar uma carreira solo com O cheiro do ralo, seu primeiro e bem-sucedido livro. É quando ele recebe de um estranho uma moeda antiga, o Grifo de Abdera, e sua vida muda. Oliver não conhece Paulo, Mauro, Raimundo ou Lourenço. Mas, quando Mauro recebe a moeda, uma conexão se forma entre eles. É este delicioso jogo que alimenta O grifo de Abdera, primeiro romance de Mutarelli desde Nada me faltará, de 2010. Um labirinto de obsessões, taras, perguntas e mistérios, acompanhado ainda de uma longa história em quadrinhos.

Com isso o livro vira um jogo de metalinguagens e loucura, que ora serve de válvula de escape para as opiniões de Mutarelli sobre a própria carreira e a própria vida, ora parte para o misticismo tão peculiar no universo do autor.

Adianto que não é um livro para se começar na obra de Mutarelli. Ele é perfeitamente compreensível, é claro, mas conhecer razoavelmente a carreira e os trabalhos do autor dão uma dimensão infinitamente maior ao livro.

Outra loucura interessante desse livro é a HQ embutida nele. Trata-se de um “fanzine xerocado” produzido pelo personagem Oliver na sua loucura que é “encartado” no livro pelo narrador Mauro.

[Vou abrir um parêntesis aqui, eu gosto muito das edições da Cia. para os livros dele com os cantos arredondados remetendo a um moleskine mas, se fosse uma edição da Cosac Naïf eles provavelmente  iriam fazer o fanzine com cara de xerocado e grampeado realmente anexo como o livro se propões. É claro que daí custaria R$ 100, então tem que seus prós e contras]

Não tem muito mais o que se falar. Se você gosta do trabalho do Mutarelli, vai se deliciar. Se não conhece, sugiro que comece por A Arte de Produzir Efeito sem Causa e/ou Diomedes.

Como Mutarelli gosta de frisar, compre os livros dele, porque ele recebe 10% do valor, menos o imposto de renda.

Compre na Cultura, na saraiva ou na travessa.

grifo