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Caderno de Recortes #53 morte da crítica e da contracultura em Todo Lugar ao Mesmo Tempo/Gustav Klimt

Essa semana vamos deixar de lado a situação depressiva da economia e da política do país para falar da situação depressiva da cultura do Brasil. Não, nem vou entrar nem no mérito de que essa semana descobrimos que até a Biblioteca nacional foi tomada por gente muito ruim que acha que faz algum sentido entregar a medalha da Ordem do Mérito do Livro ao (me falta até um adjetivo aqui) Daniel Silveira [se bem que essa medalha é o menor dos problemas, já que o povo do RJ achou que ofender uma vereadora assassinada o qualificava para ser deputado federal e o presidente considerou que ele merecia salvo-conduto prévio por incitar o terrorismo democrático].
Enfim, vamos para uma discussão mais filosófica sobre critica, contracultura e Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo.
Ideias roubadas

Conrado Hübner Mendes – FSP 30/06/22
Tudo em todo lugar é ao mesmo tempo igual
Assisti ao filme Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo escrito e dirigido pelos “Daniels” (Daniel Kwan e Daniel Scheinert). Prometo não dar “spoilers” do filme, mas, infelizmente, o que eu vou dizer pode estragar a sua experiência. Os dois textos que vou abordar para dar um embasamento à minha crítica, por mais que não tenham relação direta com a trama filme, podem fazer você pensar e a reflexão tende a ser o pior inimigo do entretenimento.
A morte do crítico
João Pereira Coutinho FSP 28/06/22
Já tem um tempo que a crítica cultural em todas as áreas anda bem abalada e essa observação do Coutinho é apenas um viés desse tema complexo.
Algumas décadas atrás, a crítica era extensiva. Os cadernos de cultura dos jornalões tinham páginas e páginas cobrindo um número absurdo de filmes, peças, discos e livros. Além dos críticos “da casa” a mídia trazia acadêmicos e nomes de peso para analisar de forma profunda em artigos extensos diversas produções. A Folha além de uma editoria diária de cultura, publicava suplementos semanais e revistas de cultura. A gastronomia tinha um caderno próprio que detalhava tudo de novo nos restaurantes de São Paulo (hoje está confinada a uma página semanal). A programação cultural em si era quase toda divulgada em um guia encartado nos jornais de sexta-feira que era muito esperado por todos que queriam planejar o fim de semana.
Nesse contexto em que se cobre tudo, é natural que exista muita crítica “negativa” necropsiando em detalhes o mar de obras medianas e ruins e outras poucas “positivas” que levavam ao pódio o que há de melhor (afinal, estatisticamente, é esperado uma distribuição natural de algumas obras ruins que foram financiadas independente da qualidade e muitas apostas medianas que não rompiam aquela linha reservada para as poucas pérolas artísticas vistas como arte verdadeira).
Depois disso vieram os sites de nicho, eu mesmo fui membro da equipe do Universo HQ em uma época que quase 100% dos quadrinhos publicados no Brasil eram resenhados. A regra era ser de uma honestidade brutal e as notas máximas eram reservadas apenas para aquelas poucas publicações que entrariam para o panteão de novos clássicos.
Agora estamos em um ponto em que o jornalismo não tem mais recurso para ter uma cobertura ampla e os sites de nicho tem que perder muito tempo em redes sociais para disputar o tempo do público com os “influenciadores” (que, em muitos casos, só produzem conteúdo patrocinado).Então, convenhamos, se o jornal vai publicar uma única resenha de livro em uma semana, não faz muito sentido gastar esse texto descascando uma obra ruim. O foco passa a ser incentivar o público ir atrás do que há de melhor em cada área da cultura.
Esse ar impregnado com a falsa sensação de que hoje tudo é uma obra genial, portanto, deriva do fato de que a crítica especializada se tornou uma espécie de peneira grossa.
E há vários problemas nisso. Um título mediano que, por pouco, não passou na linha de corte do editor porque naquela semana competia com algo melhor pode nunca encontrar a totalidade do seu público, sendo que, por mais que não seja um trabalho “5 estrelas”, cada obra de arte toca as pessoas de forma diferente e o que é mediano para um crítico, pode ser uma lembrança para a vida toda para o público.
