Twin Peaks – Há 25 anos mudando a história da TV

[Atenção, tem alguns spoliers no caminho]

A Netflix liberou hoje os dois últimos episódios de Twin Peaks.

Acompanhei a série com muito interesse ao longo dos meses e adorei essa reimersão no universo de algo tão relevante para a história da TV como Twin Peaks.

As vezes a gente olha algumas séries se pergunta por que elas pareciam ter tanto potencial mas acabavam seguindo pelo caminho óbvio, pelo caminho para adular a audiência e, no geral, a resposta para essa pergunta é o alto-escalão dos canais de TV, as pessoas que colocam o dinheiro e querem um produto compreensível e atrativo para o nível de mentalidade que eles acreditam que as massas possuem.

Isso já acontecia quando Twin Peaks surgiu 25 anos atrás. As séries tinham capítulos avulsos, histórias rasas, era possível acompanhá-las enquanto se fazia outras coisas, era possível perder 10 capítulos e voltar depois. As tramas eram contidas, simples e didáticas.

Então veio David Linch e apresentou ao público uma história contínua, complexa, que demandava uma imersão, que instigava um debate. Mas, na época, vimos um Linch contido, que tinha que lidar com os produtores, que tinha que atender os anseios por respostas. Quem afinal matou Laura Palmer? Essa era a questão que as pessoas com o dinheiro queriam ver respondida, porque não entendiam que essa era a questão que menos importava em uma história tão rica.

Daí, depois de muita negociação, veio essa nova temporada que, ao que tudo indica, foi feita sem travas, o que permitiu o episódio 8 com uma colagem áudio visual insana ou mesmo o final dessa temporada que basicamente não trouxe resposta alguma, só mais perguntas.

De cara a série cria expectativa ao quebrar todas as expectativas. As escolas de roteiro redondo ensinam que uma história deve seguir a regra da A Arma de Chekhov onde sempre que se coloca uma arma em cena ela precisa ser disparada. Então, como público, aprendemos que, se ficarmos atentos aos detalhes, poderemos adivinhar o final da história e isso virou parte da diversão.

Twin Peaks ofereceu isso e muito mais. Ao quebrar as regras de formatação de roteiro, a série foi capaz de lançar inúmeros personagens e tramas que não possuem ligação direta com a história, criar crônicas e perguntas tangentes que permitia às pessoas a desenvolver as mais loucas teorias e debatê-las com profundidade baseando-se no que viram na série, no que leram no livro A História Secreta de Twin Peaks, cruzando com entrevistas com Linch e por aí vai.

Além disso foi construída uma cadência narrativa na história do agente Cooper, que tem um pico no episódio 16, uma semana antes do final, quando ele volta e fala “Eu sou o FBI”, deixado todos os fãs ouriçados e ansiosos para o final, deixando todos afoitos por respostas, mesmo com todos cientes de que Linch não é desses que batem o martelo e fecham a discussão.

A grande questão de Twin Peaks é essa, a série é um ponto de partida, ela se permite deixar dezenas de pontas soltas, permite levantar infinitas questões que o público tem que responder. Twin Peaks é uma série diferente na cabeça de cada espectador, porque, no fim, ele quem dá sentido à história.

Além desse ponto tem toda a questão da direção em si, as cenas propositalmente lentas e aparentemente inúteis, a ideia de colocar uma banda tocando uma música inteira em cada episódio. Tudo faz parte de uma estética muito específica do diretor que vai ser estudada e que vai influenciar muita gente mais uma vez.

Outro ponto interessante é que a série foi feita para o canal Showtime em parceria com a Netflix que liberava os episódios imediatamente depois. Foi dito que a audiência da série foi baixíssima, mas, já está na hora de se repensar o conceito de audiência como algo mais fluído.

As séries deixaram de ser algo que morre imediatamente depois da exibição. Elas funcionam mais como um livro, que fica na livraria por anos ganhando público.

Eu mesmo assisti Twin Peaks mais de uma década depois da sua exibição, porque as pessoas continuavam falando da série e vão continuar falando. Óbvio, tem um pico quando todo mundo está imerso nesse consumo coletivo de teorias malucas, mas quando a série é boa, o aquisição de público é prolongada, a série deixa de ser só assistida, passa a ser estudada, passa a servir de referência para várias outras coisas que serão sucesso e remeterão de novo para Twin Peaks.

Sempre vai ter quem não goste do final da série, mas, acredito que essa temporada foi honesta do começo ao fim, eu nunca sabia o que esperar da série, acordava cedo para ver empolgado com algo novo e isso foi demais.

 

Vídeo dessa resenha