Desenhando com o lado direito de cérebro e exercícios de aquecimento – Parte 1

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[Veja a playlist de vídeos com os exercícios do livro https://www.youtube.com/playlist?list=PLf2cO1HvlOe7mdti23nBqAKQAurwNJUQ_ ]


Esse ano eu gostaria de investir um pouco mais nos textos sobre ilustração para o blog e uma das minhas ideias é testar e compilar uma série de dicas e exercícios clássicos do ensino de desenho.

Decidi começar com um livro muito popular que continua sendo recomendado até hoje: Desenhando com o lado direito do Cérebro, de Betty Edwards.

Desenhando-com-o-lado-direito-do-cerebro


Antes que você corra para comprar o livro, duas coisas: o livro está atualmente esgotado e eu realmente não recomendo o livro.

Tenho esse livro faz um bom tempo e essa é a segunda vez que eu invisto na leitura dele e, novamente, tenho vontade de queimá-lo.

Me explico. A senhora Edwards fez um estudo aprofundado da neurociência no que se trata das funções dos hemisférios cerebrais. Simplificando muito, a teoria principal dela se baseia em estudos que dizem que o lado esquerdo do nosso cérebro controla as atividades lógicas e o lado direito as atividades criativas.

No caso, a capacidade de desenhar estaria travada no lado direito por conta da dominância do lado esquerdo. Partindo disso, ela criou um curso que ajuda você a “silenciar” o lado esquerdo do cérebro e usar livremente o lado direito que é naturalmente apto a desenhar.

Os americanos adoram fazer “acampamentos de qualquer coisa”, que na prática são retiros com um objetivo específico, então ela passou a oferecer um acampamento de desenho de 15 dias onde aplicava extensivamente suas técnicas e, segundo ela, conseguiu resultados impressionantes.

Então por que não recomendo o livro? Basicamente porque ele é extremamente chato – salvo se você realmente se interessar por neurociência – e também porque essa teoria das funções do cérebro bipartido não é algo totalmente aceito na comunidade científica e tem sido cada vez menos propagada nas últimas décadas (o livro é de 1979, revisado e ampliado em 1999).

Então por que estou falando do livro? Independente do fundo teórico, o fato é que os exercícios que ela propõe, no geral, são eficientes e tem sido usados com sucessos por muitos professores.

Sinceramente eu não acredito nesse fundo teórico e me frustra muito quando a autora descreve uma espécie de “transe” que o desenhista entra quando transita para o cérebro funcionando apenas com o lado direito, mas, os exercícios são interessantes.

Para reforçar o lado da “não recomendação”. Os exercícios desse post foram extraídos da primeira metade do livro, ou seja, 140 páginas de uma literatura científica complicada para chegar em poucos exercícios práticos.

A seguir vou falar desses primeiros exercícios que se baseiam na percepção do que a autora chama de “arestas”. Arestas são as linhas, os lugares onde dois planos se encontram e nós desenhamos uma linha para representar esse encontro.

Segundo a autora, o aprendizado do desenho se divide na compreensão dos conceitos de “arestas”, “espaços” (espaço negativo), “relacionamentos” (proporção e perspectiva), “luzes e sombras” e “Gestalt” (todo) – nesse ponto eu concordo muito com ela e vejo que muitos cursos de desenho usam essa pauta para estruturar seu material didático.

Um dos primeiros exercícios que ela propõe é o desenho “cego”:

Você pegará sua mão esquerda (ou direita se for canhoto como eu), juntará os dedos e, olhando para a mão, desenhará (sem olhar para o papel) as linhas formadas pelas rugas da sua mão. Coloque um timer para despertar em 5 minutos e faça esse exercício até o tempo acabar. O resultado será parecido com esse desenho abaixo que eu fiz.

A ideia do exercício é realmente produzir algo “sem sentido” para sintonizar melhor seu olho com a sua mão. Você fazer esse exercício com um papel amassado, uma folha ou qualquer outra coisa com muitas linhas. Independente de qualquer coisa, o desenho cego é um bom exercício de “aquecimento” antes de começar a desenhar.


