Wake up, Sir! e a jaula do vício

Sempre me impressionou o fato de não tem absolutamente nada de Jonathan Ames publicado no Brasil e volta e meio eu leio alguma coisa dele e me impressiono ainda mais.

Não vou dizer que Ames é o maior escritor da geração dele, longe disso, mas definitivamente é muito bom.

Na verdade nem seria necessário que uma editora publicasse toda a obra do autor, um livro só já bastaria, porque, em uma análise fria, os pontos mais interessantes se repetem em tudo que ele faz.

No geral, explicitamente (como nos outro livros) ou não (como em Wake up, Sir!) Ames é seu próprio personagem e ele se apresenta de forma extremamente aberta, sem julgamento de valores e com muita sinceridade. Ames é uma pessoa sensível, neurótica, com um problema sério de alcoolismo e uma personalidade muito frágil.

Ele deixa isso muito claro nos seus livros de crônicas ou mesmo no seriado Bored to Death, comédia excelente que ele escreveu para a HBO.

Já em Wake up o personagem central é Alan Blair, também um escritor, também lutando para escrever o segundo livro, com os mesmos problemas que Ames, mas que ganhou 250 mil dólares em um processo bizarro contra um hotel e usou uma parte desse dinheiro para contratar um mordomo chamado Jeeves que o acompanha por todo lugar.

Uma das coisas que me chamou atenção nesse livro é o quanto Alan Blair é de certa forma um exagero da fragilidade e das neuroses de Ames e como essas “fraquezas” são um mecanismo que alimenta o alcoolismo incontrolável de Blair.

Wake up não é uma jornada de crescimento e redenção, é uma texto duro de ler que expõe demais o comportamento do viciado. O livro é uma jornada contínua de autodestruição, onde as intenções não contam, o pensamento racional não conta, a única coisa que vale é o que o personagem efetivamente faz e quanto isso só agrava toda situação.

Tenho que ser sincero e dizer que enquanto eu lia o livro por muitas vezes achei o personagem fraco demais, sem força de vontade alguma, mimado pela vida a ponto de se tornar um inútil incapaz. Mas esse é daqueles livros que ficam na sua cabeça, que atormentam e crescem em poucos dias e você passa a se ver, passa a olhar a sua volta e aquele personagem se torna não só real, como compreensível. Você para de achar que ele era fraco e vê quanto aquilo o corrói e como é uma prisão que não tem saída fácil, que não tem solução pronta, uma jaula feita sob medida para cada, com uma saída que é diferente para cada pessoa e que a única coisa que se pode torcer é que se ache a escapatória a tempo – o que muitas vezes não acontece.

Como eu disse anteriormente, infelizmente o livro não está disponível em português, mas recomendo inclusive a publicação.

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