Caderno de Recortes #56 – paranoia/Edvard Munch

Olá, pessoal, como estão? Esqueci de avisar que essa newsletter é tão profissional que tira férias. Então, essa edição e a próxima são quinzenais.
 
Um estudinho rápido do Luccas Papp no personagem de Anjo de Cristal. Agora ele está na peça Falcão Vingador, recomendo.
Um estudinho rápido do Luccas Papp no personagem de Anjo de Cristal. Agora ele está na peça Falcão Vingador, recomendo.
Ideias roubadas
“Só filósofos e tolos perdem tempo com o que não se pode saber ao certo.”
  • Nero Wolfe em Please Pass The Guilt de Rex Stout
Parados no tempo
Em uma edição antiga dessa newsletter falei sobre como esse protagonismo da “narrativa” dificulta o entendimento de tudo. A ciência e até a nossa compreensão da vida avança se baseando em uma série de paradigmas pré-estabelecidos que nos permite prosseguir a parte de um ponto já demarcado.
O paradigma funciona como um bloco, um tijolo. Eu não preciso ficar amassando o barro para fazer os meus tijolos toda a vez que quiser construir uma parede, pois eu tenho a certeza de que usando o tijolo já pronto a parede vai subir e se sustentar.
Os astrofísicos não precisam perder tempo provando a teoria da gravidade ou o fato que a Terra é redonda toda vez que vão calcular velocidades orbitais para determinar a trajetória de um objeto.
Sim, paradigmas podem ser contestados e alterados ao longo do tempo, mas a sociedade precisa de um nível mínimo de pontos de apoio em todas as suas áreas, mas justamente esses mecanismos de segurança foram corroídos ao longo dos anos.
Jornais são confiáveis? Deveriam ser, mas a qualidade deles caiu a tal ponto que hoje temos na edição impressa (ou seja, passou por editor, diagramador, revisor…) algo assim:
Que já está um pouco melhor do que a versão sem edição do site que indica que Mia estava de jejum a 68 anos e, ao voltar a se alimentar, derrotou a 1ª Coroa do Espírito Santo.
Fabio Luis de Paula - FSP
Fabio Luis de Paula – FSP
Óbvio que isso é um problema menor, a péssima qualidade dos textos jornalísticos poderia ser relevada se, ao menos, os fatos fossem confiáveis. Mas são inúmeros os casos de erros que minam a credibilidade dessa mídia.
Além disso, devido a crise financeira, o jornalismo “perdeu suas pernas”. Há poucos repórteres, poucos funcionários indo de fato averiguar as situações e o pouco dinheiro que restou tem sido investido na parte de análise e opinião.
Sim, a parte opinativa é mais interessante para o leitor, mas a função social de checar os fatos é vital para que essas mesmas opiniões sejam razoáveis e fundamentadas.
E qual o grande problema disso?
Quando vemos uma notícia que beira ao absurdo (e nos últimos anos elas são mais do que abundantes) precisamos de uma fonte confiável para saber se aquilo é verdade mesmo, ou mais uma manipulação. Não é possível depender do labirinto das redes sociais para isso, até porque esse poço está com a água mais do que contaminada por uma fila interminável de empresas e entidades focadas em nos manipular por toda a sorte de motivos.
FSP - 23/07/22
FSP – 23/07/22
Isso vai de ações mais explícitas, em que se invertem os papéis e, em vez de a empresa pagar pela publicidade, ela cobra para que os desavisados divulguem a marca de qualidade duvidosa dela.
20/07/22 - Painel S/A - FSP
20/07/22 – Painel S/A – FSP
O novo jogo do engajamento vai dessa praga do “ambiente instagramável” pra pegar trouxa, até questões mais sérias.
Monica Bergamo - FSP 27/07/22
Monica Bergamo – FSP 27/07/22
Os políticos se especializaram em reforçar a polarização para que qualquer movimento nas redes crie um fato que muitas vezes não existia. Basta soltar uma ideia polêmica o suficiente, que você tem as pessoas que concordam e as que discordam ajudando esse tema a circular a ponto de formar debates acalorados que passam a agregar diversos assuntos paralelos e, muitas vezes, chegam justamente aos conteúdos opinativos “formais” das grandes mídias de outrora que hoje, apesar da perda da grandeza, ainda guardaram uma reserva moral que é usada para validar muitos debates absurdos.
