Desenho gestual

Atualização:

Fiz esse vídeo com uma demonstração e falei mais sobre formas de abordar o desenho gestual

 

 


Texto original de 2016

 

Continuando a série de textos sobre aprendizado de desenho, vou falar nesse post um exercício clássico de “aquecimento”.



Aquecimento pode parecer uma coisa de esporte, mas é válida para o desenho. Assim como no esporte, desenhar exige uma conexão entre a mente e os músculos – que obviamente é menos de força e mais de precisão. Então, antes de fazer um trabalho, fazer um desenho mais elaborado, muitos artistas fazem um aquecimento. Um desenho solto, só para entrar no clima.

Obviamente tem uns caras muito profissionais que o desenho despretensioso de aquecimento deles já é algo assustador de bom.

Para aquecer você pode fazer um desenho rápido, pode fazer um desenho de linha contínua ou qualquer coisa sem investir tempo demais. Quando eu fiz um curso de pintura com o Davi Calil em algumas aulas a gente fazia três pinturas pequenas e rápidas só para entrar no clima e isso ajuda bastante.

Mas o exercício em específico que eu quero falar hoje é o de desenho gestual, que é muito usado por vários artistas.

O desenho de gestos (gesture drawing) é focado na linha de ação e nas posições da figura humana.

Toda posição tem um eixo central, uma linha que acompanha o movimento principal, quanto mais curvada ou mais fora do normal for essa linha, mas dinâmica é a pose.

Quando se aprende a desenhar muitas vezes existe aquele foco na figura paradinha ereta com os dois braços alinhados ao corpo. Isso dá a ideia de umas proporções básicas que se usa, contudo, não leva em conta a forma que o corpo se dobra, se movimenta e principalmente a distorção de perspectiva que surge desses movimentos.

Então aquelas regras de que o corpo mede algo entre 7 a 8 vezes o tamanho da cabeça funcionam só para o desenho paradinho que, convenhamos, só tem essa função puramente acadêmica.

Para compreender melhor a estrutura do corpo e como essas partes se projeta, o exercício de desenho gestual é perfeito.

A ideia é central do exercício é pegar uma série de fotos, com o máximo de movimento possível e desenhar rapidamente essas posições sem se preocupar tanto com os detalhes e sim com as massas dos corpos, volume e marcação básica de sombras.

O ideal quando se faz esse tipo e desenho é delimitar o espaço geral que a figura vai ocupar e dividir esse espaço com a esfera básica da cabeça, a linha de ação e os distanciamentos básicos (altura dos ombros, cintura e joelhos quando isso fizer sentido na cena)

No geral a principal linha de ação em cima da qual se constrói a figurinha é a da coluna. Mas vale lembrar que a linha de ação pode ser aplicada também em detalhes. Se você quiser fazer uma série de estudos rápidos de expressões faciais, pode trabalhar principalmente com a sobrancelha como linha de ação. Sempre é importante lembrar que, dependendo da posição e do ponto de vista, a principal linha de movimento pode não ser a da coluna. Uma pessoa de cócoras, vista de cima, pode ter mais “movimento” nos ombros do que na coluna que quase não é vista.

Delimitado os espaços e marcada a linha de ação, completa-se a figura com volumes básicos (tronco, bacia, membros) e, se for o caso, faz-se uma marcação mais simples de luz.

O ideal quando se faz esse tipo de exercício é evitar estilizar a figura e tentar desenhar exatamente o que está vendo. O propósito do exercício não é gerar um desenho aproveitável para alguma função artística e sim uma compreensão geral do está se vendo.

Tem um site que eu uso com muita frequência para esse tipo de exercício é esse aqui. Esse site oferece uma ferramenta que você pode selecionar o tipo de fotos que vai ver (só homens, só mulheres, pelados, com roupa, animais, esqueletos) e o tempo que cada foto será exibida. [Além desse site tem centenas de outros com fotos de referência para esse tipo de exercício e, inclusive, com ferramentas parecidas, como por exemplo esse aqui e esse outro]

Uma configuração legal é a que eles chama de “aula”. Nessa configuração as imagens são mostradas em tempos diferentes começando com várias posições de trinta segundos, mais várias de um minuto e depois posições mais longa. Você escolhe o tempo total da sua “aula” e desenha.

Essa estrutura que se assemelha à de muitas sessões de modelo vivo é bem legal, porque você começa pegando o ritmo com desenho bem rápidos, marcando só o essencial, ganha um pouco mais de tempo para colocar um detalhe ou outro a mais, até que chega nas posições longas onde dá para trabalhar um desenho mais completo.

Outra prática é procura sites que tenham várias posições de um mesmo movimento. Esse tipo de prática é muito feita por animadores que precisam desenhar centenas de posições diferentes em um mesmo movimento. Já reparou como quadrinhistas que são animadores têm um traço bem dinâmico? Isso é porque eles passaram horas estudando as várias posições de um movimento e sabem exatamente qual o ponto mais elástico e mais dinâmico de uma cena e usam isso nos quadrinhos.

Algumas dicas: separe o material que você gosta de usar (pouca coisa, lápis e uma ou duas canetas já resolvem); sempre passe mais tempo olhando mais para a figura do que para o papel; não use borracha, não faz sentido algum, se está “errado” vá para o próximo desenho; já ouvi dizer que para as primeiras figuras rápidas é legal usar caneta por um efeito psicológico que ajudaria o cérebro a compreender que aquilo não tem volta e tudo bem (particularmente tem dia que eu uso lapiseira, tem dia que eu uso caneta, é bem aleatório).

Lembrando novamente que isso é um mero exercício e depois você pode olhar e ver o que funcionou e o que não funcionou no seu desenho.

Como eu sempre digo nesses textos, esses exercícios e o autodidatismo podem levar o artista até certo ponto, mas, o ideal, é fazer um bom curso, ter um bom professor ou, no mínimo, alguém além de si mesmo que olhe os seus desenhos e saiba dizer se aquilo está funcionando, onde você está errando e o que melhorar.

Praticar o desenho sem uma reflexão, sem uma crítica externa, pode levar a pessoa a criar uma série de vícios que depois serão muito difíceis de anular.

Apesar desse exercício e desses sites simularem algo parecido com um modelo vivo, as fotos nunca substituem ver presencialmente o modelo trabalhar e desenhar. Procure na sua cidade sessões de modelo vivo ou, de preferência, aulas de modelo vivo onde um professor dará dicas e analisará o que você está fazendo. Em São Paulo a Quanta Academia de Artes sempre promove umas aulas bem legais de modelo vivo.

Abaixo estão os desenhos de uma sessão de exercícios de 30 minutos que eu fiz no site citado acima.

Começa com os desenhos rápidos, vai aumentando o tempo até o desenho mais longo (eu desenho da direita para esquerda na página porque eu sou canhoto).

Nessa HQ que está aqui no site eu fiz uma marcação com uma cor da linha de movimento da figura. Foi uma tentativa de uso estético da linha de movimento.

 

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