Preacher de Garth Ennis e Steve Dillon

Tem umas histórias que ganham uma camada a mais de importância pela mística editorial, Preacher é uma dessas HQs.

Nos EUA a história de Jesse Custer transcorreu normalmente, se tornou um dos títulos importantes do selo Vertigo da DC, teve 66 edições, alguns especiais e é reimpresso até hoje nas versões encadernadas.

Já no Brasil a história é outra. Preacher virou uma espécie de maldição editorial, todo mundo que tentava publicar fechava as portas. Para ser justo essa é a história de mais ou menos todos os títulos da Vertigo, exceto Sandman, mas Preacher parece ser icônico porque em 2000 a série já tinha se encerrado com muito sucesso nos EUA e aqui mal tinha passado das primeiras histórias.

Segundo o Guia dos Quadrinhos a série passou pelas editoras: Metal Pesado, Atitude, Tudo em Quadrinhos, Brainstore, Devir, Pixel e, finalmente, foi publicada completa pela Panini.

Quando o selo Vertigo chegou na Panini a expectativa em torno de Preacher era tamanha que a editora optou por começar a publicar a série em 2010 pelo sétimo encadernado, encerrando em 2011 (11 anos depois do final da série nos EUA) essa saga que posteriormente foi republicada por completo.

Dessa forma Preacher se torna um dos exemplos categóricos de como era tortuosa a leitura de quadrinhos no Brasil. Você apostava em uma série, gostava, via a editora fechar, gastava uma grana em uma republicação que vendia pouco porque as pessoas queriam o material novo que obviamente nunca chegava porque as editoras nem conseguiam formar um novo público e muito menos forçar os fãs a recomprar algo que tinham em outro formato. E, para complicar, tradicionalmente era difícil encontrar edições “atrasadas” ou seja, ou você aposta as cegas ou quando alguém fala que uma série é boa ela já está muito adiantada e você não consegue seguir a história.

Para mim Preacher tinha mais um fator complicador, a arte de Steve Dillon.

Eu sou meio chato com o desenho nos quadrinhos e, mesmo que um desenho não seja ruim, muitas vezes ele não é do meu gosto. Eu sempre achei o desenho de Dillon muito duro, sem dinâmica, ele faz muitos perfis chapados, muitos closes e o resultado narrativo final para mim sempre pareceu algo muito duro e sem graça.

Então, mesmo com todo mundo falando que a história era boa, não me sentia compelido a lê-la.

Mas, veio a série de TV com uma cara bem promissora e resolvi que seria hora de ler as 66 edições de Preacher.

De fato Preacher é uma baita história, aquelas que você pega e lê sem parar do começo ao fim, vários ganchos, vários conceitos interessantes e um tema central bem curioso, a busca do pastor Jesse Custer por Deus para fazê-lo responder por seu abandono da humanidade. Além de ser uma grande história de amor.

Jesse recebe em seu corpo a entidade conhecida como Gênesis, um ser filho de um anjo e um demônio que lhe dá o poder da “voz de Deus” – tudo que Jesse fala com a voz se torna uma ordem, um poder que pode subjugar o próprio Deus. Além do poder Jesse recebe o conhecimento sobre o que aconteceu no céu e sobre o papel de Deus nos eventos, o que o leva a viajar pelos EUA para tentar achar o criador de tudo.

Além dessa narrativa, que é interessante por si só como várias que colocam Deus, anjos e demônios como personagens, o grande trunfo de Preacher são os vários personagens e o uso curioso e pouco cômodo do Ennis das situações bizarras.

Nem estou falando só do Cassidy – que tem várias sacadas diferentes sobre os poderes de um vampiro – ou mesmo do Santo dos Assassinos, porque esses dois são praticamente personagens principais. Mas personagens como Quincanon, o Allfather, os investigadores sexuais, o ator pornô envolvido em um acidente com um vibrador, o icônico Cara de Cu. Tudo é sempre bizarro, sempre cruel, sujo e engraçado de forma pervertida.

Talvez em termos de narrativa longa, Ennis não tenha um planejamento tão bom quanto internamente nos arcos, mas na média é uma história excelente, principalmente por não cair no comodismo que o poder da “voz de Deus” daria a qualquer narrador. É um poder tão grande que é quase curioso o quão pouco ele é usado, não só isso, muitas situações Jesse prefere resolver com os punhos e não usar a voz, enquanto faz uns eventuais usos triviais só por diversão.

Mesmo a arte de Dillon que não é minha favorita, é algo com que você se acostuma e meio que depois de um tempo fica difícil imaginar a série sem ele.

No geral Preacher pode não ser aquela história essencial e perfeita que quem sofreu para ler pode tentar pintar, mas é uma história divertida, inteligente e, no mínimo, diferente, o que a mantém relevante e a mantém como uma leitura que vale a pena mesmo depois de quase vinte anos do seu início.

Tem algumas edições de Preacher a venda, é uma pena que a Panini não mantenha todas em um catálogo permanente, e caso você só queira relembrar a história para ver a série, o Thales do MDM lançou esse ebook sobre a HQ.

Versão vídeo:

 

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