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Uma geração de babacas? – leia antes de acusar

“não há maior mérito em obter sucesso do que em adquirir um câncer”

Martin Page em A gente se acostuma com o fim do mundo

 

Vocês devem ter visto a notícia, ou pelo menos a repercussão, de um grupo de alunos de um terceiro colegial que fez uma festa do “se nada mais der certo” onde foram fantasiados das profissões que seriam opções caso “desse tudo errado na vida”. A garotada se vestiu de gari, vendedor, atendente de telemarketing, chapeiro de fast-food e por aí vai.

É muito fácil atacar essa atitude babaca desses moleques. É muito fácil dizer que eles são todos idiotas e que todas as profissões são honradas e que eles deveriam se envergonhar de serem um grupo de privilegiados babacas.

Apesar de eu concordar com tudo isso, questionar infinitamente essa coisa de “dar certo”, de ter uma profissão meio “nada mais deu certo” e gostar dela até certo ponto porque ela paga as contas, por mais que não seja um trabalho “glamoroso” e “importante”, eu tenho uma opinião um pouco divergente sobre esses jovens e acho que a gente deveria pensar um pouco antes do apedrejamento.

Vamos lá, eu tenho pensado muito nisso, estou exatamente no meio dos meus trinta anos, então, sou pouca coisa mais novo que os pais dessa galera.

A minha geração, a geração dos pais dessa galera viveu uma era de euforia (tanto que estamos há vários anos em um celebração eterna aos anos 80).

Nossos pais pegaram a redemocratização, o começo da estabilidade econômica, a melhora na economia global, a globalização, a era da tecnologia, da ascensão das esquerdas, enfim, um rumo a utopia.

A geração dos nossos pais foi a primeira a ver a faculdade como algo ao menos possível e a minha já via a faculdade como algo “obrigatório” na estrutura da vida.

Óbvio que muitas pessoas vivem em famílias privilegiadas desde sempre, mas houve o aumento de filhos de pessoas com trabalhos mais pesados e menos remunerados que, com muito esforço, se tornaram médicos, engenheiros e advogados bem-sucedidos. Que enriqueceram e puderam dar aos seus filhos, essa geração aí que estamos chamando de babacas uma vida de muitos privilégios e, principalmente, expectativas.

Por mais que alguns desses pais possam ser pessoas bem decentes, que tentaram ensinar que toda profissão é honesta e válida, por outro lado existe a mensagem implícita ou explícita de “estou pagando um colégio particular para você fazer uma boa faculdade e ser rico”.

Todo pai quer o melhor para o filho e, seja ele já alguém em uma profissão que “paga bem” ou não (já que pagar bem é a medida do sucesso na nossa sociedade), ele quer que o filho tenha uma vida melhor e, por vida melhor, o nosso mundo moderno entende algo que se trabalhe mais com a mente do que com a força e que remunere bem esse esforço mental.

Então subimos um degrau na escada. Não são os filhos que são babacas, são os pais, certo?

Sim e não, talvez estejamos correndo tanto para chamar alguém de babaca porque lá no fundo muitos de nós temos esse conceito encrustado de “dar certo” e, talvez, muitos tenham chegado a grande descoberta que esses garotos descobrirão daqui dez anos que, às vezes, a profissão boa, não é suave, não paga bem e talvez seja menos digna que a de um pedreiro.

Eduardo Cunha estava “dando certo” na vida, advogado formado, entendido de leis, famoso, rico, podre, podre de rico, mas a profissão dele é digna? Quantos iguais a ele a lei não alcançou? Quantas pessoas que deram certo fazendo o errado?

E isso é um extremo do espectro, mas, ainda assim, muitos pais prefeririam que o filho seguisse o caminho de Cunha do que o de um vendedor de loja, por exemplo.

Subimos mais um degrau, porque a culpa é dos pais, mas não só deles, a culpa é da sociedade.

Nosso coletivo diz todo dia: o sucesso é medido pelo dinheiro acumulado; você pode ser o que quiser, é só se esforçar; não se acomode, lute todos os dias por algo melhor (= algo que pague mais).

Se você gosta do seu emprego, você está acomodado. Se você é um excelente pintor de paredes que sustenta sua família com seu trabalho bem feito, você é um acomodado por não estar estudando para ser o engenheiro que contrata o pintor.

Se você não é patrão, você é um escravo do sonho de outra pessoa.

Acrescente nesse caldo uma situação tenebrosa, o Brasil governado por bandidos declarados, os EUA por um louco, uma volta ao conservadorismo e ao fechamento das nações, a economia mundial batendo em tetos e declinando; como fica a cabeça dessa juventude?

Como é viver com seus pais dizendo que você pode mais, pode tudo, com o cinema conclamando a busca pela felicidade, com as histórias de sucesso e superação mostrando que o dinheiro é possível com o esforço ao mesmo tempo que o mundo se esfarela a sua volta e a visão da utopia foi substituída pela da distopia?

Todo mundo é culpado, os pais desses moleques e de muitos outros foram babacas por não ensinarem os filhos que o que eles estão fazendo é uma coisa ofensiva e horrível. Eles são muito mais babacas por não conseguirem perceber como essa atitude dessa festa e das fantasias que escolheram é horrível e ofensiva.

Mas, acima de tudo, a sociedade é culpada. Ela vendeu uma ilusão tão poderosa que só a realidade vai poder ensinar esses jovens, só o sofrimento vai mudar o conceito de certo e errado deles. Não que ninguém deseje sinceramente que tudo dê “errado” para eles e que o karma os alcance, porque no fundo ainda pensamos como os pais deles e queremos que todos no tenham o que é considerado uma boa vida, desde que se esforcem, desde que mereçam, não é?

Então, sim, eles são babacas, mas, antes de falar isso, olhe bem para você mesmo, pense: você mede o sucesso pelo dinheiro? como você ia reagir se seu filho dissesse que vai largar a faculdade e ser trabalhador braçal? você não ia querer insistir para que ele estudasse? para que tivesse o tal “futuro melhor”.

Por mais que hoje você seja uma pessoa boa e não menospreze ninguém, é muito difícil fugir desse pensamento, então examine bem sua consciência antes de gritar babaca.

 

 

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