Caderno de Recortes #54 – Quem vai pegar sua casa agora?/Gustav Klimt

E aí, como estão? Antes das notas negativas, um saldo cultural positivo. Tenho ido bastante ao teatro e visto salas bem mais cheias do que antes da pandemia. Espero que esse desejo de sair de casa se mantenha e as pessoas continuem indo ao teatro. Quem quiser dicas de peças em SP, no meu instagram tem um “destaques” só com as peças que eu vi.
Ideias Roubadas
Becky S. Korich - FSP 03/07/22
Becky S. Korich – FSP 03/07/22
Banco verde e amarelo
Independente de qualquer crise, se tem uma instituição inabalável no Brasil são os bancos.
Ao que tudo indica, o projeto de longo prazo do capitalismo é a ampliação da base de miseráveis e o extermínio da classe média.
Já falei em edições anteriores, mas é sempre bom repetir. Quando falamos em classe média, em via de regra, não tratamos só de algo delineado pela estatística (que seria pegar a faixa salarial do maior grupo populacional do país, um grupo de que de fato representasse a situação do brasileiro “médio”, a título de curiosidade, hoje um domicílio médio tem uma renda de R$ 2.548). Além da média real temos esse conceito de “classe média” que é aquele grupo de profissionais liberais e pequenos empresários bem sucedidos que pagam educação, saúde e transporte particular, têm imóvel próprio etc. São pessoas com uma renda bem acima da média, mas ainda longe de estar entre os bilionários.
E, como disse a Marilena Chauí:
Recortes mal interpretados dessa fala sempre foram usados para dizer que o PT queria acabar com esse grupo social. Curiosamente, tem sido o consórcio liberal Temer/Bolsonaro/Lira que está trabalhando a todo vapor para garantir que o Brasil siga na linha de países como os EUA que estão ampliando o fosso social para dividir a sociedade entre ricos (de verdade) e pobres, sem nada no meio e sem possibilidade de ascensão.
Um dos passos para isso é aproveitar o momento que uma parte significativa dessa classe média perdeu sua renda e acumulou dívidas para trazer mais um pouco do american way of life.
Material de divulgação sobre o Projeto de Lei 4188/21 - Fonte: Agência Câmara de Notícia
Material de divulgação sobre o Projeto de Lei 4188/21 – Fonte: Agência Câmara de Notícia
FSP - 27/06/22
FSP – 27/06/22
Antes de prosseguir, é preciso definir melhor aqui. O projeto de lei não acaba com a proteção ao bem único. Ou seja, se você acumular uma dívida considerável ninguém pode de pronto tomar aquele único imóvel em que você reside.
MAS, a proposta é incluir uma vírgula aqui. Quando a pessoa compra um imóvel financiado, até a quitação, aquele bem pertence mais ao banco (que pode reaver a casa por falta de pagamento) do que ao morador. Se a nova lei for aprovada, essa situação é estendida de forma que a pessoa que tem um imóvel quitado possa ir ao banco e dar esse bem como garantia para um empréstimo com juros supostamente mais favoráveis. A pessoa pode, ainda, oferecer o bem como garantia para mais de uma instituição. Nesses casos, assim que o devedor deixa de pagar, o(s) banco(s) colocam ele na rua.
A linha de pensamento natural de muita gente é que isso apenas dá uma opção e só se joga no abismo quem quer. A questão é que a vida real não é bem assim. A falta de dinheiro leva a pessoa a situações de desespero e é justamente nesses momentos que não tomamos as melhores decisões. A ideia original que se tinha até agora era oferecer uma proteção social para a família que possuía um teto, e, mesmo no seu pior momento financeiro, ainda tivesse onde morar.
Quem casa quer casa
Não é preciso dizer que ter onde morar é essencial na vida de uma pessoa.
Quem nunca teve um imóvel ou quem teve e perdeu tem, como primeira alternativa, o aluguel.
Acontece que se a pessoa não tem renda suficiente para comprar uma casa ou perdeu tudo porque deu o imóvel que tinha como garantia, há uma chance de que ela não possa pagar um aluguel. Uma chance bem grande, inclusive, já que cada vez menos pessoas têm renda o suficiente para alugar.
Já que gostamos tanto de ver os EUA como paraíso na Terra, vejamos esse gráfico abaixo.
