A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

A retroalimentação cultural é uma coisa bem curiosa.

Em 87 foi lançado Robocop nos cinemas, que conta a história de um policial, em um futuro distópico controlado por corporações, que teve a mente transplantada para um corpo ciborgue.

Em 89 inicia-se a publicação do Mangá Ghost in the Shell, com uma sinopse idêntica, mas com uma abordagem bem mais “profunda” (volto nesse ponto logo mais).

Ghost in the Shell se tornou um ícone da cultura pop japonesa, com várias séries derivadas e um anime de sucesso, que, inclusive, foi uma das inspirações de Matrix (1999).

Depois em 2014 teve um reboot do Robocop (ninguém gostou, aparentemente, eu achei ok na época).

Agora em 2017 voltamos para Ghost in the Shell, que tem inspirações em Matrix e tem uma cena (a cena no laboratório onde ocorre a discussão entre o cientista e o capitalista) idêntica à uma do reboot do Robocop.

E isso é apenas um dos fiapos da ciranda criativa da cultura pop, certamente infinitas referências podem ser rastreadas quando se fala em um ícone como esse que gerou um grande impacto em leitores que viraram criadores.

Voltando ao filme, ainda nesse tema, um dos grandes destaques são as cenas de luta, que de fato são espetaculares (0 visual todo do filme é bem impressionante, com muitas das cenas impactantes do anime filmadas de forma muito fiel). O único inconveniente que eu vejo nessas cenas é que elas reinventaram o “bullet time” (câmera super lenta) que o Matrix impregnou no cinema de ação. Em Ghost in the Shell, as cenas têm um ritmo frenético, um pouco de câmera lenta (nada excessivo) e umas paradas. É como se fosse a mesma partitura visual de Matrix, mas tocada em um compasso diferente. É sensacional de ver, o que me preocupa é que isso certamente vai renovar o vício de que todo filme de ação têm que ter esse recurso para ser legal. Novamente, uma ciranda de referências que se impõe.

Mas voltemos a história, a trama se passa em uma cidade futurista do oriente (algo como uma Hong Kong, mas com muitos elementos japoneses), a Major (Scarlett Johansson) é uma pessoa cujo o corpo morreu, mas o cérebro foi salvo e funciona como um fantasma (ghost) em uma casca (shell) cibernética. Ela foi criada por um grande corporação e posta para trabalhar como policial no Setor 9. No filme ela e seu grupo têm que enfrentar um hacker misterioso e extremamente habilidoso que está mantando cientistas ligados a corporação que criou a Major.

A “profundidade” do filme está nessa discussão sobre o que nos faz humanos, até que ponto podemos modificar nossos corpos e ainda continuarmos humanos, uma máquina pode criar uma consciência. Vi pessoas reclamando que o filme trata o assunto de forma mais rasa e didática que o mangá. Há dois pontos aí: hollywood trata sempre o público como idiota e faz os filmes didáticos até demais (GITS não é uma exceção), contudo, o mangá/anime em si, apesar de ter a aparência de mais profundo que o filme, tem, na verdade, aquela profundidade de conversa de bar que é muito impressionante quando você tem 16 anos, mas que ser for levada a sério mesmo… não é nada mais do que um “que louco isso de colocar sua cabeça em um robô, cara”.

Ou seja, temos que aceitar que faz parte dessas mídias esses níveis de profundidade e que o objetivo real é o entretenimento, não o engrandecimento, e tudo bem.

Há ainda uma outra questão rondando o filme desde o início da produção que é o chamado whitewash (resumindo muito, colocar atores brancos em papéis que deveriam ser étnicos). Hollywood optou por colocar a Scarlett Johansson no papel principal puramente por uma questão comercial, isso é óbvio. Ao meu ver ela nem destoa tanto no filme, tem um motivo que permite ela ser ocidental, que é o fato dela ser um ciborgue construído para ser um produto global,  e, vamos combinar, esse é um filme bem difícil de vender para o grande público sem uma âncora comercial (sim é um filme de ação sensacional, mas tem uma aura de “profundidade” e “complexidade” formado pelo culto ao mangá/amine que pode assustar).

Pra mim, nesse quesito, o maior problema é todo o restante dos personagens, porque a história se passa nem uma cidade do oriente (que visualmente remete Hong Kong e Tókio) e tem pouquíssimos orientais no núcleo principal e o personagem japonês mais bacana, o chefe do setor 9 (interpretado por Takeshi Kitano) fala japonês, sendo que todo mundo a volta dele fala inglês, criando uma situação bizarra onde o estranho é um japonês em um país de orientais.

Nessa questão poderiam ter trazido o filme todo para os EUA de uma vez ou mantido o núcleo principal japonês em torno da Scarlett, mas esse meio termo, convenhamos, ficou bem estranho. (Para entender mais sobre o whitewash em Ghost in the Shell, assista este vídeo do canal Yo Bam Boo).

No fim das contas, mesmo com a Scarlett, mesmo com o visual maravilhoso, as cenas de ação perfeitas, o ritmo excelente e uma história legal, o filme caminha para continuar como um item cultuado por poucos. As estimavas de faturamento do fim de semana de estreia do filme são de US$19 milhões, para se ter ideia, espera-se que A bela e a fera, que já está na sua terceira semana, fature no mesmo fim de semana mais de 47,5 milhões, ou seja bem mais do que o dobro do filme estreante.

No fim, mesmo com a campanha publicitária intensiva, mesmo com uma atriz em alta, mesmo sendo um filme bom, certos produtos não decolam entre o grande público, é uma pena.

Enfim, se tiver a oportunidade, veja no cinema, vale muito a pena porque o filme é, antes de tudo, um espetáculo visual.

E aproveite e compre o mangá que foi republicado pela JBC aqui 

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E veja essa resenha que eu fiz em vídeo


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