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Caderno de Recortes #52 Petrobras/Gustav Klimt

E aí, pessoal? Como estão?Eu faço essa newsletter, de certa forma, para consumo próprio, mas é muito bacana poder compartilhá-la com vocês, ainda mais porque eu tenho a sorte de conhecer as melhores pessoas do mundo.
Uma delas é o Olavo Costa (se você ainda não leu a HQ mais recente dele, pare e compre agora). Na última edição eu mandei um estudo abandonado para vocês. Como eu pratico pintura com objetivos puramente acadêmicos, muitas vezes eu começo um estudo com a pretensão de aprender um ponto específico e pode acontecer de dar errado.Naquela semana, como o objetivo estava perdido, simplesmente abandonei. Mas o Olavo, uma das pessoas mais gentis que eu conheço, me mandou um e-mail com várias sugestões de como prosseguir naquela pintura e fez um exemplo digital para mim. Inspirado por ele, eu retomei aquele mesmo estudo inacabado e fui um pouco mais adiante, a cor do fundo, inclusive, eu roubei da solução do Olavo.
Então, como sempre fiquem a vontade de responder, comentar e de repassar esse e-mail para os amigos.
Ideias roubadas
(…)

Marcelo Coelho – FSP 22/06/22
Nós que amamos um gráfico
Para tentar entender melhor o que está acontecendo na Petrobras, peguei alguns dados e montei gráficos com as informações das ações ordinárias da empresa, que são aquelas sem direito a voto e, que, junto com as ações da mineradora Vale, são os papéis mais negociados na bolsa, representando 6,765% do Índice Bovespa. (Esse primeiro bloco pode parecer meio chato, mas tenham alguma paciência).
Em 2008 as ações da Petrobras se desdobraram, ou seja, cada ação que variava na casa dos R$ 20, foi trocada por 2 ações variando na casa dos R$10 reais. Isso é uma estratégia normal para aumentar o número de negociações, deixar a empresa menos vulnerável, etc.Por esse motivo o gráfico acima tem uma distorção naquele ano que forma aquela segunda corcova menor.
Considerando que a uma empresa de petróleo depende muito do valor de mercado do seu produto principal, a tendência é que o preço da ação tenha um gráfico mais ou menos parecido com o da cotação do petróleo. Que é o que acontece salvo em 2 momentos: 2009/2013 e 2018/19.
Não tem uma resposta simples para isso, mas, muito a grosso modo, essas flutuações estão relacionados à força especulativa em torno de alguns eventos administrativos adversos.
O primeiro momento envolve o desdobramento, que eu falei antes, e a resolução das questões burocráticas da exploração do pré-sal, o que fez o valor subir além do normal em 2009 e, ações, como tudo no mundo capitalista, valem o que valem. Se em um momento o preço saiu dos trilhos, haverá um período de “correção” para que o valor retorne para patamar em que deveria estar. Isso, junto com os rumores do início da lava-jato e vários questionamentos sob a gestão da empresa fizeram com que o valor das ações caíssem entre 2009/2013, apesar da subida do preço do barril de petróleo.
O segundo momento é justamente o motivo desse assunto todo: o Programa de Paridade Internacional (PPI) implantado na gestão nefasta do Temer.Pense aqui comigo: para que um país precisa ser dono da indústria de extração de petróleo? Para usar esse recurso de forma estratégica.
Essa corda tem vários pontos de tensão.Você pode usar a empresa para garantir que o combustível não fique caro para a população, afinal, se o país é autossuficiente em petróleo e a produção é pública, a escolha do preço final não deveria ter a ver com gerar lucro. Como o petróleo ainda é muito vital para a nossa vida, ao abrir mão do lucro de forma estratégica e calculada, o país (dono da petroleira) pode ajudar a conter a inflação.
Agora, se a empresa é mista, como a Petrobras, e suas ações representam uma fatia significativa da bolsa de valores local, é possível usar a empresa como uma forma de regular a especulação. Para isso a empresa precisa dar lucros, para que esse resultado positivo seja distribuído para todos os acionistas (essa partilha do lucro é chamada de pagamento de dividendos). Isso faz com que o mercado considere que a ação deve se valorizar e, quando o valor de uma empresa do porte da Petrobrás sobe, leva junto o Índice Bovespa, um indicador que atrai mais capital para o país.
A questão é que é preciso haver um equilíbrio entre esses pontos e foi justamente para balancear esse sistema delicado a favor do país que, no passado, decidiu-se fazer do governo o acionista majoritário da Petrobras.Agora vamos olhar o gráfico dos dividendos pagos pela Petrobras e o Yeld (relação entre o lucro distribuído e o valor da ação no momento, ou seja quantos % de retorno a ação entrega para o seu investimento).
