One Punch-Man

Uma das coisas mais legais das redes sociais é ver como algumas coisas crescem, ganham volume e logo tem tanta gente falando que você começa a ficar curioso com isso. Volta e meia isso acontece com algum mangá, o que é inclusive mais curioso porque todo esse barulho, todos esses fãs surgem em torno de algo que não tem versão nacional ainda, não tem uma empresa no Brasil por trás ainda, mas as pessoas já se viraram, acharam em inglês, assistiram animes com legendas piratas e por aí vai.

Nesse quesito as editoras nem podem reclamar muito, pois essas pessoas que consumiram esses títulos de forma pirata (como eu no caso de One Punch-Man, por exemplo) podem até não comprar a publicação nacional, mas engrossam o coro que fala que esse título é bom e esse tipo de publicidade orgânica e sincera é mais positiva do que uma dúzia de leitores que foram perdidos para os piratas.

No caso do mangá, em particular, sempre tem a chance de um título nunca ser publicado aqui, mesmo tendo uma popularidade razoável no Japão e no mundo, então os canais de pirataria para esses materiais acabam sendo bem equipados.

Toda essa introdução é para dizer que na última semana eu li sem parar 10 volumes de One Punch-Man.

Esse mangá surgiu como uma webcomic escrita pelo roteirista de pseudônimo One e, apesar do desenho bem tosco do autor, a série viralizou de um jeito que ganhou um remake com um desenho estupendo de Yusuke Murata (que para ter uma ideia foi assistente e aprendiz de Takeshi Obata, de Bakuman e Death Note, por isso não estranhe a semelhança do traço).

Eu sou muito apegado ao desenho nas HQs e o que foi meio decisivo para que eu lesse foi ver alguns quadrinhistas dizendo que essa era uma HQ a se estudar para melhorar a narrativa gráfica.

A narrativa visual de One Punch-Man é uma coisa invejável. A história flui em uma velocidade absurda, com páginas estupendas, cheias de detalhes e movimento. Tudo bem, o autor abusa um pouco das splash pages e das páginas duplas, mas elas são tão bem colocadas no contexto da narrativa e seu efeito é tão relevante para as cenas, que nem dá para criticar muito.

Agora, sem dúvida, o grande destaque da história é o uso de onomatopeias como parte da composição gráfica da página.

Eu separei algumas páginas abaixo que ilustram bem isso. Os mangakas no geral trabalham bem com onomatopeias, mas Yusuke Murata se destaca mesmo entre os colegas.

Eu não sei qual será a opção da Panini no Brasil, provavelmente irá manter as onomatopeias na versão original – o que é mais simples de fazer e também é bem legal pois não muda a visão artística do autor – mas a Viz Media, quando publicou nos EUA optou por traduzir as onomatopeias e colocar um texto com caracteres ocidentais no espaço ocupado pelo gringo. Eu entendo que os puristas podem até não gostar, mas se esse trabalho é bem feito fica muito legal (tem uma imagem dessa versão aí embaixo também).

Quanto a história, ela é a mais simples possível, Saitama decide desistir de ser um empregado e resolve ser um herói para se divertir. Para isso ele treina tanto ao ponto do seu cabelo cair e ele ficar tão forte que vence os monstros mais poderosos com apenas um golpe (por isso o título).

No universo que Saitama vive, tanto os ataques de monstros quanto os heróis são extremamente frequentes, tanto que existe uma associação de heróis que classifica quem quer atuar nesse ramo por categorias e cria rankings que variam de acordo com a atuação desses heróis.

O interessante é que enquanto todos os heróis são fissurados nos rankings e querem sempre posar como mais fortes, Saitama não liga para nada disso, ele derrota monstros sem dar a mínima importância, com o mínimo esforço, e muitas vezes sem receber o devido crédito.

É um personagem bem interessante, bem peculiar, mas tem tudo para ser uma armadilha narrativa.

Saitama é tão poderoso que nenhum desafio é relevante para ele, então a história acaba girando mais em torno dos coadjuvantes, dos heróis mesquinhos e daqueles que reconhecem a verdadeira força de Saitama e os monstros que acabam facilmente com todos os heróis juntos, eventualmente são destruídos com um único golpe por Saitama.

Assim, a trama é extremamente despretensiosa, muito divertida, mas é difícil enxergar grandes saídas para o roteiro – tanto que no Japão os leitores já começam a se questionar se a história não está ficando repetitiva.

Independente de como vai acabar, se vai ser genial ou vai ser muito ruim, eu recomendo muito a leitura desse título quando for publicado pela Panini. É muito divertido, é absurdamente bem desenhado e tem cara de ser daqueles mangás que serão referência para artistas por muitos anos em termos de narrativa visual.

Vou dizer que é tão divertido ler One Punch-Man que você fica morrendo de vontade de fazer uma história assim, toda visual e expansiva.

 

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