Sobre assistir Game of Thrones

Antes de mais nada eu tenho que dizer que eu não sou o fã mais ardoroso de Game of Thrones.

A história tem muitos méritos, mas eu acho a narrativa excessivamente complexa. São muitos personagens, divididos em vários núcleos e a história acaba se arrastando demais para construir uma ou outra ideia mais interessante.

Mesmo a estrutura proposta no primeiro livro/primeira temporada de que essa era uma história sem protagonistas onde qualquer personagem, por mais central que pareça, pode morrer a qualquer momento, é uma espécie de armadilha narrativa. Sim, é interessante uma história que sai daquele padrão onde você acompanha um protagonista do começo ao fim, sim é interessante o fato de você nunca saber quando esse ou aquele personagem pode morrer, não importa se ele está no auge da história dele. Mas isso cria outro problema, pois uma história sem protagonista perde um pouco do foco ao dar um foco para todos.

Talvez o conceito em um livro, onde você tem seu tempo para a história, onde a narrativa é pautada pela velocidade que o leitor quiser, esse salto entre histórias, essas visões diferentes, funcionem melhor. Mas na série de televisão, com seu limite de 10 episódios de uma hora, acaba-se com um resultado entrecortado e que pouco se aprofunda em cada história.

Nas últimas temporadas, em que a trama se desdobrou em muitos núcleos relativamente distantes você tinha vários episódios que mostravam por alguns minutos cada história e seguia para outra e, assim, nenhuma delas andava significativamente e deixava a série chata.

Tanto que nessa temporada que se encerrou domingo, os melhores episódios foram o que dedicaram a maior parte do tempo para uma única história, como a origem do Hodor, a Batalha dos Bastardos e a longa (e belíssima) sequência do julgamento da Cersei.

Agora, o que realmente me impressiona em Game of Thrones e a proporção que a série tomou. De tempos em tempos uma série ou eventualmente uma novela se torna um fenômeno que é impossível de ignorar, pessoas que tradicionalmente não acompanham séries – principalmente séries de fantasia – se agremiam em torno da história e começam a discutir teorias e falar sobre os acontecimentos e tudo mais.

Pra quem é fã de quadrinhos é meio normal isso, você tem aquele grupo de amigos que acompanham mais ou menos as mesmas coisas e vocês conversam sobre essas histórias. Game of Thrones tinha tudo para ficar restrita à esses grupos, mas, seja por conta do excesso de sexo das primeiras temporadas, seja por conta da tensão criada no final da primeira temporada com a morte do aparente grande protagonista, GoT se expandiu de forma surpreendente para além dos círculos habituais. (Não podemos descartar um investimento publicitário da HBO, mas o dinheiro alavanca uma série apenas até um ponto, sem engajamento real é difícil ganhar essa envergadura).

Lembro quando Lost se transformou em um fenômeno parecido e até foi a base de vários estudos acadêmicos sobre a forma coletiva do consumo de cultura. Mas perto de GoT o alcance de Lost é quase tímido.

GoT virou uma sensação tão poderosa que passou a se retroalimentar desse consumo coletivo. Pessoas que esperavam para ver a temporada fechada, que deixavam para ver depois passaram não só a ficar em dia com a série, mas a se esforçar ao máximo para ver na exata hora de exibição.

Eu mesmo, que nem estava tão a fim, vi a série no dia que passou meio que por pressão coletiva não só das pessoas próximas, mas porque algo da dimensão de GoT perde o controle. No ano passado, quem deixou para ver no dia seguinte se deparou nos principais sites de notícias (o fato de estar nos principais sites de notícia e não relegado a sites “especializados” já é algo bem diferente) com a foto do personagem que morreu no episódio, perdendo a chance de ser surpreendido.

Nesse ano a tendência era pior ainda. Tudo era possível. Se você não visse a série poderia no dia seguinte acessar a página do Diário Oficial e correr o risco de ter uma matéria com uma surpresa da série ou ouvir o comentário político na rádio e no meio da conversa o radialista começar a falar sobre o final da série.

A cultura da surpresa, o desejo de estar junto com o que todos estão falando, tudo isso tem uma influência grande na dimensão de GoT. Óbvio que é preciso colocar nessa conta o fator de que, hoje em dia, com a internet e o compartilhamento de arquivos pirata as pessoas que até a temporada anterior nem tinha começado a série podiam baixar todos os episódios para chegar junto com os amigos, ou seja, até o último ano a série pode ganhar público que vem chegando e vendo tudo.

Fala-se em mais dois anos para a série, eu sempre acho meio temerário alongar tanto tudo, pra mim já cabia uma apoteose com o final e todo mundo vendo ao vivo tudo já no ano que vem. Mas, os produtores que sabem o que se deve ou se pode fazer, o jeito é torcer para a série não acabar como Lost, que teve um grande momento fenomenal coletivo e depois se fechou em um final tão odiado por todos que a série caiu no esquecimento.

Sobre o consumo de cultura coletivo, recomendo ler Cultura da Convergência

E pra quem gosta da série, é legal ler os livros que têm uma abordagem diferente. É possível comprar todos na Amazon, na Cultura ou na Saraiva.

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