Supernatural

Gosto muito do termo “prazeres culpados”, ele ajuda a explicar muitas coisas que a gente consome mas que tecnicamente não são boas.

Supernatural está nessa categoria. É uma série de 22/23 episódios por temporada, que já completou 11 temporadas e continua sendo renovada. Ela tem de tudo para não valer o tempo perdido, mas é divertida e cativante e você continua vendo a interminável alternância entre o “monstro da semana” e a “mitologia” da série só porque se viciou nela.

Aliás já que falei sobre isso, é uma boa oportunidade para delinear esses dois conceitos em séries. Muitas das séries americanas seguem esse padrão de temporada longa com 24 episódios que se espalham por 6 meses.

Essas séries para serem sustentáveis, principalmente com episódios de 45 minutos, têm que ter uma estrutura narrativa meio modular. A série policial tem o “caso da semana” e séries como Supernatural os protagonistas enfrentam o “monstro da semana”.

Pra quem não conhece a série, Supernatural é sobre dois irmãos que seguiram a “profissão” do pai e se tornaram caçadores de monstros, lendas, fantasmas, demônios, bruxas e tudo mais que é fora do normal. Sam e Dean Winchester seguem pelos EUA no seu Impala 67 vivendo a base de cartões de crédito falsos e distintivos igualmente fajutos do FBI para resolver os problemas que ninguém nem imagina que existem.

Essa narrativa do caso da semana é algo que sempre existiu nas séries, contudo, a narrativa atual americana é pautada pela cronologia, ou seja, a história dos personagens tem uma “mitologia” própria. No caso dos irmãos Winchester eles sempre estão combatendo um mal impossível de vencer que escalona a cada temporada, além das consequências pessoais dessas lutas.

Ou seja, Supernatural é um excelente modelo do que é uma narrativa tradicional, quadradinha, careta, nada pode ser mais batido e clichê do que Supernatural.

Fora que em onze anos de série Jared Padalecki não aprendeu a atuar decentemente, chega a ser vergonhoso o quanto ele é um ator limitado até para um papel como o Sam que ele manteve desde o final da adolescência.

Mas então, porque continuar assistindo a série?

Ela é o verdadeiro prazer culpado, é ruim mas é bom. Não acrescenta nada, mas entretêm.

Quando eu comecei a ver Supernatural comecei porque a premissa era bem legal, dois irmãos em um carro clássico pelo interior dos EUA caçando lendas urbanas. E, mesmo depois de tanto tempo, mesmo depois de 243 episódios, é sempre divertido quando o Sam ou o Dean falam: enquanto a gente não consegue resolver ____ (preencha aqui com o evento da temporada) vamos trabalhar um caso. A estrutura da série funciona, o monstro da semana funciona e, ao seu modo, a mitologia funciona.

No começo da série eles estavam caçando o demônio que matou a mãe deles, depois foram atrás do Lucifer, dos cavaleiros do apocalipse, enfrentaram Lilith e se enrolaram tanto que uma hora o próprio deus teve que atuar para ajudá-los.

Fora que a série é bem humorada com si mesma. Tem episódios hilários, episódios temáticos, uma metalinguística interna muito louca.

Óbvio, não vou tentar convencer aqui que você tem que ver uma série tão longa. Mas, se quiser uma coisa para não pensar, uma historinha de ação boa para ir assistindo de vez em quando sem urgência. Supernatural é um exemplo tão bom quanto vários outros.

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