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Caderno de Recortes #51- Teatro presencial/Egon SchielePor

E aí, pessoal? Como vocês estão?
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tem uns estudos que a gente abandona no meio porque já estragou o suficiente
Ideias roubadas

Mirian Goldenberg – FSP 09/06/22
Ao vivo e a cores
Matt Stevens – FSP 08/06/22
Eu tenho várias críticas a quem não desliga o celular no teatro ou em qualquer evento, mas separei esse trecho porque ele destaca justamente uma das características que eu considero central no teatro: a efemeridade.
Eu gosto muito de teatro, voltei a ver várias peças (quem tiver curiosidade tem um “destaques” no meu instagram com as peças que eu assisti), mas, justamente por causa da forma como essa arte se desenrola não é muito muito comum quem se dedique a divulgá-la.
Teatro é algo que é restrito pelo tempo e pelo espaço. Qualquer crítica, elogio, recomendação, por consequência, também tem data de validade e pouca abrangência.
A grande questão é que essa urgência faz parte do teatro. Ou você vai ou, na melhor das hipóteses, aquilo só vai sobreviver, com alguma sorte, em livros.
Essa característica do teatro limita demais o público e pode levar a uma ideia errada de que é uma arte elitizada.
Dirce Waltrick do Amarante FSP 06/05/22
Tem uma lógica bem válida nesse artigo. Se o teatro tem tantas restrições, bastaria aproveitar o movimento de digitalização que se formou na pandemia e continuar com um modelo híbrido em que o registro virtual pode ser disponibilizado a qualquer momento ou lugar.
Infelizmente, é difícil falar a verdade a seco assim, mas, quem viu algumas peças on-line (eu vi várias), teve a oportunidade de perceber o quanto eram precárias.
A solução online foi feita para que os artistas pudessem ter alguma renda na pandemia. Foi algo totalmente improvisado e, na sua maioria, com uma captação e edição tosca e quase amadora. Mesmo quem teve algum patrocínio maior e investiu em uma filmagem de qualidade, salvo raras exceções, terminou com um produto pálido e sem graça que o público muitas vezes assistia por um misto de dó e exaustão com o confinamento.
Você poderia dizer que um diretor de fotografia e uma câmera boa conseguiria resolver essa questão, mas o fato é que não basta. Muitas sitcons são filmadas como uma peça, até diante de uma plateia, mas o objetivo e resultado é outro, porque a linguagem se altera.
A vida do teatro está na presença. Está no ato de ir para um lugar e aceitar um combinado de que existe um mundo inteiro naquele palco estreito e quase sem cenário. Está em ver a performance única do ator ali na sua frente e acreditar que ele é aquilo que representa naquele intervalo de tempo. É se admirar com um trabalho de luz bem feito. Até o som é algo totalmente diferente (aliás, um a parte rápido, cada vez mais peças estão usando microfone para projetar a voz dos atores, particularmente acho isso bem sem graça, demora um pouco para entender que não estão sendo dublados e se perde totalmente o elemento do trabalho vocal do ator, mas aí é preciosismo meu).E, como sempre, a linguagem afeta o resultado. O fato de ser um ambiente contido e controlado dá a liberdade para que o teatro toque em temas complexos que correriam o risco de serem distorcidos ao cair na rede ou a serem exibidos em casa.
Todo esse conjunto de fatores complexos torna o teatro hoje uma arte de nicho, tanto em produção quanto em consumo e, infelizmente, algo assim acaba sobrevivendo apenas em grandes centros urbanos. O que é muito diferente de dizer que é uma arte elitizada, até porque, o preço dos ingressos da maioria das peças oscila na casa dos R$60 a R$20, valores que seriam considerados bem populares alguns anos atrás quando a fome não assolava o país.
A questão que fica é: como levar o teatro para fora das capitais?
No mundo do capitalismo, como tudo que não é um produto comercial massificado, a solução passa pelo poder público e políticas públicas. Aliás, com bem menos do que é investido em um show de sertanejos é possível bancar uma trupe de teatro viajando por todo país e se apresentando de graça ou por preços módicos.
Ah, mas aqui é a terra do livre mercado e se esse tal teatro fosse bom mesmo conseguiria se bancar com a bilheteria. Meu querido, se nem Gusttavo Lima consegue bancar um show em Conceição do Mato Dentro (MG) com bilheteria, como uma arte que foi jogada de escanteio por décadas seria capaz de alugar um espaço, custear sua viagem e trabalho e ainda cobrar um preço acessível?
É claro que hoje vivemos um momento de demonização da arte e de tudo que é público, mas vale dizer que nem sempre foi assim. Eu, por exemplo, assisti de graça A última gravação de Krapp com Antônio Petrin em Jaú (interior de São Paulo), em uma turnê custeada por políticas públicas lá no final dos anos 90 e foi justamente isso que me fez gostar de teatro até hoje.
Enfim, o teatro não é elitista e nem quer se encastelar em São Paulo, mas, como tudo, depende de um processo educacional forte e longo e de uma estrutura que financie sua existência e permita que outras pessoas como eu descubram que gosta de teatro. O mesmo vale para a leitura, música e tantas outras artes que um dia já foram para as massas, mas hoje foram escanteadas como tudo que gera alguma reflexão.
Bilhete premiado
Um tema que eu gosto bastante são métodos de lavagem de dinheiro, inclusive já dediquei uma edição a isso. Esses dias está se desenrolando uma história intrincada sobre uma máfia que liga políticos, facções criminosas e empresas de ônibus. O caso ainda não esclareceu por completo, mas achei bem curiosa essa forma de lavar dinheiro que, para todos os fins parece até dentro da lei.