Além disso, a falta de crítica ampla especializada de verdade empobrece as artes como um todo. Por mais dura que possa ser para o artista que se dedicou anos a um livro/filme/etc, quando bem pontuada pode ajudar aquele e outros autores a serem melhores no seu ofício.
João Pereira Coutinho FSP 28/06/22
E se o que chega ao público amplo é só a suposta nata cultural selecionada pelo crivo da crítica artesanal ou aquilo que é impulsionado com rios de dinheiro pelos gigantes da indústria do entretenimento, surge outro problema muito sério.
O funeral da contracultura
Estes são os principais indicadores de que podemos estar inseridos em uma sociedade sem contracultura:
Um senso de mesmice permeia o mundo criativo
Os temas dominantes parecem estáticos, repetitivos e sem dinamismo e impacto.
A imitação do convencional é recompensada
Filmes, músicas e outras atividades criativas são cada vez mais avaliadas em métricas financeiras e corporativas e todos os outros elementos têm pouca relevância
Existem vozes alternativas, na verdade, estão em toda parte, mas é raro que sejam ouvidas e o impacto cultural delas é insignificante
Todos os anos as mesmas histórias são recontadas e essa mesmice é considerada um presente para o público
O trabalho criativo está cada vez mais incorporado em gêneros que parecem rígidos, sem maleabilidade
Mesmo o trabalho de vanguarda muitas vezes parece uma repetição de 50/60 anos atrás
etc, etc, etc, etc


(o texto completo do Ted Gioia, com 14 exemplos desses conceitos está aqui https://tedgioia.substack.com/p/14-warning-signs-that-you-are-living )
Não sei você, mas quando eu li esse texto, uma ilusão importante se quebrou dentro de mim.
Sempre fui fã de cultura pop, mas gostava de pensar que, ocasionalmente, procurava algo “alternativo”. O problema é que, em retrospecto, mesmo o que eu considerava “fora de circuito”, muitas vezes, era uma repetição “melhorzinha”.
Existe um outro elemento que reforça a tese de Gioia: as exceções comportadas feitas sob medida para validar o mainstream. São obras mais “diferentes” que parecem se infiltrar pelas frestas desse sistema sem contracultura, mas que, em última instância, estão lá para aliviar uma culpa artística ou para dizer que esse tema que você viu naquele blockbuster que faturou 1 trilhão também é artístico.
Essas produções, curiosamente, acabam ganhando o engajamento natural da crítica porque atendem uma necessidade vital que é oferecer algo que parece ter mérito real o suficiente para ser elogiado. Pense comigo: o crítico (de jornal, site ou rede social) precisa falar dos grandes sucessos impulsionados pela publicidade para surfarem na audiência. Contudo, depois de 30 filmes e trocentos episódios de séries bacaninhas e bem produzidos da Marvel, o que restou para falar do filme novo do Thor que será mais uma variação sutil dentro da fórmula já estabelecida? Dá para tentar ser polêmico até um ponto ou exibir a credencial nerd falando de todas as referências obscuras inseridas no filme, mas, no fim do dia, é preciso um esforço hercúleo para não ficar no: “gostou dos outros, vai gostar desse, nos vemos no próximo”.
E é nesse ponto que voltamos para:
Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo
Eu ia recortar alguns trechos de resenhas do filme que eu li em sites “nerds” diversos, mas a linha fina deles é elogiar o “pequeno filme alternativo” (já volto nessas aspas) que mostra aos gigantes da Disney e Warner como se faz um filme de ficção científica. Alguns elogiam a inovação do roteiro e, é claro, há uma comparação direta com o Multiverso do Doutor Estranho, Matrix e outros.
Se você chegou até aqui e não sabe do que eu estou falando, a grosso modo, o filme acompanha um momento de crise de uma família de imigrantes chineses nos EUA que é interrompido por versões daqueles mesmos personagens vindos de outras realidades para buscar ajuda e salvar o Multiverso de um grande perigo.
A partir daí, os personagens passam a acessar versões diferentes de si mesmos e, ao mesmo tempo que adquirem as habilidades dessas versões, veem como teria sido suas vidas se fizessem escolhas diferentes em momento específicos do passado.