Tudo isso cria um ambiente de tensão permanente que nos leva a paranoias intermináveis como esses dois casos recentes:
Bandnews 18/07/22
Bandnews 18/07/22
O que ambos esses casos têm em comum? Segundo muitos, os dois se tratam de uma queima de arquivo óbvia de nomes ligados de forma tangencial a Bolsonaro. E veja, os jornais não ajudaram em nada para melhorar o ambiente, eles lançaram no ar os fatos (os suicídios das pessoas e as ligações deles) e apenas abandonaram o caso para os teóricos das conspiração.
Veja, já tem mais de duas semanas os casos e não houve nenhuma notícia abordando os pontos em aberto das questões. Os casos simplesmente foram abandonados porque a parte interessante para o jornal (lançar uma notícia que tem um potencial polêmico) já estava executada.
A questão que temos que pensar até mesmo para apaziguar nossas mentes é que não podemos entrar nem alimentar as paranoias fabricadas sob medida para nos enlouquecer. É difícil dizer que “nem tudo é uma conspiração” quando um app como iFood criou, comprovadamente, uma conspiração digital para desmobilizar a tentativa dos funcionários deles de ter um tratamento minimamente digno.
Mas, se nem sempre dá para saber se estamos sendo manipulados ou não, ainda em um mundo que “influenciador” virou profissão bem remunerada, é preciso tentar formar uma consciência pessoal do limite de envolvimento de cada um de nós e o ponto que isso passa a afetar nossa saúde mental, por que um perigo muito maior que qualquer conspiração ronda a cabeça das pessoas.
FSP 17/07/22
FSP 17/07/22
Por fim, antes que me acusem de manipular vocês ao relacionar os dois suicídios conspiracionistas a essa escalada de mortes que atinge a sociedade como um todo, é importante lembrar que o suicídio é multifatorial e uma série de problemas acumulados pode ser acionada por um acontecimento menor que funciona como gatilho ou gota d´agua. Se ver envolvido em um de repercussão nacional como esses dois pode muito bem ter sido o que catalisou uma série de problemas que as duas pessoas já viviam.
O aumento do absurdo desse índice de suicídios é um indicador extremo de como nossa saúde mental vai mal e se entregar com tudo a esse ambiente tóxico polarizado armado sobre uma teia de mentiras intencionais não vai ajudar em nada.
Teatro
Muita gente fala que tudo no teatro é exagerado, os gestos são performáticos, a voz é projetada, a maquiagem reforça as linhas de expressão, etc. Tem um motivo técnico para isso, que é o fato de que todos na plateia têm que entender o que está acontecendo, mas isso é uma das belezas do teatro, diferente da publicidade que cada vez mais tenta nos enganar ao ponto de fingir que não é uma manipulação, o teatro é uma mentira declarada e combinada entre o público e os atores. Todo mundo sabe que o que está acontecendo ali é uma performance, não precisa esconder nada.
Pintores
Já que estamos falando sobre temas que nos fazem querer gritar, as próximas edições serão dedicadas ao Edvard Munch, o pintor simbolista famoso pelo quadro O Grito.
Como sempre, separei alguns quadros menos óbvios do pintor, em ordem cronológica para essa semana e as próximas.
Os estudos de paisagens com técnica muito tradicional são sempre comuns no período inicial de formação dos artistas. Aqui já vemos um trabalho bem refinado, com essas árvores criando um primeiro plano que dá profundidade para a cena e destaca a casinha dentro da composição.
Esse retrato é bem interessante, tem um desenho bem acadêmico, bem recortado, em uma pose de ¾ de rosto bem tradicional por criar com facilidade a sensação de volume, ao mesmo tempo, a técnica de pintura é mais agressiva e com pouca definição.
Esse é um retrato com uma composição bem tradicional, com pinceladas mais grossas e expressivas remetendo a um pós-impressionismo, é um quadro que lembra mais Toulousse-Lautrec do que Munch, mas que tem um desenho fantástico.
Em uma linha bem diferente, esse é um quadro bem mais “comportado” em termos de pinceladas, mas tem um design e um estilo de recorte de luz e sombra que é muito a frente do tempo de Munch, inclusive tem pintores hoje em dia com um estilo muito semelhante a esse.
Por fim uma paisagem que já transita mais para o impressionismo de Monet. É bem interessante ver como Munch passou por vários estilos e influências até definir algo que o marcou visualmente.
P.S.
Obrigado a quem se inscreveu e leu.
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Abraços e até a próxima.