Last Week Tonight 20/06/22 - https://www.youtube.com/watch?v=L4qmDnYli2E
Last Week Tonight 20/06/22 – https://www.youtube.com/watch?v=L4qmDnYli2E
A linha reta preta indica 30% da renda média dos jovens de 22/34 anos (entende-se que 30% é o máximo da renda que uma pessoa pode comprometer com o aluguel e ainda arcar com as demais despesas de estar vivo). As demais linhas mostram a evolução do preço dos alugueis em algumas cidades dos EUA ao longo dos anos. Quando o preço está acima da renda, como acontece desde sempre em Los Angeles ou a partir dos anos 2000 em Miami, o jovem não tem condições de alugar.
No Brasil a situação não é muito diferente, os aluguéis não param de subir com a inflação e a renda não para de cair.
Uol - 05/07/22Uol – 05/07/22
Parados no tempo
O resultado dessa conta, mesmo antes da aprovação da lei que permitirá às pessoas apostar com o banco o seu único imóvel é esse:
FSP - 25/06/22
FSP – 25/06/22
Lembrando que as pessoas que bem ou mal se estruturaram nas favelas ainda estão em uma condição um pouco mais favorável do que aqueles que foram para a vida dura e muitas vezes sem volta das ruas.
No Brasil é cada vez mais fácil ficar sem casa, mas o caminho inverso é muito mais tortuoso. Mesmo quem tem muita boa vontade estaria disputando um emprego com alguém que tem um endereço fixo e um lugar para tomar banho e lavar a roupa.
Até as migalhas
E, enquanto ficamos tristes e indignados pela quantia de pessoas sem casa, sem renda, dependendo do Auxílio Brasil (ex-Bolsa Família) para sobreviver, os bancos, sempre eles, seguem otimistas e salivam diante da possibilidade de sugar o sangue até de quem não tem quase nada.
Graças a uma Medida Provisória convertida em lei, os bancos podem fazer empréstimos consignados para quem recebe o Auxílio Brasil.
Sempre que alguém mal intencionado disser: “aí, mas se a pessoa dá a casa como garantia o banco oferece um juros menor, porque é uma operação com menos risco”, você pode mostrar esta conta.
UOL -08/07/22UOL -08/07/22
No consignado o risco para o banco é ZERO, pois ele retém a parte dele antes mesmo do beneficiário ver a cor do dinheiro e, mesmo assim, o juros é de CEM PORCENTO.
Discalculia
Julio Cesar Vieira Gomes (Secretário especial da Receita Federal) / Sandro de Vargas Serpa (Secretário especial adjunto da Receita Federal) / José de Assis Ferraz Neto (Subsecretário-geral da Receita Federal) - FSP 30/06/22
Julio Cesar Vieira Gomes (Secretário especial da Receita Federal) / Sandro de Vargas Serpa (Secretário especial adjunto da Receita Federal) / José de Assis Ferraz Neto (Subsecretário-geral da Receita Federal) – FSP 30/06/22
Antes de encerrar, só um nota rápida para dizer o quanto o Brasil é louco. Nosso sistema tributário é tão, mas tão desigual, que até a galera liberal que o Paulo Guedes levou para a receita não consegue se conformar com o fato de que quanto mais rica a pessoa, menos imposto ela paga.
Pintores
Por fim, seguimos com Gustav Klimt.
Uma característica marcante em Klimt são essas estampas nas roupas que parecem quase coladas chapadas, remetendo, de novo, à arte oriental.
Esse é um quadro que sintetiza muito o Klimt. Tem umas figuras absurdas que marcam o estilo simbolista dele, tem essa planificação que remete ao oriente, tem os elementos dourados e o desenho com uma estilização alongada da anatomia.
Antes dos designers, quem faziam os cartazes dos eventos eram artistas do calibre de Klimt que, intuitivamente, faziam uma composição perfeita que é linda visualmente e transmite a mensagem necessária.
Eu adoro a forma como essa paisagem é construída nessa pintura que faz um enquadramento bem peculiar quase fechado nas copas das árvores.
Klimt foi um mestre absoluto na arte de retratar mulheres e tecidos. É incrível o uso de elementos gráficos construídos com precisão para conduzir o olhar ao mesmo tempo que há um apuro técnico na pintura que nos presenteia com esse tecido transparente do último quadro.
P.S.
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