O que eu não vejo

capactextoComeçou com um clichê. Talvez ela nem tenha dito exatamente isso, mas na cabeça de Raul a voz dela ainda ecoava. Eu vejo tudo. Uma pausa dramática e ele ouvia novamente a pior parte. O que não vejo não aconteceu, nem nunca vai acontecer.

Nada nela inspirava confiança. Uma velha, maltratada pelo tempo e pelo sol, com roupas puídas, talvez tão velhas quanto ela. Equilibrava trêmula em uma mão um guarda-chuva quebrado que a protegia do sol e segurava na outra mão seu baralho velho, seboso e tão desbotado que quase não dava para dizer se era um tarô ou um jogo qualquer de cartas. Raul não tinha nenhuma razão para ter parado ali. Não havia nem um fiapo de lógica para se agarrar.

Nada, a não ser a voz quase hipnótica que saiu daquela boca ressecada. Não vejo felicidade nessa vida. No escuro solitário da mente de Raul ela nunca parava. Você não teve e não vai ter amor nem sucesso e quase não tenho vontade de pegar seu dinheiro. Ele podia ter ido embora, podia ter ignorado, mas continuava ouvindo. Pego porque me falta e dinheiro… dinheiro até que você vai ter, mas nesse tempo que Deus lhe deu, nada de felicidade.

Talvez ela nem tenha dito tudo isso, talvez a memória de Raul seja mais cruel do que a velha. Mas a cabeça dele não parava antes de repetir mais uma frase. Sinto pena, pena é o que dá para ter de você.

Raul sabia que não deveria ter parado ali, que não devia ter dado dinheiro para uma velha louca. Sabia que ela falava coisas sem sentido. Mas o fato é que Raul era tão inseguro e tão indeciso que muitas vezes tinha que jogar uma moeda para decidir onde ia almoçar.

Nada nela inspirava confiança e, ainda assim, passava mais confiança do que Raul seria capaz de demonstrar em toda sua vida.

Que coisa cruel a se dizer para alguém frágil como Raul. Ela podia ter mentido, podia ter omitido, podia ter se negado a falar com ele, mas, por algum motivo, não se sabe se por crueldade ou não, decidiu sentenciá-lo.

Frágil, extremamente frágil, Raul tentou provar para si mesmo que ela estava errada.

Já teve amores, estava quase certo disso. Não, remoendo friamente, não teve. Já amou, pelo menos pensa que amou, mas nunca se sentiu amado, talvez nem saiba exatamente o significado desse sentimento. Talvez até a namorada atual, que ele acreditava que poderia ser a pessoa que ele pediria em casamento e que o aceitaria, talvez até ela não o amasse. Talvez ela nem dissesse sim. E, talvez por isso, imerso na névoa densa da incerteza, ele tenha sentido a necessidade de encerrar essa relação antes que qualquer problema maior surgisse. Não que ele admitisse, mas talvez por causa da sua sentença ele tenha aceitado que seria melhor deixar esse departamento da sua vida interditado.

Teve sucesso, isso provavelmente era incontestável. Muitos considerariam ter um emprego um sucesso. Muitos considerariam executar razoavelmente um trabalho útil para a sociedade um sucesso. Raul poderia pensar assim, poderia até pensar que ele era tão bom no que fazia que podia ir além, fazer mais, ensinar, galgar posições e comandar outros que seriam tão bem-sucedidos quanto ele. O problema é que sempre lhe faltou confiança. Tinha chegado a um ponto até aquele momento, um ponto que era meramente melhor que coisa alguma, e, mesmo assim, era um ponto que jamais conseguiria ultrapassar. Um ponto onde, a cada oportunidade que se abria, a voz hipnótica da velha surgia pesada e definitiva de tal forma que ele imaginava que qualquer degrau acima, qualquer lugar ao sol, seria uma armadilha, um caminho certo para a destruição.

O verdadeiro desespero chegou quando não conseguiu encontrar nada na sua vida que parecesse felicidade. É verdade que não tinha sofrido problemas maiores, que não passou por nenhuma tragédia que não fosse natural ou esperada no curso de uma existência. O problema era que, olhando em retrospecto, nada chamava atenção na sua vida. E, novamente, a voz hipnótica era validada. E, onde antes estavam apenas as trevas da credulidade, um lampejo de lógica surgia, porque mesmo a loucura tem uma lógica impecável e nada é mais enlouquecedor que a lógica. Se a parte sobre o passado estava certa, como questionar a previsão do futuro?

Sem propósito, Raul pensou em se matar. Como sempre fora um covarde, pesquisou os meios mais indolores e descobriu uma velhinha nos Estados Unidos que vendia um kit prático de suicídio. É claro que se matar era uma decisão e decisões nunca fizeram parte da natureza de Raul que, até nesse aspecto, fracassou.

A poeira se acumulava na sua vida e cada vez menos pessoas ligavam para ele.

Depois de anos de trabalho silencioso e servil, indo e voltando no mesmo trajeto, sem nunca escolher um caminho diferente, ele teve o direito de se aposentar e ficar em casa recebendo pelo trabalho que não precisaria mais fazer.

Trancado, sozinho, sem propósito, sem amor, sem sucesso, sem felicidade, decidiu esperar a morte, mas nem ela desejaria Raul. A sua saúde refletia sua vida. Nunca fora um atleta, mas desde o nascimento nunca precisou de um médico. Os anos se passavam e seu corpo continuava forte. Seu coração nunca perdia uma batida, nunca saia do ritmo. Até na velhice Raul fracassou.

Eventualmente Raul deve ter morrido. Cedo ou tarde todos são capazes de realizar pelo menos essa façanha, mas quando aconteceu ninguém mais se importava, muito menos o próprio Raul.