Quanto fatura a Netflix?

Esses dias em uma conversa com o Guilherme Kroll levantamos um suposto faturamento para a Netflix de US$ 6bilhões por ano.

Eu achei um valor baixo para uma operação global da magnitude da Netflix o Guilherme achou muito.

Então levantei alguns números que são interessantes e como tem poucas análises sobre isso resolvi fazer um post no blog. Os dados foram tirados do site para investidores da Netflix e desse texto do Guardian.

Primeira questão: a Netflix não está em todos os mercados. O grosso do serviço é nos EUA, o segundo maior mercado é o Brasil e ela está ao todo em 50 países (que não incluem os mercados gigantescos da China e do Japão)

A Netflix fechou 2014 com 39,1 milhões de assinantes nos EUA (37,6 pagantes) e 18,2 milhões fora dos EUA (17,6 pagantes), totalizando 57,3 milhões de clientes (54,4 pagantes).

Esses assinantes geraram em 2014 um faturamento direto de US$ 4,7 bilhões, mas para manter o serviço a empresa gastou 3,3 bilhões em direitos autorais e mais 600 milhões em marketing.

Assim o resultado dessa operação é um lucro bruto de US$ 776 milhões no ano.

Questão dois: é interessante nota aqui que as operações EUA x Mundo tem um resultado bem diferente. O lucro bruto na operação nos EUA é de 936 milhões, enquanto o restante do mundo gerou um prejuízo de 159,7 milhões. Ou seja, o “negócio” Netflix está bem consolidado e rentável nos EUA, mas a manutenção do oferecimento do serviço em 49 países diferentes, com questões legais diferentes e costumes locais diversos ainda não se mostrou lucrativa. Obviamente é existe um período de preparação e crescimento do negócio e a operação internacional já teve uma melhora significativa do prejuízo de 274 mi em 2013 para o que teve no ano passado.

Questão três: é preciso descontar ainda todos os custos operacionais, impostos e etc e incluir o valor do lucro do serviço de entrega de DVDs nos EUA (lá a netflix ainda mantém a assinatura de mídias físicas e isso dá um lucro de 368,2 mi ano), no fim de tudo, de uma operação em larguíssima escala, feita por uma marca com um crescimento assombroso sobra um lucro líquido de US$ 266,7 milhões no ano de 2014.

Outro dado que vale notar é que se a empresa fosse liquidada hoje, o patrimônio restante para os acionista seria de 1,8 bi, o que é considerável e que mostra que o lucro também é bem razoável, basicamente o capital investido tem uma taxa de retorno de mais de 14% o que é excelente.

O resultado é excelente eu investiria na Netflix, mas continuo achando esse número pequeno para uma marca tão famosa e acho que ela tem um potencial muito maior que não foi atingido ainda. Hoje o preço médio de uma assinatura (calculado diretamente do balanço pela conta Nº assinantes total/receita total/12) é 7,26 dólares e o lucro médio por mês sobre cada assinatura é de 35 centavos de dólares.

Ou seja, da sua mensalidade (convertendo com a taxa de R$1=US$3 do final de 2014) a apenas 1 real é lucro da netflix (óbvio que isso é uma conta média, porque, na prática, no brasil, ainda damos prejuízo para a netflix)

O grande trunfo do serviço é que o crescimento do número de assinantes não gera um crescimento proporcional nas despesas, pelo contrário, quanto mais assinantes, maior o lucro e mais a netflix consegue reter de cada assinatura.

A parte especulativo (favor não considerar nada a seguir como definitivo, é apenas uma extrapolação com base nos dados disponíveis)

Algo curioso é que nada no balanço da Netflix aponta para gastos com a produção de séries. Com isso dá para especular o seguinte: a Netflix tem uma empresa segregada que produz as séries próprias.

Essa produtora faz as séries, diz-se que em House of Cards foi investido 100 milhões de dólares, e pode ao mesmo tempo gerar uma receita através da inserção de merchandisings e depois passa a receber na Netflix um valor de direitos autorais.

Veja que aí você tem uma manobra que pode ser extremamente elegante. No ponto que a Netflix está um grupo fechado de investidores podem bancar o estúdio e absorver o prejuízo de ceder o conteúdo gratuitamente – ou quase gratuitamente – para streaming – ou seja, infla o lucro da empresa de capital aberto que transmite e ajuda o crescimento.

Em alguns anos, quando a empresa crescer o lucro de forma astronômica – e tem espaço para isso – o Estúdio pode passar a cobrar de volta todos os direitos autorais e receber um valor acima do mercado e ter todo o seu investimento mais do que devidamente compensado.

Dessa forma, com essa elegância toda, você mantem o mercado contente, você cresce a empresa, você lucra junto com todos os acionistas que compraram papéis da Netflix pela Nasdaq e, na surdina, um pequeno grupo lucra mais que todos.

Veja que eu não estou fazendo nenhum julgamento de valor aqui e veja que tudo que eu disse a partir do alerta acima pode ser um completo absurdo, mas se isso for real de alguma forma, minha avaliação é que as pessoas por trás da Netflix não são apenas visionárias desbravando um mercado novo, são verdadeiros gênios empresariais e são modelos a ser estudados daqui a 5 ou 10 anos.


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