FSP 09/06/22
Vale dizer que uso do bilhete premiado da loteria é bem frequente, mas, no geral, é feito com um combinado entre várias casas lotéricas que compram os bilhetes premiados de pessoas inocentes que aparecem por lá para receber prêmios maiores sem saber que deveriam buscar o valor na Caixa Federal.
A grosso modo o esquema mais comum funciona assim: o vencedor aparece na lotérica que frequenta, fala que ganhou, o dono da lotérica diz que ele precisa ir na Caixa, mas que teria muita burocracia e oferece pagar um pouco menos que o valor total para a pessoa sair com o dinheiro ali na mesma hora.
O dono da lotérica tira esse dinheiro do cofre dele e liga para alguém que é especializado em comprar esses bilhetes que rapidamente repõe o gasto com dinheiro sujo e deixa uma comissão para o dono da lotérica. Daí, mesmo o elemento com a ficha criminal mais extensa do país pode ir em qualquer agência da Caixa e receber um dinheiro que é inquestionavelmente limpo.
Mais educação
Na edição passada eu falei sobre universidades públicas, quero retomar rapidamente esse assunto para trazer essa informação:

Marcelo Medeiros – FSP 05/06/22
E para falar um pouco sobre a Tabata Amaral.
A nobre deputada apanha da direita por se dizer de centro-esquerda e apanha da esquerda, por defender pautas bem liberais como a cobrança de mensalidade nas universidades e a reforma previdenciária em que o trabalhador se aposenta quando deita no caixão.
Tenho muitas críticas a Tabata, mas é preciso dizer que as redes sociais e os formadores de opinião a cobram de forma desproporcional. Independente dessa questão nebulosa direita/esquerda, a deputada sempre foi coerente nas decisões e segue com firmeza as próprias convicções. Por mais que discorde da visão de mundo dela e do papel em que ela se inseriu no cenário político é preciso dizer que ela é uma legisladora muito, mas muito acima da média e que o Congresso seria um lugar bem melhor se todas as divergências fossem em tão alto nível quanto o que se cobra dela.
Porque a realidade, hoje, é que Tabata é uma exceção muito bem-vinda em um lugar em que há pessoas que se dedicam a isso:

FSP 03/06/22

FSP – 040/6/22
Pintores
Última semana de Egon Schiele.
Como trouxe as imagens em ordem cronológica tivemos um período de formação, um de busca de um estilo e uma consolidação de um visual marcante que garantiu ao pintor um verbete permanente na história da arte.
Nessa última edição trouxe os quadros finais do artista que retorna para algo menos estilizado.
A composição desse quadro é muito bonito. O vestido é a área de maior saturação de cores e as linhas coloridas dele se dispõe de forma a representar todo o volume e o movimento da figura.
Vale lembrar algo aqui que Schiele trabalha muito bem: para o desenho, mesmo o que está estático tem movimento, pois você tem o movimento cinético (a elasticidade de um tecido sendo levado pelo vento, por exemplo) e o movimento do olhar. Esse vestido, mesmo parado, sem nada puxando, empurrando ou tensionando ainda gera um movimento do olhar que acompanha cada dobra, cada vinco, cada amassado que formam o caimento natural de qualquer roupa.
É importante lembrar que o foco do Schiele sempre foi uma compreensão do desenho e da forma. Diferente de muitos pintores que ocultam o desenho por meio de uma construção de variações tonais que geram a ilusão visual de volume, ele fazia questão de deixar a linha protagonizar seu trabalho.
Esse quadro tem dois elementos em particular que me chamam muito a atenção: o olhar e a postura da modelo, e esse “vazio” visual que torna a composição muito poderosa.
É muito interessante como Schiele usa os livros para criar uma perspectiva opressiva no cenário e como ele trabalha as pinceladas na roupa e na poltrona de forma que as manchas têm movimento, é uma versão bem mais sutil das hachuras coloridas de Van Gogh.
Por fim, um recorte interessante de um cenário, com uma perspectiva poderosa e, de novo, com o “vazio” fazendo um recorte da cena como um todo.
P.S.
Semana que vem tem feriado e as estatísticas mostram que vocês não querem ler más notícias nessas datas, então volto no fim de semana seguinte.
Obrigado a quem se inscreveu e leu.
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Abraços e até a próxima.
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