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A tradutora e uma breve análise sobre o narrador na obra do Tezza

Eu sou um grande fã de Cristóvão Tezza e gosto bastante, em especial, do Erro Emocional, o livro que em que ele apresenta o romance entre o escritor Donetti e Beatriz.

A personagem se tornou recorrente na obra dele e formou uma trilogia com A tradutora, livro que ela protagoniza e narra.

Nesse livro, Beatriz está repensando sua relação com Donetti, enquanto consolida sua carreira como tradutora, traduzindo um livro do filósofo fictício conservador Felip Xaveste, e quando é convidada para trabalhar como intérprete/guia turístico para um funcionário da FIFA que vai vistoriar as obras da arena de Curitiba.

Como eu disse, eu sou fã do Tezza, gostei muito de ler o Espírito da Prosa que ele escreveu falando um pouco sobre a teoria dele para escrever um livro e seus anos como professor de linguística e do teórico Mikhail Bakhtin, dando uma ideia de que seus livros são uma aplicação prática dessa teoria.

E gosto, particularmente, da “voz” literária que ele tem. Ele tem uma habilidade narrativa bem construída para criar um distanciamento tal que, mesmo quando faz um livro autobiográfico, como o Filho Eterno, ele é capaz de dividir o eu real do eu narrador.

Acho admirável a franqueza com a qual ele se expõe e trabalha.

Agora vamos para A Tradutora. Apesar de gostar de escrever resenhas eu não sou um leitor ávido de críticas, mas, quando eu terminei de ler esse livro eu quis muito ler uma resenha porque senti uma dúvida grande sobre ele.

Vasculhei a internet e me decepcionei muito ao descobrir que as poucas “resenhas” eram, na verdade, uma sinopse do livro, um desses “resenhistas” até deixou marcado que o livro foi cortesia da editora, o que talvez explique; a pessoa ganha, não lê ou não gosta, tem vergonha de falar mal e bate uma sinopse que não diz nada e garante que os livros continuem chegando.

No meu caso, comprei e li porque gosto do autor, mas, minha dúvida que não sei se conseguirei esclarecer um dia, mas posso deixar lançada é: A tradutora é um livro machista?

Eu não sei responder essa pergunta e acho que nem seria correto tentar, pois o ideal seria uma análise feminina.

Se você me perguntar: me dá um exemplo de machismo no livro?

Não vou saber porque não é uma coisa pontual, é uma coisa conceitual.

Para entender esse problema, primeiro, você precisa ter lido ao menos o Erro Emocional, mas o ideal seria que fosse alguém que leu mais livros do autor.

Porque o meu incômodo veio do contraste entre os narradores das obras.

Nos livros narrados por homens, apesar dos narradores serem cruéis consigo mesmos, de se mostrarem “imparciais” na hora de se apresentar como canalhas ou na hora de deixar claro seus erros, temos narradores fortes, convictos, frios, independentes.

Beatriz como narradora tem um fluxo de pensamento errático, inseguro, dependente. Apesar de mostrar ela como uma mulher buscando a independência, de mostrá-la como alguém extremamente consciente (como os narradores masculinos do Tezza) do seu processo de amadurecimento, no subtexto da construção do discurso dela, temos uma visão pouco favorável da mente feminina.

O livro é cheio de diálogos mentais com a amiga Bernardete, como se Beatriz fosse incapaz de firmar seus pensamentos sem pô-los a prova, mesmo que esse teste seja em um diálogo imaginário.

Você pode dizer que exitem mulheres assim, que foi uma escolha do autor caracterizar essa voz com essa insegurança.

Não tem problema construir um personagem dessa forma, construir uma mulher errática.

O problema, pra mim, é o contraste. O narrador masculino do Tezza por mais que tenha falhas, por mais que tenha incertezas e inseguranças expostas, não tem esse pensamento errático como o de Beatriz.

Acho interessante o livro como construção dentro da obra do Tezza, achei muito boa a opção de enxertar a filosofia fictícia do Xaveste no meio das narrativas nos momentos que Beatriz traduzia o livro e quando ela tomava para ela aquelas ideias.

A discussão política, discussão sobre a Copa, sobre a FIFA, apesar de deixar o livro um pouco datado não é nenhum problema pois foi abordado de uma forma tangente que mantém a validade do livro enquanto as pessoas lembrarem como foi tortuoso o processo da Copa no Brasil e quem é Dilma Russef.

Tecnicamente não é um livro ruim. Não é um livro chato de ler, mas, no geral, achei um livro fora da curva, o primeiro que eu não gostei do autor. Nada que me faça parar de lê-lo, nada que me impeça de continuar recomendando livros como O Filho Eterno, Erro Emocional, Espírito da Prosa, até mesmo o Professor que eu já tinha achado um pouco menos intenso, mas que é um livro muito bem escrito.

Abaixo, algumas citações que chamaram minha atenção no livro.

“Preciso trabalhar, mas ele não quer que eu trabalhe; preciso de liberdade, mas ele não me quer ver livre; preciso de dinheiro, e ele finge desprezá-lo; preciso de clareza, e ele gosta de turbar o mundo; gosto de luz, e ele ama o escuro — eu respiro, ele conspira, como disse o poeta”

“Ninguém vive em perspectiva, olhando para trás e para frente ao mesmo tempo: o presente é a única realidade.”

“vigiar e punir é ação do filósofo, não de sua vítima intelectual”

“Sem o abismo da dúvida, que graça tem Deus?”

“A liberdade: a gente sente quando ela falta, não de fora para dentro, mas de dentro para fora – isto é, eu mesmo me escravizo. ”

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Versão em vídeo da resenha com aquarela monocromática aqui

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