Sopa de Salsicha

[Essa resenha tem uma versão em vídeo aqui https://youtu.be/sQiTluQU2QE]

Sopa de Salsicha é uma HQ do Eduardo Medeiros, sobre a vida dele e da esposa, a “baixinha”, que é publicada na internet e virou um álbum inédito pela Quadrinhos na Cia.

Tem várias coisas a se analisar sobre o álbum, mas acho que vale começar por uma questão editorial.

Quando a Quadrinhos na Cia. surgiu, havia um hype imenso em torno do que uma das editoras mais importantes do Brasil escolheria para publicar no seu novo selo dedicado à 9ª arte. Ser um autor da Cia. era ser colocado sob um holofote e ter que responder várias entrevistas sobre a produção do álbum. Com isso, quando a HQ em si era publicada, a primeira batalha era estar a altura da imagem que a máquina da editora projetou dela. Quanto se falou, por exemplo, sobre Furry Water do Rafael Grampá que nunca viu a luz do dia.

Além disso, a produção de uma HQ, livro ou filme é um processo orgânico que muda muito.

Se você pegar as entrevista iniciais sobre Sopa de Salsicha, descobrirá que o autor pretendia fazer uma HQ um pouco diferente, algo que tinha mais interação com o trabalho dos amigos dele, Rafael Albuquerque e Mateus Santolouco, se aproximando da excelente Mondo Urbano que foi publicada pela Devir em 2010.

Mas a história literalmente tomou outro rumo. A HQ, que já seria autobiográfica, guinou para o metalinguagem e o resultado é essa pequena joia autorreferente falando sobre a vida do autor durante a produção da HQ.

A HQ continuou tendo participações especiais, várias inclusive, de muitos artistas bacanas, mas, em vez de transformar a HQ em algo colaborativo, elas agregaram no conjunto de elementos que reforçam a estrutura da realidade autobiográfica na história.

O autor se mostra como uma pessoa passando por uma fase bem solitária (excetuando a convivência com a esposa) e essa solidão fica muito mais evidente quando pipoca um quadro feito por um amigo, esse contraste do desenho de outro dentro das páginas do autor reforça essa fase de isolamento, principalmente considerando o tom das participações.

Sempre que pensamos em uma história autobiográfica, parece haver a necessidade do autor ter uma vida fantástica, algo que pareça quase uma ficção, porque ninguém quer ver a história de um cara que fica em casa o dia inteiro desenhando, não é?

Então, se a vida de Eduardo Medeiros não é particularmente emociante, se ele não é um quadrinhista com um histórico de sucesso retumbante e status de estrela (como ele gentilmente retrata os amigos/colegas de profissão), Sopa Salsicha deve ser uma HQ sem graça, não?

Aí entra uma questão que, ao meu ver, é a chave de qualquer narrativa, que é a sinceridade.

Quando o autor segue pela ficção é mais “fácil” ele impor sua sinceridade distribuída pelos personagens da história; o autor se expõe menos quando coloca em um personagem uma verdade pessoal que ele pode alegar ser fruto de uma poderosa imaginação.

Agora, é preciso de muita coragem e desprendimento para ser sincero em uma HQ autobiográfica onde a história não é o destaque, porque a única coisa que sobra é uma honestidade brutal.

Pra mim, aí reside toda a qualidade e o valor de Sopa de Salsicha, a HQ não é emocionante, não é engraçada, não é triste, mas ela transmite muita honestidade. Eduardo conseguiu narrar esse momento da sua vida com um distanciamento crítico muito interessante. Enquanto narrador da própria história, ele foi capaz relatar sem julgar as ações e as fragilidades dos personagens Eduardo Medeiros e Baixinha.

Tem uma força ali, uma qualidade que me fez ler sem parar essa HQ em uma noite fria, em uma hora que tudo que eu queria era estar dormindo, mas não era possível até ver toda a história de Medeiros. Depois ainda fui no site dele (http://sopadesalsicha.com) para mais.

Nem preciso falar que eu gosto do desenho do Medeiros, raramente eu leio quadrinhos que o desenho me desagrada. Ele tem um traço cartunesco, com um trabalho de cor bem simplificado que funciona muito. Ao longo dos anos ele desenvolveu bem a fórmula para se autorepresentar. A HQ está no auge da eficiência desse traço.

Enfim, não espere ação, aventura ou humor hilariante, mas leia Sopa de Salsicha, pois esse nível de honestidade é difícil de achar em uma HQ. Ah, se falta mais um incentivo, um dos principais coadjuvantes é o Michael Bolton.

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