Linha contínua:

Esse exercício não é do livro, mas ele segue na linha de “exercício de aquecimento”. Eu fiz muito disso em curso com o Guazzelli, o resultado às vezes é horrível, às vezes é surpreendente, mas, da mesma forma que no exercício anterior, o objetivo não é um desenho legal e sim um “aquecimento”, uma forma de soltar a mão.

O exercício é meio autoexplicativo, você escolhe uma imagem e desenha essa imagem sem nunca tirar o lápis do papel. Pode repetir linha, criar traço que não existe, pode tudo, menos tirar o lápis do papel. No começo é mais fácil trabalhar com um desenho já feito, pois os traços já estão resolvidos, mas é muito legal fazer com foto e mais ainda fazer observando alguma coisa ao seu redor.

Nas primeiras vezes é meio difícil resistir à necessidade de tirar o lápis do papel, mas com o tempo você verá que é um exercício bem interessante.

Fiz esse desenho de linha contínua baseado em um foto como exemplo.

linhacontiunua


Mão invertida:

Esse é outro exercício de aquecimento que eu aprendi com o Guazzelli que eu coloquei aqui justamente porque a autora do Desenhando com o lado direito fala explicitamente que discorda do valor artístico que alguns professores atribuem ao desenho que resulta disso.

Novamente, a exemplo do exercício anterior, o que importa não é o resultado e sim o exercício.

Ele também é autoexplicativo, escolha algo para desenhar e desenhe usando sua mão não dominante (a esquerda para destros e a direita para canhotos).

É aquele tipo de exercício meio esquisito, mas que ajuda a entrar no clima de desenhar.


Imagem invertida:

Voltando para o livro, acho que um dos exercício mais famosos é desenhar uma imagem invertida.

O ideal é um desenho só de linhas (como esse retrato feito por Picasso que a autora coloca no livro), mas você pode tentar qualquer imagem, basta colocá-la de ponta cabeça e desenhá-la da melhor forma possível sempre pensando nas formas das linhas e não em formatos reconhecíveis.

Ao longo da vida as pessoas criam um repertório de formas padrões para olho, boca, nariz, dedo, etc. Esse repertório do artista é importante para compor o estilo dele, mas bloqueia o desenho realista, porque quando você olha um nariz e reconhece que aquilo é um nariz, você para de olhar de verdade e usa o seu repertório preestabelecido.

Abaixo o desenho original e na sequência o que eu fiz. Você pode fazer salvar os dois no seu computador e invertê-los para compará-los. O resultado é interessante, não é um exercício para fazer todos os dias como os desenhos de aquecimento citados acima, mas é algo que vale a pena fazer de tempos em tempos para exercitar sua habilidade de desenhar algo aparentemente abstrato.

picasso_stravinsky

picasso invertido


Meros contornos:

Apresentei uma proposta alternativa ao exercício de meros contornos nesse vídeo aqui https://youtu.be/YFBcPDflgPk do canal do site no youtube.

A proposta é pegar pinturas complexas (deixei várias referências que podem ser usadas nessa pasta do pinterest https://br.pinterest.com/oliboni/referências-para-meros-contornos/) e focar nos contornos das imagens.

Repare que nas referências eu uso só pinturas, por não ter um protagonismo da linha para copiar, e separei imagens que possuem um visual complexo, cheios de formas retorcidas.

O importante ao fazer esse exercício é não focar em detalhes nos termos do desenho acadêmico, você deve perceber áreas de encontros de massas que podem ser representadas por linhas e focar nelas. Não desenhe a estrutura invisível da forma que se constrói o desenho acadêmico, foque no que você vê, nas formas e ângulos e represente isso da melhor forma possível.

Não foque no resultado, foque no exercício de percepção, em entender aquelas imagens como massas complexas em planos distintos (no final você pode marcar as áreas de massas mais escuras, para começar a formar uma percepção de profundidade).

Esse exercício pode ser feito com as propostas acima também, feito sem olhar para o papel, com linha contínua, mão trocada.

O importante é ter muita paciência e começar a treinar a mão para ser guiada pelo seu olhar e treinar o olhar para encontrar o que é necessário desenhar em uma figura mais complexa.

Veja o vídeo para entender melhor o processo.


Plano de imagens:

Outro dos exercícios clássicos o livro é o plano de imagens.

