Quem foi Rei nunca perde a Majestade

Romualdo era um homem com um plano. Não saberia dizer quando surgiu a ideia, só que invadiu a cabeça de Romualdo como um animal sorrateiro e cresceu sem parar.

Da mesma forma inflou sua barriga. Nunca fora exatamente gordo, nem particularmente adepto a comer em demasia, mas objetivos devem ser perseguidos com afinco. Comeu sem parar por anos até atingir a forma ideal que encaixasse perfeitamente no seu roteiro.

Era carioca, o que ajudou muito no seu aprendizado. Não gostava particularmente de samba, mas foi atrás. Estava em todas as rodas, batia ponto nas escolas e, de canto em canto, ganhou gingado, ritmo e malícia.

Romualdo era conhecido em todas as quebradas. Era o famoso boa-praça. Amigo dos traficantes, bicheiros, policiais e políticos. Conhecia todos e todos sabiam que Romualdo era um homem com um plano.

Tinha algo diferente no olhar, uma vontade maior que a vida, um espírito que não cabia nem no seu corpo redondo. Quando se encontra um homem assim, mesmo que é malandro sabe que não há alternativa, ou junta-se a ele ou é esmagado no seu caminho.

Um absurdo contado com a dose certa de convicção é indistinguível da realidade.

Um bicheiro ministro dos esportes, um traficante cuidando da segurança, um agiota nas finanças. Parece uma ofensa, mas às vezes um criminoso declarado pode fundar uma utopia, afinal, não há porque desconfiar de quem declara sua verdadeira natureza.

Romualdo ganhou o Brasil, fez contatos além da Bahia de Guanabara e encontrou outros como ele. Figuras que acreditaram no plano, figuras que eram do samba e que, como ele, já foram ou queriam ser o Rei Momo.

Não basta ter um plano, é preciso executá-lo com rigor e paciência. Há um momento certo para tudo. Há um dia no ano que o Rio volta a ser a capital do país e por que não seria justo sonhar que poderia continuar assim?

Finalmente chegou o ano de Romualdo, chegou o carnaval onde seria Rei, um monarca democrático, eleito pelo povo para a causa mais justa, comandar na farra. Um líder de um país que poderia retomar seu lugar no mundo como um Império que realmente tivesse a cara do Brasil.

Como reza a tradição, o prefeito o nomeou Rei Momo e entregou a chave da cidade para Romualdo. A chave é um símbolo, mas o poder dos símbolos é medido pelo quanto se acredita neles e Romualdo era alguém que acreditava mais do que qualquer outra pessoa.

O carnaval correu como esperado, melhor que o esperado na verdade, carnavalescos seriam unânimes por décadas sobre aquele ser o melhor carnaval de todos os tempos, não só no Rio. No país todo.

Os carnavalescos celebraram como se soubessem de algo, como se quisessem dizer que o melhor estava por vir. Era um anúncio discreto de um fato que todos que não eram essenciais naquele momento nem desconfiavam: Romualdo era um homem com um plano, um plano cujas engrenagens apenas começavam a girar.

Na quarta-feira de cinzas, a maior prova da supremacia do carnaval sobre os outros feriados, durante o chorinho de descanso de mais meio período de folga, nenhum carnavalesco parou.

Tudo prosseguia como semanas antes do desfile, tudo ia a todo vapor.

Muitas vezes pensamos no carnavalesco como aquela pessoa que só vive para o carnaval, mas Romualdo sabia que isso era uma ilusão. Sabia que policiais, militares, advogados e todos os tipos de profissionais formavam esse grupo que fora convertido ao plano de Romualdo.

Chegada a hora de terminar a festa, um novo palanque se ergueu e o prefeito foi buscar a chave que ele acreditava ser uma mera formalidade. Uma tradição protocolar. Porque o prefeito, ao contrário de Romualdo, não impunha seu espírito em nada que não se encaixasse no seu egoísmo.

Lá estava Romualdo e seus carnavalescos, assim como outros Momos ao redor do país, diante um prefeito que suava com o calor e esperava a chave para retomar a vida. Os dois se aproximaram e o prefeito pediu a chave para o Rei. Com um chute de uma agilidade que desafiaria as leis da física se aplicadas a um corpo tão rotundo, Romualdo jogou o prefeito no chão e declarou:

—Rei é o caralho. Pra você é Imperador Momo.

momo


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