A graça do filme está nas cenas de ação com personagens improváveis (como a lutas com a auditora de meia-idade da receita federal) e na excentricidade desses multiversos (como o mundo em que os humanos têm dedos de salsicha ou a cena longa em que os personagens são duas pedras).De fato o roteiro tem um ritmo bem construído e a estética das cenas são peculiares ao ponto de tornar fácil perdoar os furos infinitos do roteiro e o fato de que a produção parece ter sido feita com pouco dinheiro para o TCC de alunos de cinema que se esforçaram ao ponto de usar os temíveis faceshields da pandemia como um elemento futurista de figurino.
O que pegou para mim nesse filme foi justamente a ideia de que “mesmo o trabalho de vanguarda muitas vezes parece uma repetição de 50/60 anos atrás”.
Quando vamos para a trama em si, a todo momento eu pensava que estava acompanhando um delírio de um mestre de RPG de meia-idade se divertindo muito jogando com um grupo de pré-adolescentes (nada suspeito nessa cena quase específica demais)
A questão é que não tem nada ali que já não tenha sido explorado a exaustão pela ficção científica em todas as mídias. É difícil ver o filme e não pensar em Doctor Who (inclusive na questão estética de baixo orçamento) ou no Guia do Mochileiro das Galáxias (que foi escrito por um roteirista de Doctor Who). É possível substituir o grifo por uma das milhares de histórias parecidas.
Mesmo a estrutura macro da trama, uma alegoria para encontramos a beleza que existe na vida trivial da maioria das pessoas, é um decalque velho de quase tudo dos anos 80. Alguém pode dizer que o filme é uma cópia de Cavalo de Fogo, por exemplo, em que a garota é levada por um cavalo mágico para uma realidade em que ela é uma princesa, sendo que tudo isso é um basicamente um mecanismo para ela conseguir lidar com a perda da mãe.
É possível dizer ainda que o roteiro foi tirado de um episódio da série Community, de onde saíram Anthony e Joe Russo, que se tornaram estrelas do ápice do mainstream ao reciclar as ideias de Community quando dirigiram o Vingadores Guerra Infinita e Ultimato.
E por que eu citei os irmãos Russo? Porque esses medalhões das grandes bilheterias são os produtores de um “pequeno filme alternativo”, sim esse mesmo que estamos falando.
O que volta para a questão de que mesmo o que tentam embrulhar como algo fora do eixo, tem o dedo de figuras centrais do cinema para as massas.
Dito tudo isso, Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo é um filme tão divertido quanto qualquer sucesso de bilheteria da Disney. Se você consegue desligar a chave que busca algo novo ou o mítico filme arte popular e se entregar ao entretenimento estético gratuito, vai ser muito bom. E se você se sentir melhor pensando que está apreciando um trabalho muito alternativo, muito que bem.
Pintores
Dando sequência à edição passada, seguimos com Gustav Klimt.
As paisagens, ainda mais estudos realistas, não estão no centro da obra de Klimt, mas é interessante ver a versatilidade desse artista e ver a habilidade com que ele fez esses efeitos de água que são bem mais comuns na aquarela do que no óleo.
Se você acompanha essa newsletter há algum tempo deve ter notado que quando tratei da maioria dos pintores europeus de uma época próxima a de Klimt, falei da influência das pinturas orientais no trabalho deles. A arte japonesa era algo tão diferente para o ocidente que a circulação dessas imagens fez com que muitos artistas da época buscassem incorporar aquela estética única no seu trabalho de alguma forma.
Agora sim o lado mais conhecido do Klimt, as imagens douradas. Aqui temos um combo de uma influência oriental, com ícones que remetem à Grécia antiga em uma pintura com a técnica que se convencionou chamar de “mix media” (o uso de materiais diferentes no mesmo trabalho).
Mais uma paisagem, agora bem mais simbólica e próxima do trabalho mais expressivo de Klimt. Não é impressionante como aquelas frestas de luz ao fundo criam uma atração visual potente?
Adoro olhar os estudos para entender como os pintores pensavam o desenho. Esse caso em particular é bem interessante pois essa é uma pose um tanto clássica de estudo.
Klimt está inserido em diversos movimentos. Um deles é o Simbolismo, algo que dá para representar bem com essa pintura com a vida e a morte. Algo que chama muito a atenção é o uso dessas hachuras coloridas com um gestual bem vigoroso.
P.S.
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