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Que horas ela volta?

Que horas ela volta? foi o filme que tentou representar o Brasil no Oscar esse ano (infelizmente não foi indicado), ou seja é o filme que um grupo de pessoas importantes acreditou ser o melhor filme que o Brasil produziu em 2015.

De fato o filme é bom, o filme é muito bom, mas entendo não chegar ao Oscar, uma vez que muito do sentido dele, muito dos seus pequenos detalhes que o tornam grandioso, são incompreensíveis para alguém de fora do Brasil.

Na história Val é uma empregada que mora na casa de uma família rica e praticamente foi a segunda mãe de Fabinho (aliás The Second Mother é o título internacional do filme) e, ao mesmo tempo que ela preenche o vazio emocional deixado pela mãe de Fabinho, Val também tem um filha longe, no nordeste, que ela nunca vê, só manda dinheiro para uma tia cuidar dela.

Essa dinâmica muda quando Jéssica, a filha de Val, vem para São Paulo prestar vestibular e fica na casa da família onde Val trabalha.

Antes de mais nada, o melhor do filme, sem dúvida alguma, é a interpretação sensacional de Regina Casé. Quem só conhece a atriz dos programas duvidosos que ela apresenta nem tem ideia do que ela é capaz e de como o filme é carregado nas costas dela.

Não é só uma interpretação emocional excelente, é uma atuação física acima do normal, o jeito de andar, de se mexer, tudo remete com muita delicadeza à idade de Val que já é avançada e a uma vida em um trabalho completamente servil.

O choque entre ela e Jéssica é o centro do filme. Jéssica é uma menina inteligente, culta, com uma lógica social que não aceita a vida servil da mãe, não aceita a lógica do quartinho da empregada e a forma não só que tratam a Val, mas também a forma como ela se comporta com as regras de “etiqueta” e limites patrão/empregado já impregnados nos seus atos.

A relação de Val e Fabinho (o filho da família rica), também pontua a história fazendo o paralelo do abandono emocional e da terceirização do afeto que pode acontecer tanto em um família rica quanto em um família pobre.

Apesar dessa questão acabar em segundo plano com o choque cultural da chegada de Jéssica, ela é cerne emotivo do filme. Ela que dá a beleza e o tom de tristeza do filme, uma tristeza que é palpável para quem vê o filme já no primeiro minuto quando Fabinho ainda criança pergunta que horas a mãe volta, mas que não é clara para os personagens que vivem aquilo com normalidade, porque a vida deles é aquela situação onde o filho do patrão tem que procurar o colo da empregada e a filha da empregada procura o colo de uma tia.

Mesmo tendo seus momentos cômicos, não é um filme fácil de ver, é um filme que dói, que passa uma emoção para quem assiste.

Lourenço Mutarelli também está no elenco do filme fazendo o pai rico da família. Mutarelli é um ator com as suas limitações, mas dado um papel em que ele se encaixa bem, ele funciona. Nesse caso, inclusive, mais que funcionar, ele dá um tom bizarro àquele cara excêntrico que é um herdeiro de um milionário, mas que é todo “de boa”, sempre de camiseta, sempre meio “mulambento”, ele não age como rico, a não ser nos momentos em que mostra que foi criado como rico, com todos fazendo tudo para ele. No filme ele não acende uma luz em casa, não tira um copo da mesa, tudo ele pede para Val e, o mais interessante, é que em nenhum momento ele faz isso com maldade alguma, ele pede com naturalidade e ela aceita com naturalidade, é um equilíbrio perfeito entre os dois onde ela é servil sem que a cobrem e ele é patrão sem que se imponha.

Enfim, é um belo filme de Anna Muylaert, pode não ter ido para o Oscar, mas pelo menos nos lembrou que Regina Casé pode tocar de verdade nossos corações.


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