De 2015 a 2017, apesar da subida do preço do Petróleo, a Petrobras não pagou nada para os seus acionistas. O governo Dilma usou a prerrogativa da estratégia e segurou um pouco da inflação contendo os preços dos combustíveis as custas dos lucros da empresa, uma estratégia que é razoável para o bem do país como um todo, mas que irrita os acionistas privados (mais preocupados com o próprio bolso do que com a vida de um país).
Curiosamente, após o pessoal do capital e da especulação engrossar o grupo que incentivou e financiou o golpe parlamentar liderado pelo Temer, eles se garantiram com a institucionalização do PPI. Esse mecanismo institucional que supostamente moralizaria a empresa, na verdade, tira das mãos do governo toda e qualquer capacidade estratégica, pois obriga a empresa a seguir o preço internacional e gerar lucros independente da situação do país. Com isso, em um momento de crise, o país sofre, o governante fica sem ação direta*, mas os capitalistas festejam. É só dar uma olhadinha nas duas últimas barrinhas dos gráficos de dividendos. 2022 não chegou nem na metade e os acionistas receberam mais lucros do que em toda a série histórica (exceto 2021) somada.
*(obviamente o país ainda é dono da petroleira, então o presidente e o legislativo têm muito espaço para agir, mas não é simples, porque a bomba implantada pelo Temer é complexa e a solução depende de consenso, capacidade, bom senso e boa vontade, recursos escassos no momento)
Petro não bras
Não é muito difícil de saber qual era o plano de Temer quando implantou o PPI. Se a petroleira não tem nenhuma função estratégica para o Estado, não faz sentido que ela seja pública e o único caminho lógico que resta é a privatização.
E por que vários políticos querem privatizar uma empresa que só lhe dá lucro e que todo mundo fala que poderia dar mais lucro ainda se bem administrada?
Ter lucro a longo prazo faz sentido se pensarmos como nação, como uma continuidade perpétua do país. Já privatizar faz que você tenha dinheiro imediato. Abre-se mão do futuro para gastar no presente, afinal, o político está no mandato hoje e não daqui a 50 anos. Ele quer colocar a mão no dinheiro hoje e não garantir que em 100 anos o país tenha recebido um retorno muito maior.
O problema (ou a nossa sorte) foi que não deu tempo de concluir o golpe. Com isso, depois de anos de uma estabilidade razoável, agora o mundo todo convulsiona com a volta da inflação e esse seria o momento ideal para ter uma ferramenta estratégica de contenção de danos. Mas a gestão atual se viu presa no pior dos mundos. Não podem quebrar o PPI, porque, oficialmente, são um governo liberal, de direita; e, ao mesmo tempo, ainda são os donos da empresa, então fica mais difícil jogar a culpa em outra pessoa.
Nessa ânsia desesperada, Arthur Lira (PP), presidente da Câmara dos Deputados e linha principal de defesa do Bolsonaro, agindo como um gangster, publicou na Folha uma carta aberta ameaçando a diretoria da Petrobras em uma tentativa de segurar com uma peneira a popularidade do presidente que só afunda nas pesquisas enquanto a miséria dispara.
fsp 19/06/22
Outro grupo que está sofrendo com o contorcionismo ideológico é a brigada de liberais que precisa defender o lucro astronômico da Petrobras enquanto todo o resto do país afunda.

Hélio Schwartsman – FSP 21/06/22
O principal argumento é dizer que ao conter a liberdade do mercado de cobrar quanto quiser, o governo estaria beneficiando os ricos que usam carro no país. (Um esforço hercúleo para não dizer que o melhor seria trazer Dilma de volta)
Essa bobagem ignora por completo o fato de que o preço para encher o tanque é apenas uma das questões aqui. Quando o combustível sobe, absolutamente tudo que se consome no país dispara, porque a maioria das nossas mercadorias é transportada de um lugar para o outro em várias etapas da sua cadeia produtiva. E conter essa inflação é algo urgente para salvar justamente as pessoas mais pobres que comprometem 100% ou mais da sua renda com o consumo de itens básicos para sobrevivência.
É insana a falta empatia de pessoas como Schwartsman que acham que o povo precisa ser educado pela subida dos preços, pois quem ganha um salário mínimo pode nunca saber quanto custa o litro da gasolina aditivada, mas já aprendeu da pior maneira que a sua renda não compra mais nem uma mísera cesta básica.

