O preço dos materiais artísticos e o acesso a eles no Brasil

Desde que eu comecei a estudar desenho e pintura eu sempre me questionei (sofri) sobre os preços cobrados pelos materiais.

A resposta de porque o material é caro, é simples: de cada R$100 que você gasta em material aproximadamente R$ 60  vai para o governo.



Eu sei que pode parecer um discurso para economizar uns trocados que o governo malvado tira dos pobres artistas ricos, mas eu peço um pouco da sua paciência para fazer um raciocínio, porque esse o ciclo de devastação que esse dinheiro a mais causa se desdobra por muitos lados.

Quando você está no aprendizado do desenho, esse problema do dinheiro é relativamente simples, porque você usa basicamente lápis, papel e no máximo nanquim para a finalização. Mesmo outras ferramentas como borracha, lapiseira, carvão, por ser de uso mais geral, tem produção nacional com qualidade e preços aceitáveis.

Mas quando você transita para o mundo da pintura, tudo muda de figura.

A maior parte das tintas de qualidade são importadas. Nem todos os tipo de pincel tem produção nacional. Papel para aquarela, por exemplo, só importado por preços obscenos e, mesmo tendo o dinheiro não é algo fácil de encontrar.

No momento, por exemplo, as principais marcas de papel de alta qualidade (Arches, Fabriano, Saunders) estão indisponíveis nas lojas por questões de mudança de representantes e/ou sazonalidade das importações.

Aliás, a questão da facilidade de encontrar materiais é outro ponto, são pouquíssimas as lojas especializadas em materiais artísticos no Brasil. Na verdade é número é quase risível.

E por que tudo isso?

Tudo gira em torno do preço em um ciclo infinito.

Não se tem produção nacional consolidada de materiais de primeira linha.

Então é preciso importar. Para importar todos os produtos são taxados, de cara, com um imposto de importação de 60% do valor. Se você contar frete e outros impostos e taxas, o preço de custo para o lojista já de cara chega a 100% do valor no exterior, sendo que, o valor no exterior, mesmo sem todos nosso impostos, já é um tanto elevado para os padrões de renda do brasileiro.

Com um produto tão caro, para você ser lojista você precisa investir um capital inicial imenso, pois seu estoque, de cara, vai lhe custar uma fortuna que, provavelmente não lhe gerara uma renda tão certeira como outros tipos de investimento para esse volume de dinheiro.

Mas você resolveu assumir o risco, investiu na compra do estoque, precisou de um espaço grande e bem localizado, funcionários mais ou menos especializados, e, então, tem uma série de custos fixos que chegam as alturas, tudo isso tem que ser repassado no preço e ainda tem que sobrar espaço para um lucro.

Com isso você chega em um produto caríssimo e bate de cara com um novo problema: o mercado consumidor.

Se o produto é caro, o artista só pode ser alguém que tem uma faixa de renda alta. Ou seja, seu público vira um nicho dentro de um nicho, que são pessoas com uma renda razoável e que se interessam por artes. (Óbvio, tem exceções, tem sempre aquele cara batalhador e tal, mas, a questão é que a vida não precisava ser tão sofrida para ninguém)

E essa limitação do público, de novo, causa um problema econômico e social.

O problema social é que a arte se torna uma coisa excludente. A pessoa de baixa renda, que já não tem uma tendência a se interessar por arte por fatores educacionais e familiares, passa a não ter acesso aos materiais nem se tiver interesse, porque o preço é proibitivo.

Com isso, você fecha mais ainda o mercado consumidor, você não forma novos artistas e vai elitizando mais e mais. E se tem menos consumidor, as lojas importam menos, os custos sobem e têm que cobrar mais, subindo mais um degrau na possibilidade de acesso aos materiais.

Iberê Camargo, nos anos 80 já fez diversos protestos contra os impostos sobre importação dos materiais, uma das falas atribuídas a ele é com os altos preços o artista se sente obrigado a fazer uma obra-prima toda vez que usa um material.