Esse é um pouco complicado, você precisa de um retângulo de vidro de mais ou menos 15cmx20cm (ou outra medida que tiver, desde que tenha um tamanho que seja possível segurar), proteja as bordas com fita adesiva e com uma caneta trace duas linhas dividindo a largura e altura do vidro na metade (outra possibilidade é uma prancheta transparente, no terceiro vídeo da playlist acima eu faço uma demonstração desse uso)

Usando esse plano de imagens você vai selecionar algo ao seu redor (pode ser inclusive sua mão) e com uma caneta hidrográfica irá desenhar o que você está vendo contornando no vidro.

Esse exercício faz muito sentido. O mundo é tridimensional, mas o desenho é bidimensional, então ao longo da história os desenhistas desenvolveram uma série de técnicas que fazem exatamente o que o plano de imagens faz: reproduzir a tridimensionalidade.

O conceito é que o desenhista tem internalizado no seu cérebro um “plano de imagens” e, quando ele olha para qualquer coisa, já consegue automaticamente bidimensionalizar aquilo.

Obviamente quem não sabe desenhar não tem nem ideia de como começar e esse exercício, com um plano de imagens físico, ajuda a começar a ter uma noção do caminho que tem que se seguir.

O segundo passo desse exercício é reproduzir aquilo que você está vendo em um papel, usando como guia o traçado de contorno que foi feito no plano de imagens, para isso comece marcando no papel um retângulo com as linhas guias igual a do plano de imagens e depois copiando aquele contorno e na sequência retornando para a imagem real para acrescentar todos os detalhes que conseguir.

Eu tenho uma sugestão moderninha e alternativa para isso, não é 100% o mesmo efeito pois não exercita tanto o olho como o plano físico, mas exercita a mão e o raciocínio. Quem tem um tablet e uma caneta que funciona no tablet, pode tirar uma foto ou pegar uma imagem e usando um app que tenha “camadas” (como o photoshop) pode colocar a foto em uma camada e desenhar o contorno por cima em outra camada.

Veja, esse desenho não tem nenhum valor artístico, é só um exercício de compreensão de contornos.

Abaixo o desenho que eu fiz desse jeito.

Sem título


Meros contornos modificado

Usando o plano de imagens, desenhe algo que você está vendo (sua mão, ou algum objeto complexo ao seu alcance).

Pegue uma folha de papel, delimite uma área do mesmo tamanho do plano de imagens e “matize” o papel com grafite (esfregue o lápis suavemente por todo o papel e depois, com um papel toalha, homogenize a área e tire o excesso de grafite até formar uma superfície prateada mais ou menos homogênea).

Desenhe as linhas horizontais e verticais no meio da área, iguais as do plano de imagens. Usando essas linhas como referência, copie os contornos registrados no plano de imagens para a área coberta por grafite).

Deixe o plano de imagens de lado e foque no objeto que você usou como referência.

Foque em um ponto qualquer e coloque o lápis no mesmo lugar que você está focando. Vá completando o desenho, fazendo o lápis seguir seus olhos pelo objeto.

A proposta aqui é mais treinar o olhar do que o desenho em si, então passe mais tempo observando, medindo visualmente, do que desenhando. (Quando terminar, pode apagar o grafite no entorno da figura para melhorar a visualização do desenho feito).

Esse é um exercício importante para repetir sempre, o desenho de observação, seja com a “muleta” do plano de imagens ou não, é algo que faz sempre parte da vida do artista.


Lembre-se, essas propostas são exercícios que fazem parte de um processo longo de aprendizado e não um mecanismo ou um truque para desenhar algo. O resultado desses exercícios não tem como objetivo criar um “desenho bonito” e sim ajudar na internalização de um processo bem mais complexo.

Com isso eu encerro esse primeiro post sobre o livro Desenhando com o Lado direito do Cérebro, ressalto que minha proposta aqui não é dar um curso de desenho, mas sim compartilhar o que eu tenho estudado.

Veja todos os textos sobre o livro aqui

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Se você também está estudando desenho e tem alguma dúvida, quer ver outros tipos de exercício mais específicos, mande um e-mail para contato@diletanteprofissional.com.br e eu vou atrás de pesquisar a sua sugestão.


Vídeos desse post