Placas Tectônicas de Margaux Motin

Já está no Social Comics essa HQ francesa publica no Brasil pela Nemo que vem seguindo com um trabalho bem consistente na publicação de HQs europeias e nacionais e, vale destacar, é uma editora que desde sempre investe no digital, não só em serviços como Social Comics como também na venda de versões digitais das suas publicações pelos mais diversos canais.

Placas Tectônicas é uma HQ que já tinha me interessado quando foi lançada pelo mais fútil dos motivos, adorei a capa. O desenho da francesa Margaux Motin me chamou muito atenção, uma mistura de Disney, linha clara e um toque muito pessoal.

E, felizmente, a capa não engana o leitor, o resultado no interior do livro é ainda mais surpreendente em termos de ilustração.

Ok, ela praticamente não desenha cenários e as mais de duzentas e 250 páginas se resumem, basicamente, na representação da própria artista fazendo caras, bocas e trocando figurinos e alguns poucos coadjuvantes recorrentes.

Mas a tridimensionalidade, a elasticidade, a expressividade do seu traço relativamente simples, praticamente só de contorno e sem hachuras é surpreendente. É aquele desenho que se sustenta no pensamento prévio da artista para posicionar o personagem em um ângulo exato que permite criar os volumes necessários sem grandes firulas.

O desenho dela lembra as animações da Disney e surpreendem muito por se sustentar sem precisar de um trabalho complexo de cores. Aliás, a cor nessa HQ é um capítulo a parte, tão simplificada como o traço, Motin faz uma marcação simples e muitas vezes pontual de cores que funciona perfeitamente no seu projeto de criar uma cena simples que diz tudo.

E, para fechar o comentário sobre a arte, é absurdo o nível de sensualidade que Motin consegue extrair da simplicidade do seu trabalho.

Sobre a HQ em si, a princípio me lembrou o trabalho da argentina Maitena, mas aos poucos me pareceu até superior. Cada página, ou dupla de páginas é um “cartum” autocontido, mas o livro tem uma unidade, uma sequência funcional que quase monta uma narrativa e a loucura de Motin é algo muito peculiar.

Ela não é perfeita em nada, mal é capaz de cuidar de si mesma, quem dirá cuidar da filha pequena ou ter um relacionamento funcional com outra pessoa.

O pior, que apesar de criar uma autocaricatura quase grotesca, Motin se apresenta com tanta sinceridade como uma pessoa adorável e ao mesmo tempo horrível e cheia de problemas que você não só acredita que ela possa ser essa figura absurda quanto se solidariza com a forma de vida dela.

A HQ é politicamente incorreta ao extremo, mas não é ofensiva, a honestidade, a sinceridade em cada autoretrato cria um equilíbrio perfeito.

Obviamente o foco principal da HQ são mulheres na faixa do 20-40 anos, ou seja, pessoa como Margaux Motin, mas tem tanto ali dentro daquela arte e daquelas pequenas tiradas que seria uma pena deixar passar só porque você não é o público alvo.

Para ter uma ideia do trabalho dela, vale ver essa história – que não está no livro – que foi publicada na Piauí.

Compre a HQ na Amazon, Saraiva, Cultura ou Travessa ou leia na Social Comics

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