Elio Gaspari FSP 19/06/22
Não deveria, mas é importante falar sobre aquela fake news que corre solta de que o combustível está caro porque estamos pagando a dívida do “E O PT?”. É só voltar no gráfico de dividendos que é gritante a diferença entre o lucro distribuído em 2013 (quando o barril de petróleo estava mais caro que hoje) e 2021/2022. Se a empresa tivesse dívidas para pagar ela não seria capaz de distribuir para os investidores os maiores lucros da história.
Outra diversão é ver como essa galera do dia para a noite virou ecologista ao dizer que baixar o preço implica em estimular o consumo de combustíveis fósseis.Esse seria um argumento bem razoável se houvesse hoje uma alternativa implantada para não consumir combustível fóssil. Desde a nossa “amada” ditadura o país privilegiou o transporte por caminhões e rodovias e matou qualquer alternativa ecologicamente mais sustentável.
Quando a única opção existente no momento é usar combustível fóssil, esperar que o preço alto faça com que a natureza melhore é jogar alguém que nunca aprendeu a nadar no meio do oceano na expectativa de que a dificuldade o transforme em uma atleta olímpico.
Enfim, resumindo, apesar de todas as nossas desgraças, o Brasil teve o privilégio de ter muitos recursos naturais. Cabe a nós encontrarmos políticos que pensem em um projeto de nação a longo prazo e não esse bando de cupim que só quer roer tudo que vê pela frente.
Duas versões

FSP 22/06/22
A Folha publicou essas duas tiras no mesmo dia e, por acaso, ofereceu uma aula sobre quadrinhos. Ambas têm o mesmo formato (um único quadro), a mesma ambientação (o paraíso bíblico), a mesma “punch line” (o celular como disruptura da paz) e um estilo de desenho muito pessoal.
A tira do Dahmer é elegante, poética e matadora.Já a Adão se escora em um texto e jogou toda a sua sustentação em uma piada velha e desgastada sobre sogra.
Cada um luta com o que tem…
Quando chega essas datas comerciais é impressionante o que as empresas fazem para vender.

FSP 13/06/22
…ou com o que não tem
FSP 23/06/22
É sempre bom um candidato como Rodrigo Garcia, que já se mostra um crápula declarado. Fico imaginando o programa de governo dele: enquanto os alunos tiverem 50,01% das aulas, está ótimo. Se esse número cair a gente pensa no que faz.
Pintores
Nas edições passadas eu falei sobre Egon Schiele e ele tem uma fase em que se espelha muito no Gustav Klimt. Então acho que está na hora de falar sobre esse austríaco genial que transitou do Neoclassicismo para a Art Nouveau com uma escala longa no Simbolismo.
Como de costume, eu vou passar as próximas edições trazendo algumas imagens dos trabalhos dele, em ordem cronológica. Eu sempre tento evitar um pouco as obras mais famosas, então ainda tem muito Klimt pela internet para conhecer.
Esse é um estudo bem inicial do Klimt. É um retrato bem acadêmico, tradicional, mas que tem muito movimento gestual nas linhas e essas marcações de luz bem intensa que são um charme a parte.
Outro trabalho bem clássico, agora com muito mais refinamento. O interessante aí é a quantidade de elementos gráficos que ele inseriu na imagem, algo bem peculiar da Art Nouveau que é um dos grandes ancestrais do design moderno.
Essa composição é algo lindo demais. A escolha de como os elementos se conectam na imagem, esse respiro visual e essa paleta de cores rebaixadas é uma combinação fantástica.
Eu separei esse retrato porque ele lembra muito o trabalho do Sargent, em particular o Retrato da Madame X, o que mostra a versatilidade do Klimt.
Essa arte é maravilhosa, tem todos os elementos de um design contemporâneo (poderia facilmente ser uma capa do Dave McKean para o Sandman), além da questão técnica que é essa sensação de profundidade criada pela figura nas sombras.
Por fim, um trabalho “mais simples” que faz toda essa construção assombrosa de luz.
P.S.
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