Sobre pirataria e Os morcegos-Cérebro de Vênus

Começou uma discussão esse dias no twitter sobre pirataria no âmbito do consumo da cultura e eu fiz esse comentário que foi retuitado várias vezes:

 


Eu já devo ter falado mais de uma vez que consumo pirataria, séries, livros, filmes, quadrinhos. Ao mesmo tempo eu compro muito livro, assino netflix, spotify, dou muito livro e HQ para que isso circule ao máximo.

Uma coisa não anula a outra.

Sei que não posso reclamar quando o FBI fecha meu site preferido para baixar torrents.

Nos últimos anos eu vi a suposta ascensão da cultura do grátis, a bandeira da cultura livre, do compartilhamento da informação, da arte e tudo mais.

Vivemos em uma país embrutecedor, em que as pessoas não são estimuladas a ler, a ver filmes ou mesmo acompanhar uma narrativa que seja um pouco mais sofisticada que uma novela.

Quem lê quer que todo mundo que ele conhece leia. Quer ver o mercado crescendo, quer ver a formação de público e, nesse anseio, às vezes a gente atropela as coisas.

Óbvio, que a pirataria teve um papel cultural muito importante nos últimos anos, a implementação da cultura mais generalizada de assistir séries, o que ajudou a penetração da Netflix no Brasil, passou pelo pirataria e pelo compartilhamento em massa de séries que, de outra forma não seriam acessíveis.

O caminho da publicação de HQs gratuitamente abriu a oportunidade para vários autores formarem um corpo de fãs e formarem seu público e imprimirem essas HQs para quem queria ter em casa.

Mas, muitas vezes, a gente esquece que, como em todas as outras profissões, a profissionalização da cultura passa por uma relação financeira.

Tem uma diferença crítica aqui que é preciso ser entendida:

O autor profissional tem o direito de transformar suas ideias em um patrimônio rentável. E você não tem o direito de ter acesso livre ao trabalho dele. Você pode ter a liberdade por vários motivos, mas não o direito legal.

E esse é um ponto extremamente complexo.

Eu acho muito nobre que um autor encontre um modo de viver distribuindo gratuitamente sua criação de uma forma ou outra. Mesmo que ele não esteja vivendo diretamente daquilo, mesmo que aquilo seja apenas um braço de um sistema complexo de subsistência, é nobre deixar tudo disponível para quem quiser.

Contudo, isso não dá o direito de exigir que os outros façam o mesmo.

Eu recebi da Editora Mino o livro Os Morcegos-Cérebro de Vênus e outras histórias.

É uma coletânea maravilhosa de quadrinhos da era de Ouro do gênero na sua versão industrial. As pedras fundamentais dessa mídia. Criações de 80 a 60 anos atrás que estão sob domínio público e o que permite que qualquer editora pode faça esse trabalho arqueológico, essa curadoria editorial e transforme esse conteúdo público em um livro extremamente útil para pesquisa e apreciação.

Um livro como esse da Mino é extremamente importante. É maravilhoso poder ter esse material nas mãos e entender de onde vieram todos esses quadrinhos que temos.

A Veneta fez um trabalho semelhante no livro Imageria, mas Os Morcegos-Cérebro é algo bem mais contemporâneo o que levanta o ponto onde eu quero chegar.

Várias dessas histórias do livro não possuem crédito de roteiro, porque o nome do autor simplesmente se perdeu na trajetória editorial dessas obras.

Outros tantos que têm seu devido crédito, alguns estão vivos, outros morreram a pouco e esse autores viveram uma era tão sombria quanto a nossa para artista.

Esses criadores, na época, criavam por demanda, o chamado work for hire, e não tinham direito sobre o que criavam.

Tudo o que eles fizeram não era deles e eles recebiam um valor muitas vezes miserável para fazer o trabalho.

Anos depois, quando alguns desses trabalhos viraram máquinas multibilionárias de fazer dinheiro, os verdadeiros heróis na fronteira dessa criação estavam sem nada e tiveram que batalhar na justiça, muitas ações, inclusive envolvendo autores desse livro da Mino em relação a outras histórias, ainda estão duelando por migalhas que empresas como Disney e Warner se recusam a ceder.

A lei mudou, mas muita coisa que, pela lei atual não estaria em domínio público, como essas histórias, estão aí, disponíveis, porque as editoras faliram e porque essas ideias não eram lucrativas o suficiente para valer uma batalha no tribunal.

Agora, pensemos: é justo que as gerações seguintes não tenham acesso a esse material? Quanto perdemos culturalmente se não temos livros como esse da Mino?

Ao mesmo tempo: é justo que a pessoa crie algo tão lindo, envolvente e que seja base de muito do que veio a seguir e não possa ter isso como patrimônio?

Não estou nem falando de algo para sempre, só o suficiente para sustentar o autor na velhice, porque uma hora a mão já não pode mais trabalhar, só o suficiente para deixar algo para os filhos poderem começar a vida.

Não seria justo se esses autores, pudessem receber algo por esse trabalho?

O ponto que eu quero chegar é que eu acho sim que a cultura tem que estar amplamente disponível. Eu acho que todos deveriam ter acesso a esse livro que a Mino fez, por exemplo, mas não acho que, nem nesse caso que a história está em domínio público, pode-se desprezar o trabalho, por exemplo, do tradutor e do editor dessas histórias.

Quando eu falo que a cultura tem que estar livre quero dizer que as bibliotecas deveriam comprar e ter esse livro e as pessoas deveriam ir até a biblioteca para lê-lo. Eu quero dizer que quem compra deve emprestar, deve dar depois que ler se não for colecionador.

Quero dizer que tem muitas formas de comprar o livro, tem promoção toda hora, tem sebo e tem infinitas bobagens que a gente poderia deixar de comprar se quisesse mesmo pagar pelo livro.

Porque, se a gente não pagar pelo que os autores que gostamos produzem, porque a história dessa geração de Ouro não pode se repetir. Ninguém vive de likes. E se a pessoa não pode viver do cria, ela é obrigada a parar de criar e nada é mais triste do que ver alguém realmente bom tendo que abandonar esse caminho.

Acho que o ponto que eu quero chegar é o mesmo que eu parti. Quer piratear, acha que essa é única forma de ler aquela HQ ou ver aquela série. De boa, manda a ver.

Mas não faça campanha, não tente argumentar ou debater que a pirataria é válida, justa ou boa para a causa do autor, porque cada autor sabe qual é sua causa pessoal.

Para alguns o que importa é que sua mensagem chegue ao máximo de pessoas possível. Para outros o que importa é que aquilo pague as contas e ambas as coisas são válidas.

Outra coisa, os sites que mantém a pirataria rolando, na sua grande maioria, não são grandes heróis, eles usam isso como fonte de renda, seja por anúncios ou até por pedidos de doação.

Se você pensar bem, não é muito diferente do caso que vimos no filme $aving Banksy (leia sobre o filme aqui) onde um comerciante podre de rico, cortava graffittes gratuitos da parede e vendia para ficar mais rico ainda.

Compre o livro Os Morcegos-Cérebro de Vênus aqui na Amazon

Compre o livro Os Morcegos-Cérebro de Vênus aqui na Saraiva

Compre o livro Imageria aqui na Amazon

Compre o livro Imageria aqui na Saraiva

Veja uma versão em vídeo desse texto aqui