O preço impede a experimentação, impede o estudo e, acima de tudo, impede a arte como meio de diversão.

Ora, se temos isenção de impostos para livros e materiais educativos, por que se trata o material artístico como supérfluo?

O material de artístico e não estou falando só de pintura, mas instrumentos musicais, por exemplo, deveriam ser isentos dos mesmos impostos que os livros, pois são fonte de formação e de cultura tanto quanto.

O estudo do artista, em última instância, é pela experimentação, é pelo teste, é pelo erro e ele precisa ter essa liberdade de errar.

Não estou fazendo aqui uma campanha contra os impostos, nem um pedido de subsídio, mas sim um primeiro passo para um equilíbrio.

Eu sei que o Brasil é um país onde não se tem saneamento básico, não se tem médicos, não se tem o mínimo para viver, mas, arte tem que ser vista como algo básico como a educação e deveria ter seu acesso facilitado.

Tributa grandes fortunas, carros de luxo, apartamentos milionários ou rouba menos, mas deixa o material. Incentiva o ensino nas escolas. Abre essa porta.

Pode parecer uma besteira, pode parecer uma utopia, pode parecer que você só vai favorecer uma elite que vai pagar menos, mas, na real é parte de um processo.

Quem tem muito dinheiro, não se importa de pagar os preços no Brasil e, muitas vezes, já sonega esse imposto de importação comprando em inúmeras viagens ao exterior.

No primeiro momento, um corte de impostos desse facilita a vida daquele artista que tem menos dinheiro, que está se limitando trabalhando com muito esforço com material ruim e esse cara, que é mais próximo da realidade da média do brasileiro, vai propagar que não está mais tão caro e, aos poucos, você tem uma expansão e inverte o ciclo.

Óbvio, o Brasil é um país embrutecedor e um ciclo desses que passa por um estigma da arte como coisa de rico demora gerações para mudar.

Mas é preciso começar em algum lugar e a único elemento da cadeia que tem todas as cartas na mão é o governo. O governo simplesmente tem mudar a lógica, para de tratar a arte como o maior do luxos e passa a trata-la como algo educativo. Esse imposto claramente não está favorecendo a produção nacional, já que a matéria-prima de várias etapas também é importada. Esse valor arrecadado não está salvando o Brasil, muito pelo contrário, se considerarmos o volume irrisório de materiais que consumimos hoje em dia e esse ciclo histórico de decréscimo, a perda de arredação é insignificante, quase uma migalha perto do tanto que o Team Temer furta todos os dias.

Eu sei, eu sempre sou o primeiro a falar que a gente precisa primeiro de saneamento básico, alimentação e educação. Mas, sinceramente, a vida não é só isso, não somos animais que comem ração humana, não somos um gado feito para trabalhar, cada dia mais brutos, cada dia mais insensíveis.

Não estou dizendo que temos que deixar de ser engenheiros, encanadores, pedreiros, pelo contrário, o material mais barato não é para o artista profissional, porque esse embute no seu preço o custo, o material mais barato é para que qualquer trabalhador tenha a opção de chegar em casa, pintar um quadro ou tocar um instrumento se for isso que lhe faz feliz.

Mas daí você fala: ah, mas não precisa do material de primeira qualidade para o estudante ou para o amador, ele pode usar aquela tinta mais vagabunda que criança usa na escola.

E, nesse ponto tem uma questão curiosa, é mais fácil um artista profissional se virar com um material ruim do que o amador, porque iniciante precisa que toda a dificuldade seja tirada do caminho, pois ele já está lutando com a dificuldade da sua própria falta de técnica.

Não é porque você é iniciante ou amador que você não tem direito a um bom resultado.

No fim, acho que o que eu quero dizer é simples. Não arte tem que deixar de ser um luxo e ser parte da vida, ainda mais nesse tempo sombrio onde tudo é feito para destroçar toda e qualquer poética que ainda tínhamos.

Abrir mão de um pouco desses impostos é pensar em um futuro melhor, onde não somos só um gado e temos interesses maior que sobreviver.