Suicídio e ficção (13 Reasons/Baleia Azul/Etc)

[Esse texto possui uma versão em vídeo aqui https://youtu.be/SATpeC9X5r0]

 

Quando eu fiz a resenha de 13 reasons (leia aqui) eu senti que tinha mais algumas coisas para falar que eram decorrentes da série. Juntou-se com isso a história da Baleia Azul, que até demorou para se revelar uma mentira, ou pós-verdade e, depois, recebi uma mensagem  compartilhada em um grupo de whatsup que dizia:

“Pessoal estejam espertos sobre o que as crianças assistem na TV… saiu um desenho animado para crianças incentivando ao suicídio, será lançado nos cinemas, como aqui temos pais e líderes comprometidos que amam e zelam pela vida de nossas crianças, tenho que alertar.
Por ser um desenho os pais podem achar que não é nada e pode ser que não dê muita importância,
Mas temos que ficar espertos o inimigo tem invadido muitos lares e induzido nossas crianças. Alertem os pais!”

Junto com isso, vinha um trecho totalmente fora de contexto de A pequena Loja de Suicídios (fiz uma resenha sobre o filme aqui para caso alguém se dar ao trabalho de pesquisar parar de espalhar bobagem).

Note que nessa mensagem, tem uma sequência infinita de erros e ignorância, só para se ater ao factual, o filme é de 2012 e ele faz justamente o contrário, é um filme que incentiva o fim de uma onda de suicídios. (Nem vou comentar outra que eu recebi depois sobre a Baleia Azul com um grupo espalhando HIV porque, né? Haja falta de senso.)

Esse tipo de distorção, a forma como tem se espalhado não só como mensagens bobas, mas também na forma de textos, vídeos e debates de maior ou menor profundidade como no curioso caso da Baleia Azul.

Vejamos como tudo isso se interliga, a Netflix lançou a série 13 Reasons e ordas de especialistas foram chamados para debater se o suicídio deve ou não estar em pauta na ficção daquela forma. Isso colocou o tema em alta e tudo relacionado passou a ser pauta e, com o fortalecimento das redes sociais, o enfraquecimento do jornalismo sério e a busca por opiniões imediatas sem haver tempo para um embasamento real, abriu-se uma via expressa para histórias como um jogo que força o jovem para o suicídio se tornar, por um breve período, verdade. (É curioso que a história da Baleia Azul deveria ter tido mais tração na época do filme Nerve, por se assemelhar mais a ele, mas, aparentemente, o filme foi bem menos relevante que 13 Reasons)

No fundo disso, a única verdade é que estava represado o debate sobre o suicídio, principalmente o suicídio entre jovens que tem crescido nos últimos anos.

Quando um dado cresce a tendência é se chamar especialistas para parametrizar e, preferencialmente, para encontrar um vilão.

A questão é que o suicídio, a depressão, ou mesmo o bullying – muitas vezes apontado como vilão dentro do ambiente escolar – é algo que não há como se parametrizar.

No direito penal diz-se que algo só é crime se ele for tipificado, isso é, se for criada uma definição para ele.

Agora, é possível tipificar o bullying?

Particularmente eu acho que não, porque se trata de algo extremamente subjetivo. Não é possível alguém dizer isso é ou isso não é bullying porque quem traça essa linha é a vítima e cada vítima determinará esse limiar em um ponto diferente.

O que é uma ofensa para você pode não ser para mim e vice-versa.

O bullying é determinado por onde o calo dói e é impossível saber o que vai tocar quem dentro de todas as estruturas emocionais que uma pessoa desenvolve no decorrer da vida.

Por esse ponto podemos expandir para 13 reasons. Como eu falei na resenha da série, ao meu ver o erro está na opção perto do final de dar uma “razão” pesada para a personagem se matar. Naquele ponto a série vira outra coisa, você tem um vilão claro e abre um debate a parte que acaba dispersando o problema muito mais complexo que é a sensação de abandono e de insignificância diante do mundo.

Se fosse apontar em termos de beleza narrativa e em termos do que nos preocupar, eu preferiria que ela tivesse se matado por conta das 9 primeiras razões, que pareciam bem bobas para quem está de fora, mas que não eram bobas para ela e, nesse caso, quem define o que é ou não uma razão é a pessoa que sofre.

Quando se chega nesse ponto, é complicado falar em suicídio porque eu não acho que se deve condenar a pessoa que optou por isso, não se deve seguir a condenação religiosa, não é possível impor da sua crença sobre o tema e, muitas vezes, não é possível “resolver” todos os problemas que, na concepção da pessoa, a levaram àquilo.

Eu sou a favor de se discutir a eutanásia ou suicídio assistido para casos em que a pessoa enxerga que a dor física ou a inabilidade viver razoavelmente tenha sido obliterada por uma doença ou um acidente grave. Ah, pode ser que no futuro tenha um tratamento, pode ser que a pessoa seja capaz de viver anos naquela condição preso no próprio corpo. Pode ser, mas novamente entra-se em uma discussão filosófica que só importa a pessoa em si, o que ela considera que é estar vivo e eu acho que a pessoa pode tomar a decisão consciente da eutanásia.

O grande problema é que essa discussão é muito cíclica, pois você pode voltar minha opinião do sofrimento físico com uma opinião sobre o sofrimento psicológico e, novamente, quem poderia medir a extensão da dor psicológica? Ela pode ser maior que a física? Talvez, só a própria pessoa pode julgar.

No fim, eu acho que é importante debater o assunto claramente, como a série 13 Reasons faz, que chega até o ponto da cena do suicídio em si, que eu não quis assistir, mas que considero que é importante estar lá até para mostrar que há uma dor que a pessoa passa quando segue por esse caminho, que ela teve que pesar e decidiu que aquela dor é pior do que o dia-a-dia. Essa cena, difícil de assistir, é o ponto da série que quebra o argumento de algumas pessoas de que ela glamurizaria o suicídio.

É importante que haja discussões sobre o tema que saiam do valor mitológico da vida criado pelas religiões, porque, sinceramente, sem desprezar o poder da fé e da religião, ela não pode ser a única coisa que nos mantém vivos, ela não pode ser a única trava de segurança, porque se ela falhar, se a fé se esgotar e só ela estava segurando, já era.

A crença pode ser um elemento sim, mas tem que ser aliado a uma estrutura social onde as pessoas devem aprender a olhar mais para as outras, próximas ou não, e uma estrutura psicológica interna que muitas vezes precisa ser reforçada por terapia ou mesmo por debates filosóficos.

(Como sugestão para um debate filosófico, deixo o livro Felicidade, do Eduardo Gianetti, que retrata um grupo de estudos imaginário debatendo a Felicidade, que é ao intrinsecamente ligado a vontade de viver. Não é uma leitura leve, mas também não é um estudo filosófico que exige tanto preparo, até porque tem várias notas explicativas e caminhos a seguir a partir dali, pode-se dizer que é um Mundo de Sofia para adultos)

Para fechar, tem uma frase de Ian MacLaren, publicada na British Weekly em 1898, às vezes atribuída a Platão, (sempre duvido dessas atribuições… mas a frase é o que mais importa no caso):

Seja piedoso, cada pessoa está enfrentando uma batalha difícil

Veja a versão em vídeo aqui

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