O Jantar

[Esse texto tem uma versão em vídeo aqui https://youtu.be/1RH0_-Q11e8].

Este livro não é um lançamento, mas sempre vale uma recomendação de bom livro.

O Jantar é uma publicação da Intrínseca de 2012, um romance escrito pelo holandês Herman Koch, que teve mais de um milhão de cópias vendidas na Europa.

Eu não vou falar muito da história em si porque boa parte do poder desse livro está nos pequenos mistérios que ele vai desenrolando.

A estrutura é bem curiosa. A narrativa principal do livro é um jantar com os irmãos Paul e Serge Lohman e as respectivas esposa Claire e Babette, dessa forma os capítulos do livro foram agrupados como aperitivos, entrada, prato principal, sobremesa e digestivo.

A narração é em primeira pessoa, do ponto de vista de Paul e que se reserva ao direito de omitir uma série de coisas (pensando bem pode haver outro motivo para essas omissões, mas deixo para a interpretação de quem for ler). Aliás, no geral, eu não sou tão a favor das narrativas em primeira pessoa, mas, nesse caso, principalmente olhando o livro em retrospecto, consciente dele como um todo, o autor faz um belíssimo uso narrativo da primeira pessoa, algo que é até raro. A opção pelo narrador-personagem não é só uma escolha gratuita de ponto de vista, é algo que acrescenta um grande sentido ao livro quando se compreende o todo.

Essa narrativa principal, além de mostrar um ponto crítico na vida dessa família, funciona como uma espécie de comédia de costumes onde Paul destila suas críticas ácidas sobre os restaurantes holandeses, principalmente aqueles como o caríssimo restaurante em que estão.

Mas o interessante não está apenas aí. A narrativa segue como uma espiral, indo e voltando nas memórias do narrador e reconstruindo uma série de momentos que culminaram no problema familiar que esses dois casais terão que abordar em algum momento durante o jantar.

No começo do livro, enquanto tentava adivinhar o que aconteceria na história, por um momento eu temi que ela fosse desandar para uma discussão meio desgastada de pequenas tradições.

Por sorte o que acontece é totalmente o oposto do que eu pensava. Fui surpreendido constantemente a cada capítulo em que a história se desdobrava, cada revelação que mostrava a verdade sobre aqueles personagens.

Você vai acompanhado as opiniões contundentes que Paul tem sobre seu irmão, o possível futuro primeiro-ministro da Holanda, vai simpatizando com essa figura de ser humano de verdade do narrador em contraponto com irmão calculista com a opinião pública.

O narrador tem uma forma de fazer o leitor se sentir próximo a ele, sentir como se ele fosse uma pessoa comum, algo que torna tudo muito mais chocante conforme a situação real se revela.

O Jantar é parece um romance trivial, mas, como muitas pessoas triviais, é um fermentado de opiniões e considerações que parecem duras demais para serem ditas.

No fundo o livro promove uma discussão necessária sobre civilidade, humanidade e muitos valores que a gente gosta de se iludir que já são pacíficos e cristalizados de forma positiva.

A escuridão do pensamento do europeu bem instruído revelado nesse livro merece ser vista pois talvez ajude a compreender diversos dos movimentos e escolhas políticas que vemos nesses países que, daqui do fundo do nosso terceiro mundo, costumamos ter como exemplos irretocáveis.


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