Ração humana, shakes e outras distopias

Primeiro esse não é um post sobre o Dória, apesar de ele ser o gatilho, o projeto que ele divulgou  como se fosse dele de alimentar os pobres com ração é, na verdade, um projeto do vereador Gilberto Natalini (PV).



Antes de falar sobre isso, então, fui ouvir uma entrevista com o vereador onde ele pôde defender com bastante liberdade esse produto que ele chama de “farinata”. (ouça a entrevista aqui)

Em teoria, o projeto é excelente. Você pega os alimentos que ainda estão saudáveis, mas que iriam para descarte, por estarem perto do vencimento ou por estarem fora de padrão, e os processa na forma de uma farinha com equilíbrio nutricional que pode servir como alimento ou complemento de alimentação.

Então de um lado você tem o aproveitamento de alimento, que é ótimo, e, de outro, você tem um produto que é saudável, equilibrado para as necessidade alimentares, com uma durabilidade de um ano, fácil de transportar, distribuir, pronto para comer, podendo, inclusive, ser saborizado para ficar agradável.

Você pode dar voltar retóricas o quanto quiser, mas isso é exatamente a definição de ração. A única diferença é que o equilíbrio dela é voltado para um ser humano e não para um gato.

Obviamente tem muito estudo, muita pesquisa e muitos nutricionistas que aprovam isso. Tem toda uma tendência da nutrição voltada para o emagrecimento que trata o alimento como um componente químico. É um conceito que não preocupa em alimentar e sim e nutrir.

Se for para seguir uma lógica extrema, bem cartesiana, essa é a grande solução para a humanidade. Você redireciona toda sua agricultura para a produção dos itens mais adequados para a produzir essa ração e alimenta toda a humanidade. Você extingue a fome, a obesidade, uma centena de doenças, o desperdício, os restaurantes, os mercados e demais comércios relacionados e o ser humano fica extremamente mais eficiente. Pode trabalhar mais, ganhar menos (porque a comida vem em forma de uma ração que pode ainda ser servida em um prato, mas, talvez, por questão de eficiência seja melhor alimentar o trabalhador em um cocho).

A lógica é perfeita, igual a de centenas de narrativas distópicas de ficção científica.

Esse projeto tem um simbolismo assustador.

Porque você tem que convir comigo que o Brasil e vários outros países do mundo vivem em crise com pessoas morrendo de fome. Então é quase cruel falar contra um projeto que produz um alimento completo que pode salvar a vida de milhares de pessoas.

Do outro lado, para defender a comida de verdade, está a cultura da gastronomia e o hedonismo do paladar.

Que chance a cultura e o prazer têm contra uma racionalidade tão prática?

Eu não sou uma pessoa que se preocupa demais com o futuro da humanidade. Não quero viver mais do que o meu prazo de validade, mas acho importante que as pessoas discutam um pouco mais do que ataque direto formador de manchete “Dória quer dar ração aos pobres”.

Isso é horrível (ao mesmo tempo que racionalmente é sensato), mas pense nas implicações disso.

Hoje em dia já vemos um batalhão de pessoas sendo seduzidos por aquela marca de shake que substitui uma refeição e ajuda a emagrecer. Aqui em SP, há infinitas portas com o título “espaço vida saudável” que vende a ilusão de que se intoxicar* com um lixo químico processado é melhor e mais barato do que comer de verdade. (* Veja aqui um artigo científico sobre a toxidade dos tais shakes)

Quando a ração humana estiver sendo produzida em larga escala, quanto tempo vai demorar para venderem a ideia de que é uma solução barata e saudável?

Quanto tempo até as sobras não serem o suficiente para fazer ração e começar a dedicar uma parte da agricultura para isso?

Quanto tempo até a comida de verdade se tornar artigo de luxo à preços obscenos e a ração se tornar única alternativa para quem não está entre os seletos 1% que detêm a maior parte da riqueza?

Tudo isso parece absurdo, mas, até um mês atrás não parecia absurdo nos alimentarmos de ração?

Eu gosto muito de comer, admiro muito quem trabalha com isso e acho que o ato de comer comida de verdade é um processo natural do ser humano. Nossa dentição e todo nosso corpo é feito para isso, não para comer ração e tomar shake.

A busca por temperos fez o ocidente se expandir e se encontrar com o oriente. Cada país tem sua cultura, sua língua e seus pratos típicos. Isso nos define como seres humanos diversos e complexos.

A comida é uma arte, mas parecia até pouco tempo que por ter uma função vital ela estava ilesa dos ataques que as demais artes sofrem em tempos de crise onde o prático sobrepõe o existencial.

Já tínhamos o shake, a nutrição funcional e, agora, a ração.

Eu sei, as pessoas estão passando fome e a comida é desperdiçada. Mas esse era o único jeito?

O governo tem dinheiro, isso é sabido, apartamentos cheios de dinheiro.

Mas a corrupção, de novo a corrupção, deixa como única saída o embrutecimento.

Poderia ter mil iniciativas, como uma logística eficaz para absorver a tempo esse desperdício e convertê-lo em comida de verdade para a população carente?

Sim, poderia, mas isso tem um custo, pra isso, tem que roubar menos ou arrecadar mais e nenhum dos lados quer ceder.

Daí você olha bem e pensa: a opção lógica é mudar algo inerente do nosso ser, uma parte desse conjunto poético que a gente chama de alma ou a opção lógica de fato era que o volume imenso de dinheiro que a população entrega para o governo fosse usado de fato para a população viver de forma cada vez mais humana?

 

 

O retrato acima é do George Orwell, veja os livros dele aqui.

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